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Número 21, Fevereiro 2008

trabalho

Exaustos e mal pagos

Pesquisa revela que médicos de São Paulo têm orgulho da profissão, apesar de desvalorizada. Estado mais rico do país ainda tem municípios tão mal servidos de médicos quanto o Maranhão, um dos mais pobres
por Aureliano Biancarelli publicado , última modificação 02/10/2017 11h10
Pesquisa revela que médicos de São Paulo têm orgulho da profissão, apesar de desvalorizada. Estado mais rico do país ainda tem municípios tão mal servidos de médicos quanto o Maranhão, um dos mais pobres
Mauricio Morais
recém-formada Luciana

A recém-formada Luciana, de 27 anos, faz residência de 60 horas semanais no Hospital das Clínicas, mas precisa reforçar o orçamento na rede privada

Em 136 das 645 cidades de São Paulo não mora nenhum médico. Nesses casos, eles vêm de outros municípios e, assim que cai o sol, retornam para sua cidade. Passa a funcionar a “ambulância terapia”, em que o motorista vira o “socorrista” mais importante. No mesmo estado de São Paulo, a cidade de Botucatu tem pouco mais de seis médicos por mil habitantes, uma das mais altas taxas do mundo. E em dez outras cidades a proporção de médicos é superior à de países como Reino Unido, Austrália, Canadá e Estados Unidos.

O cenário parece privilegiado. Mas, quando se observa o cotidiano dos médicos, vê-se que eles trabalham em média 52 horas semanais e têm três diferentes empregos. Um terço deles chega a ter mais de quatro empregos e trabalha mais de 60 horas. Considerando todos os vínculos, 45% dos médicos recebem entre R$ 3 mil e R$ 9 mil. No conjunto, os médicos dizem gastar, em média, cerca de R$ 2.500 por mês para manter a profissão – consultório, transporte, alimentação, atualização profissional e impostos.

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O perfil do médico paulista aparece em pesquisa realizada no final do ano passado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e pelo Instituto Datafolha. Os outros dados vêm do Conselho Federal de Medicina e de levantamento inédito do Banco de Dados do Cremesp.

A pesquisa tomou como amostragem 400 profissionais sorteados entre os cerca de 92 mil inscritos no conselho. Apesar das dificuldades, 61% dos médicos entrevistados disseram estar satisfeitos com a profissão e 29% afirmaram estar nem satisfeitos, nem insatisfeitos. Outros 10% disseram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos.

Os satisfeitos citaram principalmente sintonia com a vocação, amor ao trabalho e realização pessoal. Apenas 9% dos satisfeitos afirmaram que o salário é motivo para estar bem com a profissão. Mesmo entre os mais velhos e que ganham acima de R$ 12 mil, a satisfação é atribuída à vocação, não ao dinheiro. Já entre os motivos de insatisfação, os baixos salários vêm em primeiro lugar, seguidos de precárias condições de trabalho, jornada excessiva e falta de reconhecimento.

Ao definir a profissão numa única palavra, 44% dos entrevistados citaram termos positivos, como dedicação, gratificação, paixão, satisfação. Os jovens de até 29 anos foram os que mais fizeram referências positivas. Mas 46% dos médicos definiram a profissão com menções negativas, como difícil, árdua, exaustiva, desvalorizada, frustrante.

Problemas não faltam

Os pesquisadores também quiseram saber qual o “maior problema que os médicos enfrentam hoje”. Mais da metade das mulheres – 52% – disseram que são os salários baixos, opinião emitida por 40% dos homens. A baixa remuneração é a principal queixa em todas as faixas etárias, tanto na capital como no interior, mesmo entre os que ganham mais. Os planos de saúde aparecem como problema para 21% e a infra-estrutura do local de trabalho, 20%. O “sistema de saúde”, que está na base de todos os problemas estruturais, só foi citado por 6% dos entrevistados.

O trabalho mostrou que 55% dos médicos paulistas atendem pacientes por convênios. Outro grupo importante, 27%, trabalha em locais que não comportam atendimento por convênio, como empresas, fundações, academias, laboratório, pesquisa. Dos médicos com consultório próprio, 12% não atendem planos de saúde. São, geralmente, aqueles com clientela de maior poder aquisitivo, que chegam a cobrar de R$ 400 a R$ 800 por consulta.

Entre os que atendem convênio, 43% afirmaram já ter sofrido ou sofrer algum tipo de restrição ou imposição da operadora. Na lista das restrições, estão a não autorização de consultas, internações, exames, procedimentos e corte no tempo de internação. Um terço dos médicos citou o descredenciamento, usado como ameaça e forma de restringir os procedimentos. E 22% (nas respostas múltiplas) citaram a quebra de sigilo. Significa que, dez anos depois de promulgada a Lei dos Planos de Saúde, as operadoras continuam interferindo nos procedimentos médicos e quebrando a ética médica, pondo em risco profissionais e pacientes.

grafico2“Os planos prometem o que não podem oferecer”, diz Cid Célio Carvalhaes, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo. Algumas cooperativas exigem exclusividade. Outras vezes, os próprios médicos fazem uma reserva de mercado. O sindicato cita o caso de um consórcio de hospitais do interior que repassou a um certo número de profissionais a responsabilidade de subcontratar outros médicos. Para aumentar seus ganhos, em lugar de contratar outros colegas, eles assumiram todo o atendimento, o que também não é seguro para os pacientes.

“O médico trabalha, em média, 30% além do turno constitucional de 40 horas semanais”, diz Carvalhaes. “Ele não pode, como em outras profissões, interromper seu trabalho quando termina o horário. Cuidar do doente é imperioso.” Outro dado da pesquisa Cremesp-Datafolha mostra que 38% dos médicos paulistas têm registro como pessoa jurídica, chegando a 66% no grupo que ganha mais de R$ 12 mil. O que pode parecer uma maior autonomia para o médico é, na verdade, uma redução dos direitos trabalhistas imposta pelas empresas de saúde.

Medicina feminina

Entre os formandos de 2006 que se registraram no Conselho Regional de Medicina de São Paulo, pela primeira vez as mulheres passaram os homens. São 1.568 mulheres e 1.462 homens. Na faixa etária entre 20 e 24 anos, as mulheres são 50,68%, contra 49,32%. No conjunto desse mercado de trabalho, os médicos ainda predominam, são 61,64%, contra 38,36% das médicas. Mas, como a presença das mulheres nas faculdades e entre os vestibulandos é cada vez maior, a tendência é essa proporção se inverter.

Luciana Vieira Ribeiro da Silva, de 27 anos, formou-se em 2005 pela Faculdade de Medicina da USP. Em 2006 trabalhou como médica do Programa Saúde da Família, em São Sebastião, no litoral, e agora faz residência em clínica médica no Hospital das Clínicas da capital. Recebe uma bolsa de R$ 1.600 por mês para plantões de 60 a 80 horas semanais. Reforça a renda com um plantão de 12 horas em um hospital particular. Luciana acha que uma maior presença da mulher na medicina trará mudanças para melhor, mas pensa que a relação médico–paciente depende mais do caráter e da formação de cada um do que propriamente da questão de gênero. “Já vi médicos tratando pacientes melhor que algumas médicas”, afirma. As médicas são maioria em duas especialidades, pediatria e dermatologia.

O professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador da comissão de Bioética do Cremesp, Reinaldo Ayer, acredita que a presença feminina significará uma medicina mais humanística. “Há correntes dentro da bioética que falam numa ética feminina, uma ética dos cuidados, da tolerância, do acolhimento”, diz Ayer.

Se há uma ética feminina, parte dessa prática de acolhimento dependerá sempre do exemplo do professor. Na residência médica, onde o recém-formado depara com a realidade – geralmente nas situações mais dramáticas e precárias –, ele é obrigado a cumprir de 70 a 100 horas semanais. “Não há um regulamento que diga quantas horas consecutivas podemos trabalhar”, diz Rodrigo Durante Soares, 26 anos, presidente da Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo, que faz residência no Instituto do Coração. “A figura do preceptor, que organiza o programa, que tutora o residente, não existe em muitos hospitais.” Com o residente sobrecarregado, estressado, sem um tutor a seu lado, a relação médico–paciente acaba ficando em segundo plano.

120 horas por semana

Ainda está amanhecendo quando Nilton Silva deixa a cidade de Santos dirigindo uma caminhonete Pampa. É segunda-feira e ele só estará de volta na manhã do sábado, 120 horas de plantões depois. Um plantão em Itariri, outros dois em Itanhaém, um quarto em Pedro de Toledo e o último em Miracatu – cidades do Litoral Sul e do Vale do Ribeira. Sai de um, vai para outro. “Tiro um cochilo nas madrugadas”, diz. Nilton é ginecologista, obstetra e socorrista e faz essa rotina há três anos, desde que fechou o consultório, em Santos. “A mulher já se acostumou”, os filhos estão adultos. Aos 73 anos, já poderia estar aposentado.

“Querem me ver de pijama, diante da tevê. Isso não vou deixar”, diz. Com as 120 horas por semana, está juntando uma reserva para criar gado no Vale do Ribeira. E acha tempo para um pequeno “sítio ecológico” em Caraguatatuba, no litoral norte paulista, e a direção de uma ONG, Sertão Verde, dedicada ao reflorestamento de áreas do Nordeste. “Já plantei 16,5 mil mudas de algaroba no oeste de Sergipe”, conta. A árvore, segundo ele, é originária do deserto do Peru e suas raízes chegam a 65 metros de profundidade. “Pode salvar o sertão.”

A cidade de Santos, onde mora, tem pouco menos de seis médicos por mil habitantes, uma das maiores taxas do mundo. O Vale do Ribeira, onde Nilton Silva passa a semana, tem a mais baixa taxa de médicos do estado, 0,69. Empata com a do Maranhão, a menor do país. A cidade de Pedro de Toledo, onde faz plantão das 8 horas de quinta às 8 horas de sexta, não tem um único médico morando no município, embora tenha 10 mil habitantes. Nilton passa a noite sozinho na unidade de pronto-atendimento. Se surge uma emergência de média gravidade, acorda o motorista da ambulância. 

grafico3“A gente vai se virando, liga para o Regional de Itanhaém, por exemplo, há sempre um colega que recebe o doente, as prefeituras vêm se esforçando.” Ele acha que há um problema mais grave na região que o governo não está levando a sério e vai provocar muitos danos. “É a dengue e o desmatamento. O aquecimento global já traz sérios danos ao planeta e à saúde das pessoas, mas a dengue vai matar muita gente, e logo mais”, alerta. “As matas derrubadas, as cidades avançando e o mosquito invadindo áreas urbanas. Os alagamentos e as chuvas que atingem o Vale do Ribeira e o litoral sul mostram o que virá”, diz o médico.

A quase 500 quilômetros do Vale do Ribeira, no oeste paulista, a região de Presidente Prudente vive cenário diferente na configuração, mas igualmente dramático nos resultados. O Hospital Universitário atende cerca de 45 cidades das 53 que fazem parte da delegacia do Cremesp no seu entorno. Desse total, 21 não têm um único médico morando no município. Contratados pelas prefeituras para o Programa Saúde da Família, eles vêm de cidades maiores, cumprem a jornada e voltam para casa.

“Baixou o sol, a população fica desassistida. Só resta o motorista da ambulância”, diz o médico Henrique Liberato Salvador, conselheiro do Cremesp. “As cidades estão adotando a ‘ambulância terapia’”, afirma Sérgio Luiz Cordeiro Andrade, 49 anos, diretor do Hospital Universitário da Faculdade de Medicina da Universidade do Oeste Paulista. Todos os dias, Andrade conta a fila de 15 a 20 ambulâncias com pacientes diante de seu hospital. A unidade tem 230 leitos e outros 60 de observação no pronto-socorro, metade ocupada por pacientes de cidades vizinhas.

Diferentemente do Vale do Ribeira, a região de Prudente tem estradas melhores e economia mais forte. A média de médicos é de 1,5 por mil habitantes. Para chegar às cidades com hospitais e melhor estrutura bastam de 15 a 30 minutos de carro. “Mas a falta de um médico na cidade vem provocando mortes”, diz o diretor. Ele cita dois casos, um do pai de um colega médico que sofreu um problema cardíaco e não conseguiu chegar a tempo ao hospital. O outro, um menino de 7 anos que morreu em decorrência de uma arritmia. “Alguém que fizesse uma massagem cardíaca ou respiração boca a boca poderia salvá-lo”, lamenta Andrade.

Segundo o médico, as prefeituras deveriam oferecer alguma compensação aos médicos do Programa Saúde da Família, de forma que passassem a morar na cidade. Mas, ao contrário, o “governo está incentivando o fechamento” de hospitais na região. “Pelo menos sete estão fechando e mais pessoas vão morrer.”

À equipe do Hospital Universitário não cabe outra alternativa senão atender quem bater às suas portas. Uma ação do Ministério Público vem obrigando o hospital a “enfiar goela abaixo” todos os que chegam à instituição. “É o vaga zero”, diz o diretor. “A Justiça obriga o hospital a pagar R$ 50 mil a cada paciente que não for atendido”, afirma.

Mauricio Morais Nilton
Aos 73 anos, Nilton faz 120 horas de plantões por semana. Quando dá, tira cochilos nas salinhas de médicos dos hospitais onde atende, na Baixada Santista e Vale do Ribeira. Está nessa rotina há 3 anos, desde que fechou o consultório, em Santos

Três patrões

O oftalmologista Carlos Alberto Grandini Izzo tem 51 anos, 25 de formado, faz cerca de 60 horas por semana e gasta pelo menos uma hora diária em seus deslocamentos. Tem três patrões: a prefeitura da capital, num Centro de Referência em Saúde do Trabalhador; uma empresa privada, em que é empregado pela CLT como médico do trabalho; e dois consultórios particulares, onde é seu próprio patrão, atendendo convênios. Pela experiência, Carlos Izzo está entrando na faixa caracterizada pela pesquisa Cremesp-Datafolha como aquela em que estão os mais realistas. Já não teriam a energia nem toda a ilusão dos mais jovens, mas aprenderam a mesclar suas oportunidades com a realidade do mercado.

Carlos Izzo evitou os plantões de fins de semana, para conseguir melhor qualidade de vida, e teve o privilégio de encontrar trabalho em regiões não muito distantes dentro da cidade. Mora em Moema, zona sul, e às 7h30 já está na empresa em que é médico do trabalho, na região central, onde também fica o emprego na prefeitura; um dos consultórios em que atende está no Bresser, início da zona leste, e outro, no qual alterna os dias, fica na Vila Olímpia, zona sul. Às 20 horas está em casa. Se tivesse filhos em idade escolar, teria de procurar mais um emprego.

Em sua opinião, a qualificação salarial e as condições de trabalho são os dois maiores problemas enfrentados. Em parte, por uma característica própria da profissão, a de contar com vários patrões, o que – segundo ele – dá a “falsa” impressão de que se pode escolher, que se pode ganhar mais com mais empregos. “O médico não briga por melhores condições de trabalho e de salário porque, se algo não o agradar, ele muda de emprego”, diz. Por conta dessa “dispersão”, a maioria está aceitando trabalhar por produção, sem condições de exigir honorários justos. “Pagando o mínimo, os planos de saúde estão obrigando médicos a trabalhar o máximo.”

Pacientes importados

renato

Se o quadro no estado mais rico do país é esse, imagina-se que a situação nos outros seja mais grave. Porém, quando o assunto são baixos salários e jornada excessiva, há semelhanças até no Piauí, um dos estados mais pobres. Teresina tem quase quatro médicos por mil habitantes, uma taxa equivalente à dos países ricos da União Européia. “Aqui não faltam médicos, faltam estímulos salariais”, diz o presidente do sindicato local, Leonardo Eulálio.

Entre dezembro e fevereiro, várias entidades médicas nacionais organizaram o Movimento pela Valorização do SUS e do Trabalho Médico, com manifestações de até duas horas. Reivindicam melhores condições de atendimento, reajuste dos honorários SUS – hoje em R$ 7 por consulta –, piso de R$ 6,9 mil por 20 horas semanais e implantação de planos de cargos e salários. “Não dá para continuar brincando de fazer saúde”, diz Eulálio.

O pediatra Renato Leal, de 47 anos, trabalha em dois hospitais municipais de Teresina e chega a atender mais de 130 crianças em 12 horas. Depois vai atender outras dezenas em seu consultório. O Piauí é o estado que, proporcionalmente, mais recebe pacientes de outros estados. “Lotações” partem todos os dias, especialmente do vizinho Maranhão, atravessam o Rio Parnaíba e “despejam” pacientes em Teresina, segundo o sindicato.

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