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Número 21, Fevereiro 2008

história

Brigadas da liberdade

Durante a Guerra Civil Espanhola, nos anos 30, um grupo de brasileiros se uniu a combatentes de todo o mundo na reação ao regime fascista do general Francisco Franco. Uma batalha sangrenta que fez mais de 500 mil vítimas
por Giedre Moura publicado , última modificação 02/10/2017 17h29
Durante a Guerra Civil Espanhola, nos anos 30, um grupo de brasileiros se uniu a combatentes de todo o mundo na reação ao regime fascista do general Francisco Franco. Uma batalha sangrenta que fez mais de 500 mil vítimas
arquivo nacional (rJ)/divulgação
vitória fascista

Com a vitória fascista, milhares de espanhóis fugiram para a França

Quando a homenagem chegou, em 1996, poucos combatentes brasileiros na Guerra Civil Espanhola ainda estavam vivos. O reconhecimento foi tardio na Espanha e ainda é tímido no Brasil. O país pouco sabe deles e da batalha sangrenta, laboratório para a Segunda Guerra Mundial. Com a morte do último combatente vivo, Apolônio de Carvalho, em 2005, a saga dos heróis solidários sobrevive na memória de poucos e nos livros. Eram 14 militares e dois civis – Alberto Bomilcar Besouchet, Apolônio de Carvalho, Carlos da Costa Leite, David Capistrano da Costa, Delcy Silveira, Dinarco Reis, Eneas Jorge de Andrade, Hermenegildo de Assis Brasil, Homero de Castro Jobim, Joaquim Silveira dos Santos, José Gay da Cunha, José Correa de Sá, Nelson de Souza Alves, Nemo Canabarro Lucas, Roberto Morena e Eny Silveira. Em comum, tinham a militância comunista e a perseguição pelo governo de Getúlio Vargas.

Parte da vida do grupo está no livro A Solidariedade Antifascista – Brasileiros da Guerra Civil Espanhola, 1936-1939, de Thaís Battibugli. A investigação começou quando Thaís, ainda na Faculdade de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), descobriu ali mesmo documentos históricos e fichas dos participantes disponíveis para consulta. “Na época da guerra tudo foi mandado para Moscou e, com o fim da União Soviética, o material voltou ao Brasil”, conta a pesquisadora sem nenhum passado militante que elegeu o assunto como tema de seu mestrado.

A decisão de lutar em terra estrangeira estava alinhada com o movimento comunista internacional, o qual elegeu seu inimigo número um o fascismo crescente na Europa. Os brasileiros fizeram parte de um grupo de 40 mil combatentes, de mais de 50 países, cuja meta era conter a expansão do general Francisco Franco. Entre 1936 e 1939, a Guerra Civil Espanhola teve como saldo 500 mil mortos.

Os brasileiros chegaram em 1937, mas as turbulências na Espanha eram fomentadas desde o início dos anos 30. O marco zero do conflito ocorrera em julho de 1936, quando a direita liderada por Franco golpeou o governo republicano eleito em fevereiro daquele ano. “Nenhum dos lados estava disposto a ceder, sem antes lutar muito”, lembra Thaís.

A guerra se deu num cenário internacional complexo. Alemanha e Itália enviavam armas, dinheiro e recursos; França e Inglaterra optaram por assinar o pacto de não-intervenção, bloqueando o envio de ajuda e armas, mas fazendo vista grossa para Adolf Hitler e Benito Mussolini. A União Soviética, de Josef Stalin, socorreria os espanhóis, mas uma ajuda equivocada, com armas obsoletas e confisco do dinheiro dos republicanos. Não só as fichas que Thaís pesquisou foram para Moscou: 510 toneladas de ouro e US$ 518 milhões nunca foram devolvidos. Não tardaria para o mundo conhecer o lado tirano de Stalin.

Com o conflito se acirrando, em outubro de 1936 a comunidade internacional comunista partiu para a organização das Brigadas Internacionais. E ir para a guerra não era para aventureiros. Os voluntários selecionados precisavam ter experiência militar; seu passado e suas convicções ideológicas eram analisados. O Brasil, oficialmente, adotou política de neutralidade no conflito, ainda que por aqui fosse forte a perseguição aos comunistas. “Vargas censurava qualquer publicação ou matéria favorável aos republicanos. Visava manter a opinião pública brasileira distante do intenso debate político”, lembra a pesquisadora.

O primeiro brasileiro a entrar na Espanha, em 1936, foi Alberto Bomilcar Besouchet, morto em ocasião até hoje não esclarecida. Como atuou nos combates, pode ter sido vítima de Franco. Mas, por ter relações com o ideário de Leon Trotsky – líder da revolução russa rompido com o regime soviético e por ele perseguido –, paira também a suspeita de ter sido vítima de aliados de Stalin. Aliás, desentendimentos internos da esquerda, aliados ao grande apoio da Itália e da Alemanha a Franco, decidiram a guerra. Vencedor, Franco permaneceria no poder até 1975.

Os demais brasileiros seguiram em 1937. Roberto Morena, civil e responsável pelo grupo, foi o único que não atuou na linha de frente. Os brasileiros foram soldados, comissários políticos, comandantes, cavadores de trincheiras, sentinelas. O reconhecimento nos anos 90 viria justamente pela forma como enfrentaram a guerra: “Cumpriram com sacrifício pessoal as tarefas que abraçaram voluntariamente pela causa democrática e antifascista, a convite do Partido Comunista Brasileiro”, descreve Thaís.

David Capistrano da Costa, José Correa de Sá e Eneas Jorge de Andrade eram militares-aviadores, mas só os dois primeiros aceitaram servir na infantaria. A regra também era de não convocação de pilotos estrangeiros por temor de sabotagem, mas Andrade conseguiu permissão. Morreu em combate aéreo. Apolônio de Carvalho atuou como tenente do Exército Republicano, por três meses, na Bateria Euskadi. Foi também capitão e comandante e auxiliou no desenvolvimento de estratégias para posicionamento das tropas na frente de batalha.

Delcy Silveira, em depoimentos colhidos nos anos 90, relata a tensão: “A coisa que eu mais tive horror na guerra eram as patrulhas noturnas. Você entra numa escuridão... não sabe o que vai encontrar. Fiz umas quatro ou cinco missões dessas, nunca encontrei patrulhas inimigas, mas outros companheiros encontraram... O sujeito dá de cara (com o inimigo), aquele tiroteio, aquela coisa, espalha gente para tudo que é lado”. E recorda os dias em Tortosa: “A cidade estava completamente destruída... Cheiro de cadáver, você não imagina, o pavor”.

O fim das brigadas

Em setembro de 1938 os republicanos, cada vez mais enfraquecidos, cederam à pressão de terminar com as brigadas e repatriar os voluntários estrangeiros. Mas a desmobilização não significou a volta para casa. Em meio a 220 mil homens, espanhóis e brigadistas, brasileiros seguiram para a concentração nas cidades de Argelès-sur-Mer, Saint-Cyprien, Le Barcarè, onde foram tratados como prisioneiros, e não como exilados. “As condições eram terríveis. Durante o dia, um calor tórrido, e, à noite, um frio de gelar. Para nos abrigarmos do frio, fazíamos buracos na areia, onde dormíamos em grupo de três ou quatro, amanhecendo quase soterrados. Sem latrinas, parte do campo transformou-se num mar de merda”, ilustrou Delcy.

Com a derrota republicana efetivada, o retorno para casa não era simples. O cenário brasileiro ainda era de perseguição. Uruguai e Argentina foram alguns dos destinos. Apolônio queria ir para o Chile, mas entrou para outra batalha. Fugiu para Marselha antes da chegada dos alemães, que tomaram conta do campo de concentração na fronteira França–Espanha. Lá se filiou ao Partido Comunista Francês e sobreviveu ensinando português a judeus que queriam escapar da perseguição nazista. Morena trabalhou como operário em uma fábrica de tratores na Sibéria, durante parte do tempo em que permaneceu na União Soviética.

Foram 12 os militantes que voltaram. A experiência traumática não minou seus ideais. Quando começou a Segunda Guerra Mundial, os brigadistas queriam repetir a experiência de lutar contra o nazismo, mas alguns acabaram mesmo no presídio de Ilha Grande, até que um breve período de abertura tomasse conta do país nos anos 40. Depois viriam a ditadura militar, novas prisões, exílios e torturas. “Quase todos participaram da luta pela democratização do país, estando ou não ligados ao Partido Comunista. Esses militantes consolidaram sua identidade de defensores da democracia imersos no espírito de união política e de solidariedade da Frente Popular Espanhola”, conclui Thaís Battibugli.

No final do século passado, 60 anos após o início da Guerra Civil, em uma Espanha já livre da ditadura de Franco, foi cumprida a promessa feita pela líder comunista Dolores Ibarruti, em 1939, na festa de despedida das Brigadas Internacionais. Ibarruti garantiu que os ex-voluntários não cairiam no esquecimento e um dia retornariam a uma Espanha democrática. Delcy Silveira e Apolônio de Carvalho voltaram, receberam homenagens e também cidadania espanhola. Com aplausos da esquerda e críticas da direita, o país ofereceu aos brigadistas o direito de considerar sua segunda pátria a terra onde lutaram.

Vale a pena sonhar

rene

Foi só por ordem médica que Apolônio de Carvalho se aquietou (na foto com a esposa Renée). Tantas idas e vindas, guerras e exílios renderam livros, exposições, filmes. Com a pausa nas atividades políticas, o militante que assinou a ficha número um de filiação ao PT, dedicou a fase de “descanso” à narrativa de suas memórias, transformadas no livro Vale a Pena Sonhar, base do documentário homônimo dirigido por Stella Grisotti e Rudi Böhm, em 2001.

Após a Guerra Civil, Apolônio se aliou ao PC Francês e atuou na resistência contra os nazistas. Assumiu o comando de 2 mil homens, lutou na frente de Marselha, Lyon, Nîmes e Toulouse. Recebeu a Cruz de Guerra e o grau de Cavaleiro da Legião de Honra. Tornou-se o homem de três pátrias, que combateu tiranias no Brasil, na Espanha e na França – onde conheceu a jovem comunista Renée, sua mulher e mãe dos filhos René-Louis e Raul. A família veio para o Brasil em 1945, mas em dois anos a perseguição recomeçou. Preso em 1969, Apolônio seguiria depois para Argélia e França, lá permanecendo com a família até o final dos anos 70.

O documentário de Stella Grisotti e Rudi Böhm mostra o mundo ao redor do militante e suas decepções com Stalin. Ricos são os depoimentos colhidos de combatentes como Delcy Silveira e, sobretudo, da família. “A proposta não era falar só da política, mas também da forma como essa família se organizou para viver sob alto risco, com mudança constante de casa, de cidade, de nome. Eles passaram muito tempo convivendo apenas com esse mundo, sem contato com a realidade”, observa Stella.

No filme, Renné fala da vida no Brasil e da difícil adaptação: “Eu me encontrei sozinha, sem falar a língua. Havia dificuldade no pós-guerra, faltavam leite, carne, faltava muita coisa aqui. Depois de uma militância ativa, carregando armas, munições, material subversivo, eu me encontrava feito uma dona-de-casa, com uma criança de colo e outra a caminho. E o Apolônio ausente, sem horário para nada”. Os filhos também conheceriam a prisão no Chile, em Ilha Grande e depois o exílio na França. Apolônio de Carvalho morreu em 2005, aos 93 anos, no Rio de Janeiro.

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