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Número 20, Janeiro 2008

Pasquale

Expressões latinas

O latim deixou de ser ensinado nas escolas há quatro décadas, mas muitas expressões ainda são empregadas sem que o grande público conheça seu significado
por Pasquale Cipro Neto publicado , última modificação 28/09/2017 10h14
O latim deixou de ser ensinado nas escolas há quatro décadas, mas muitas expressões ainda são empregadas sem que o grande público conheça seu significado
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Vou logo avisando que não sou latinista (“grande conhecedor da língua e da literatura latinas”). Tenho alguns colegas que o são, entre eles o querido amigo Odilon Soares Leme, mestre dos mestres, autor do ótimo Tirando Dúvidas de Português. Mas, por dever e por prazer, o assunto me interessa – e muito. O latim foi ensinado na escola secundária até a primeira metade da década de 60. Com sua eliminação do currículo escolar, acabaram sumindo também os professores da língua de que se formou a nossa. Mas muitas das expressões não sumiram; estão vivíssimas no uso culto, na terminologia específica de determinadas ciências – exatas ou humanas.

Vejamos algumas delas. O pessoal do esporte adora usar uma clássica: “sine die”. Alguns jornalistas, americanizados até o pescoço, pronunciam “sáine dái”. É latim, moçada; não é inglês. Significa “sem dia” e costuma ser usada na expressão “adiar sine die”, ou seja, “adiar sem marcar a nova data”.

Outra muito comum em textos técnicos e em editoriais é “sine qua non”, que, ao pé da letra, significa “sem a qual não”. Costuma-se usar para indicar que algo é imprescindível, essencial para que se realize determinada coisa. Há algum tempo, o vestibular da USP pediu aos candidatos que indicassem o significado dessa expressão, presente em um texto jornalístico.

Como se vê, é normal que essas expressões mantenham a grafia original, o que explica, por exemplo, a falta de acento em “incontinenti”. Essa palavra de origem latina na verdade é adaptação da expressão “in continenti tempore”, que significa “no tempo imediatamente posterior”. “Incontinenti” equivale a “sem detença”, “sem demora”, “imediatamente”. Se fosse aportuguesada, seria grafada com acento circunflexo no “e”, já que as paroxítonas terminadas em “i” recebem acento gráfico.

Um cochilo de revisão fez a última edição do Aurélio trazer a forma “incontinênti”, com acento. Basta verificar, na mesma edição, o vocábulo “incontinente” (que significa “imoderado”). Lá se manda confrontar “incontinenti”, sem acento, como deve ser e como está no dicionário de Caldas Aulete, no Michaelis, no Vocabulário Ortográfico, da Academia Brasileira de Letras.

A expressão latina “grosso modo” é outra que na língua culta não se aportuguesa, o que, no caso, corresponderia a acrescentar a preposição “a” (“a grosso modo”). “Grosso modo” significa “de modo impreciso”, “de modo grosseiro”, “aproximadamente”: “Grosso modo, pode-se afirmar que o Brasil tem 40 milhões de miseráveis”.

Uma que muita gente erra é “pari passu”. O equívoco mais comum é grafar “par e passo”. Ao pé da letra, a expressão significa “a passo igual”. Na prática, é muito usada quando se quer dizer que alguém acompanha algo “pari passu”, ou seja, “simultaneamente”, “ao mesmo tempo”.

Outra expressão vivíssima é “ad hoc”, que se lê como se fosse uma palavra só. Significa “de propósito”. Costuma ser usada quando se quer dizer que determinada pessoa, em geral especialista em um assunto, é designada de propósito para executar uma tarefa: “Delegado ad hoc”.

E “sic”? Se você acompanhou o noticiário sobre as rebeliões nas cadeias de São Paulo, deve ter notado que, quando a televisão mostrou os “mandamentos” do PCC, a cada quatro ou cinco palavras aparecia o termo “sic”, entre parênteses. O que é isso? É palavra latina e significa “assim”, “deste modo”. Costuma ser usada quando se transcreve algo em que há erro ou afirmação absurda para que se deixe claro que o original é assim mesmo, por mais estranho ou absurdo que possa parecer.

A conversa poderia ir longe, mas o espaço já acabou. Antes de encerrar, porém, vejamos só mais uma palavrinha, muito presente no nosso cotidiano: “domingo”. Vem da expressão latina “dies dominicu”, que significa “dia do Senhor”. Até a próxima!

Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura

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