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Número 19, Dezembro 2007

trabalho

Segredo das mãos

As folhas de fumo cultivadas no Recôncavo Baiano dão origem a caros e cobiçados charutos. O segredo da alta qualidade, além do solo fértil, são as delicadas artesãs, que, em vez de tentar a vida em Salvador, eternizam o ofício aprendido com as mães e avós
por Giedre Moura publicado , última modificação 25/09/2017 15h31
As folhas de fumo cultivadas no Recôncavo Baiano dão origem a caros e cobiçados charutos. O segredo da alta qualidade, além do solo fértil, são as delicadas artesãs, que, em vez de tentar a vida em Salvador, eternizam o ofício aprendido com as mães e avós
João Correia Filho
Dannemann

"Linha de montagem" dos charutos na Dannemann: nada de mecanização

Por ali a Revolução Industrial não passou, muito menos a tecnológica, e nem sequer se dispõe de ferramentas para aumentar a produtividade. Há quem aposte que, justamente por isso, a qualidade não se perdeu. O cheiro do tabaco é forte, o trabalho é lento e minucioso e ao final do dia é possível observar que as pilhas de charutos que saem das mãos de grupos de mulheres são uniformes, nunca iguais. No mundo da charutaria de alta qualidade não há espaço para mecanização e a mão-de-obra exclusivamente feminina sabe disso. Estamos falando de uma fábrica cubana? Não, é um pouquinho mesmo de Brasil.

O cenário que remete a tempos antigos está cravado na região do Recôncavo Baiano. Em uma das mesas de madeira está Rosália Silva, de 48 anos, na sede da fábrica Menendez & Amerino, na cidade de São Gonçalo dos Campos, a 100 quilômetros de Salvador. Rosália é sinônimo de controle de qualidade. É ela quem verifica charuto por charuto, lote por lote, para selecionar as 25 unidades que vão compor uma caixa de marcas como o Dona Flor.

Na fila de análise está o lote Marilúcia. Não, não é outra marca, mas sim o registro da trabalhadora que o confeccionou. As artesãs, depois de transformar folhas secas em charutos, anotam seu nome e deixam o lote para o crivo de Rosália. “Se encontrar algo fora do padrão, eu sei pra quem devolver”, revela a artesã das folhas que, pela larga experiência, sabe exatamente o que os apreciadores de charuto esperam ao abrir uma caixa. É simples, mas funciona. A cada 450 charutos, apenas um é barrado no controle de qualidade. A informalidade e a quase familiaridade observadas no interior da fábrica não tiram a hierarquia e a liderança: “As mulheres que trabalham na produção não podem reclamar comigo caso algum charuto precise ser refeito. É preciso sempre muito capricho, e essa é a minha função. Todas respeitam”, explica Rosália.

A supervisora é uma das 90 empregadas da fábrica, em cuja produção só mulher tem vez. Além do capricho, a presença feminina tem a ver com a tradição, desde os tempos em que charutos eram enrolados nas coxas das índias, desde os tempos em que o tabaco era utilizado como moeda na compra de escravos. E quando o assunto é charuto, ensinam os cubanos, a tradição pode ser o segredo do sucesso.

Os vínculos com a ilha, aliás, são claros no Recôncavo. A Menendez & Amerino nasceu da união do baiano Mario Amerino Portugal com o cubano Félix Menendez. A dupla trabalha há mais de cinco décadas com os charutos. Como e quando os pés de tabaco chegaram à Bahia não é certo, mas o fato é que a adaptação criou uma matéria-prima local e oportunidades de trabalho. Assim como em Cuba, a planta manhosa precisa de um microclima ideal para dar origem a folhas longas, inteiras, sem quebras, indicadas para as capas dos charutos. O relevo, a fertilidade do solo, chuvas amenas e regulares, o Recôncavo é a Pinar del Rio brasileira. A região de Pinar, em Cuba, produz as folhas que dão origem aos caríssimos Cohiba, Monte Cristo e Romeu & Julieta.

Mas não são Menendez ou Amerino os pioneiros na produção baiana de charutos nem na idéia de empregar mulheres. Em 1873 Geraldo Dannemann veio da Alemanha e deu início à primeira produção de charutos do Recôncavo, onde a fábrica, mesmo após sucessivas fusões, permanece em atividade. Se na Menendez o carro-chefe é o Dona Flor, na Dannemann a vitrine vem do Artist Line e, sob chuvas, ventos e terra perfeitos, as melhores artesãs são selecionadas e nasce o cobiçado Artist Line Reserva.

João Correia Filho Menendez
Montagem na Menendez


A presença da mulher é importante também no cultivo, plantando, colhendo e depois comandando um processo cuidadoso de secagem, classificação e fermentação pois as folhas precisam ser sobrepostas para ressaltar sabores e aromas típicos das qualidades Mata Fina e Mata Norte, cultivadas em cidades como Cruz das Almas, também do Recôncavo.

Nas fábricas as charuteiras são trabalhadoras em regime de carteira assinada, nas plantações as relações contratuais variam. Os produtores tanto mantêm campos próprios como compram as folhas de tabaco de famílias e cooperativas, muitas delas criadas a partir de projetos de incentivo das próprias fábricas carentes de mão-de-obra de boa qualidade.

Logo cedo as mulheres chegam para o cultivo, ora plantando, ora indo e vindo com as folhas que acabaram de cortar de forma cuidadosa, que serão penduradas e secas em grandes galpões. Nesse momento a presença do homem pode ser notada. Com tetos altos, é preciso fazer “escaladas” para atingir a altura ideal de secagem, e ali o tabaco permanecerá em busca de cor e textura ideais.

O tabaco já viveu períodos de ouro. Em meados do século passado chegou a uma produção anual de 250 milhões de unidades. No final dos anos 1990 as fábricas voltaram a investir nas lavouras e, com a desvalorização do real frente ao dólar na ocasião, o mercado local venceu o preconceito e começou a conquistar novos apreciadores. Foi aí que os fabricantes se aproximaram dos lavradores para treinar, fomentar e, por fim, comprar a produção. Só a Dannemann conta com 300 produtores parceiros.

O fumo, caprichoso, tem várias manias. No campo, as mulheres revelam que a folha da parte baixa do pé tem sabor diferente da folha da parte alta, e é da mescla que surge o sabor do charuto. O processo continua na fábrica, pois, na hora de montar, as folhas não são pegas de forma aleatória; a mistura de tipos de folhagem é outro segredo desse negócio secular e artesanal.

Félix MenendezLições de Cuba
O cubano Félix Menendez deixou a ilha em 1960, quando a revolução liderada por Fidel Castro estatizou a produção de charutos, negócio que por décadas garantira a riqueza de sua família. Seu pai, Alonso Menendez, era dono da marca Monte Cristo, considerada uma das melhores do mundo. Depois de viver na Espanha, Menendez encontrou no Brasil terreno fértil. Apesar da fama dos charutos cubanos, ele é otimista em relação ao produto feito no Brasil, principalmente o baiano. “Felizmente, está perdendo força a idéia de que charuto bom é só charuto cubano. Temos aqui na Bahia produtos do mesmo nível”, afirma. Em Cuba, a tradição na montagem dos charutos está nas mãos dos homens. “As mulheres são mais concentradas e mais delicadas”, diz o empresário, que oferece uma das poucas alternativas de trabalho no pobre Recôncavo Baiano. “Infelizmente, em São Gonçalo não há muita oportunidade. A alternativa é ir para Salvador, mas as mulheres ainda preferem ficar na cidade de sua família.” (João Correia Filho)

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