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Número 19, Dezembro 2007

Crônica

Motim a bordo

Seu cumandante, pra que tanta valentia?
por Mouzar Benedito publicado , última modificação 25/09/2017 17h17
Seu cumandante, pra que tanta valentia?
mendonça
cronica

Vi nos jornais que um vapor voltou a navegar no Rio São Francisco, levando turistas, num percurso de 210 quilômetros, entre Pirapora e São Romão, no norte de Minas. Lembrei-me das viagens que fiz pelo Velho Chico, quando a navegação era de Pirapora até Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco), percorrendo os 1.371 quilômetros em sete dias, rio abaixo, ou doze dias, rio acima. A última das minhas viagens foi há uns 30 anos e a população local, tão presente nas viagens anteriores, já estava meio sem condições de encarar uma primeira classe, destinada aos turistas que podiam pagar mais. O preço da primeira havia se multiplicado, sobrando para a população local e turistas mais pobres a parte de baixo, entre as cargas, a lenha e a fornalha, dormindo em redes ou no chão.

O amigo e colega de viagem Marinho e eu, duros, fomos na “segundona”, que era mais divertida, tinha sempre alguém tocando sanfona, cantando. Mas na hora de ir ao bar, no andar de cima, vimos que as mudanças tinham sido radicais: o pessoal da segunda não podia mais subir, usar o bar. Os passageiros da primeira podiam descer, andar por onde quisessem, mas nós não podíamos nem ir até o bar. Ficamos injuriados. Vimos que os demais passageiros do andar de baixo também estavam e propusemos subir na marra. Ninguém topou.

Encontrei um marinheiro que conheci numa das viagens anteriores e me lembrei de uma cachaça que ele preparava e vendia. Perguntei se ainda vendia cachaça com casca de umburana, ele disse que sim. Comprei três litros. Começamos a servir essa cachaça pra todo mundo, enquanto o Marinho puxava um samba de Ataulfo Alves, Abaixa o Braço, feito durante a Segunda Guerra. Era uma música contra Hitler, que ele pronunciava Adolfítler, como o próprio Ataulfo:

Abaixa o braço,
Deixa de teima.
Lugar de palhaçada
É no cinema.
Seu Adolfítler
Pra que tanta valentia
Se nós queremos
É democracia.

O pessoal foi ficando animado, entrando no samba, e o Marinho começou a adaptar a letra à nossa situação, trocando Adolf Hitler pelo comandante, que nós chamávamos de “cumandante”. Acabou a cachaça, comprei mais um litro, a gente falando mal do cumandante, e todo mundo já estava cheio de coragem, depois de tanta pinga. Propusemos então subir na marra. E subimos, levando tudo de roldão. Tomamos o vapor. Motim a bordo, em pleno São Francisco. Os marinheiros de água doce eram poucos, não havia como impedirem – e, exceto o cumandante, nem faziam questão.

Quando subimos e ocupamos o bar, o comandante correu para seu camarote e se trancou lá dentro. Os passageiros da primeira também correram para os camarotes, com medo da gente. Menos um casal, muito simpático, que veio beber cerveja conosco, e ficamos conversando. O “motim” começou junto com a tarde e conversamos até as dez da noite. Eles foram dormir. Nós também.

Só nessa hora fui saber o nome do rapaz e da moça com quem nos entrosamos de cara, únicos passageiros da primeira a nos apoiar. Ele apresentou a mulher, Assunção, disse seu nome, Rubem Grilo, e eu abri um sorriso enorme:

– Rubem Grilo? O Grilo que faz as capas do jornal Movimento e fazia do Opinião?

– Sim – disse, tímido.

– Caramba! Eu ia te procurar qualquer dia no Rio. Sou jornalista do Versus e queria ver se você topava colaborar com a gente.

– Eu quero colaborar no Versus!

Baita coincidência. Assim conheci o Grilo, um dos maiores xilogravuristas do mundo. Mineiro, morando no Rio, havia se casado há pouco com a Maria Assunção e faziam uma viagem de lua-de-mel, por isso estavam na primeira. Nascia ali uma grande amizade.

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é jornalista e geógrafo.
Publicou vários livros, entre eles o Anuário do Saci (Editora Publisher Brasil, 2006), ilustrado por Ohi

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