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Revista do Brasil - Edição 17 - Outubro de 2007

Pasquale

Soneto de fidelidade

Muita gente sai da escola sem saber que em poesia são normais as inversões e que é preciso percebê-las para poder de fato compreender o texto poético

Por: Pasquale Cipro Neto

Publicado em 01/10/2007

Soneto de fidelidade

(Ilustração: Mendonça)

Dia desses, depois de alguns “pulos” com o controle remoto, parei no Multishow, canal de TV por assinatura. Estava no ar um programa que homenageava Tom Jobim − mestre Tom Jobim! Antes de chamar cada um dos convidados, Lorena Calábria fazia comentários acerca da música que seria apresentada e de quem a interpretaria. Lorena começou a falar de Eu Sei Que Vou Te Amar, uma das obras-primas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O intérprete? Paulinho Moska, um dos ótimos representantes da nova (já não tão nova) geração da MPB, da qual fazem parte Chico César, Zeca Baleiro e Lenine, entre outros.

Repetindo o que fazia o próprio Vinicius quando interpretava a canção ao lado de Toquinho e de alguma das muitas cantoras que acompanharam a dupla, Paulinho recitou o poema “Soneto de fidelidade”, que Vinicius escreveu em Estoril (Portugal), em 1939: “De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele se encante mais meu pensamento./ Quero vivê-lo em cada vão momento/ E em seu louvor hei de espalhar meu canto/ E rir meu riso e derramar meu pranto/ Ao seu pesar ou seu contentamento./ E assim, quando mais tarde me procure/ Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”.

É bom lembrar que essa composição poética de Vinicius é exemplo de soneto italiano, já que é formada por catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. A rima merece observação acurada. O primeiro verso do primeiro quarteto termina em “atento”, que rima com “pensamento”, palavra final do último verso do quarteto. O segundo verso termina em “tanto”, que rima com “encanto”, que encerra o terceiro verso. Temos aí a rima abba. No segundo quarteto, o processo se repete (“momento/contentamento”; “canto/pranto”). E nos dois tercetos? A rima se dá como se eles formassem um sexteto (“procure/dure”; “vive/tive”; “ama/chama”).

Como leu Paulinho Moska essa bela obra de Vinicius? Leu bem, muito bem. Sem se deixar levar pela rigidez formal do soneto, o que significaria ler cada verso como frase completa, Paulinho privilegiou o fio sintático do texto. Tradução: em vez de parar no fim do primeiro verso (“atento”), como já vi muita gente graúda fazer, Paulinho foi até o fim da primeira oração e leu assim: “De tudo, ao meu amor serei atento antes”.

Temos aí um exemplo de hipérbato, que nada mais é do que a inversão da ordem natural das palavras. Em vez de “Serei atento ao meu amor antes de tudo” (ordem direta), o poeta escreveu “De tudo, ao meu amor serei atento antes” (ordem indireta ou inversa), justamente para que “atento” rimasse com “pensamento” e para que a métrica (número de sílabas poéticas) fosse a desejada.

Na hora de ler o primeiro terceto, nova demonstração de competência de Paulinho, que não parou em “procure”, mas em “morte”, e leu deste modo: “E assim, quando mais tarde me procure quem sabe a morte, angústia de quem vive...”.

Agora, por favor, releia o poema. Tente “colar” direito suas partes. Releu? Percebeu, por exemplo, que o poeta define a morte como “angústia de quem vive” e a solidão como “fim de quem ama”? Percebeu que uma das duas (talvez a morte, talvez a solidão) o procurará? Percebeu que nesse momento ele poderá dizer a si mesmo (a respeito do amor que teve) o que está nos dois versos finais do poema?

Lamento dizer, mas muita gente sai da escola sem saber que o fim de um verso não é necessariamente o fim de uma estrutura frasal. E sem saber que em poesia são normais as inversões e que, por isso, é preciso percebê-las para poder de fato compreender o texto poético. O famoso poema de Vinicius é apenas um dos tantos exemplos de como se pode ler sem compreender.

Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizador
e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura





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metrificação de poema

Não consigo fazera metrificação
Postado por Helena Sthephanowitz, especial para a Rede Brasil Atual em 20:40
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