Você está aqui: Página Inicial / Revista do Brasil / Edição 17 / Quando o esporte é rude
Número 17, Outubro 2007

saúde

Quando o esporte é rude

Rotina de atletas não é exemplo para quem deseja aproveitar os benefícios da atividade física. Esporte com moderação pode ser bom, mas passou disso é filosofia de vida cercada de riscos por todos os lados
por Giedre Moura publicado , última modificação 19/09/2017 12h09
Rotina de atletas não é exemplo para quem deseja aproveitar os benefícios da atividade física. Esporte com moderação pode ser bom, mas passou disso é filosofia de vida cercada de riscos por todos os lados
assecom/santos f.c.
pedrinho

Pedrinho, hoje no Santos: “O lado psicológico é o mais complicado, mas sei que posso me machucar novamente a qualquer hora”

Quando entra em um avião, o ex-jogador de basquete Oscar Schmidt precisa sentar onde possa esticar a perna esquerda. A culpa não é dos seus 2,05 metros de altura, e sim do joelho. Castigado por mais de 30 anos de saltos, corridas e quedas nas quadras, não dobra direito. São três lesões sérias, constantes indicações para cirurgias. A dor é o preço por ter sido o mais importante jogador de basquete do Brasil. Ele não se arrepende de nada, mas não usa meias palavras ao dizer que esporte de alto rendimento nada tem a ver com vida saudável. Ganhou medalhas, dores e limitações. Assim é o esporte competitivo.

Médicos, profissionais de educação física e esportistas são unânimes em afirmar que atletas de alta performance não são exemplo a ser seguido por quem deseja melhorar a qualidade de vida e pôr fim ao sedentarismo. Lesões, patologias do coração, disfunção hormonal são mais comuns em gente que treina de quatro a cinco horas por dia com grande esforço do que em uma pessoa que caminha uma hora quatro vezes por semana.

A alta profissionalização, a busca pela quebra de recordes, a necessidade de performance cada vez mais elevada exigem em demasia dos atletas de ponta e decretaram o fim do slogan “esporte é saúde”, que por muito tempo foi exibido na TV. “Levamos o corpo ao limite da exigência física e, é claro, isso não é saúde, é uma opção de vida. Minha opção sempre foi o basquete e assumi toda a sua exaustão. Se o time ficava quatro horas treinando, eu treinava outras quatro. Era maluco mesmo”, conta Oscar.

O cestinha da seleção brasileira perdeu as contas de quantas vezes entrou nas quadras com dores e chegou a ponto de jogar com a mão direita quebrada, justamente a “mão santa”. A primeira contusão séria foi aos 17 anos, quando fraturou um dos tornozelos e passou três meses sem botar o pé no chão. “Senti muita dor, cansaço, e essa é a rotina de qualquer atleta. Mesmo depois de parar de jogar ainda descubro coisas. Fiquei sabendo que tenho bursite no tendão da pata de ganso. Eu nem gosto de fazer ressonância magnética, sempre aparece algo novo”, brinca.

O esporte brasileiro está repleto desses desastres. Ana Moser, Gustavo Kuerten, o goleiro Marcos, do Palmeiras, que já se afastou 13 vezes para ser submetido a cirurgias e fisioterapias. O meia Pedrinho, do Santos, também é um deles. Aos 30 anos, comemorou em setembro 50 jogos sem se machucar. Mas nos últimos dez anos de atividade esteve pelo menos dois em tratamento. No futebol, além dos impactos do esforço convive-se com a imprudência – ou deslealdade – dos muy amigos de profissão.

Aos 20 anos, no início de uma carreira altamente promissora e dois dias antes de se apresentar para a seleção brasileira, ainda no Vasco da Gama, Pedrinho recebeu uma entrada forte de um jogador do Cruzeiro e rompeu o ligamento do joelho direito. “Fiquei seis meses parado e me machuquei de novo. Depois foi a vez do joelho esquerdo. Era muito jovem e não imaginava que isso pudesse acontecer. O lado psicológico é o mais complicado. Mas o futebol é assim, um esporte de muito contato, e sei que posso me machucar a qualquer hora novamente”, afirma o meia. Quando passou pelo Palmeiras, entre 2002 e 2005, Pedrinho chegou a pedir ao clube a suspensão dos salários enquanto estivesse fora de jogo.

Conviver com a dor

Não são apenas os atletas profissionais que correm o risco de transformar o esporte em algo prejudicial à saúde. Se no caso dos esportistas de alto rendimento essa é uma opção clara em busca da vitória, para pessoas comuns que se encantam com a atividade física e começam a levar o corpo à exaustão, sem o devido acompanhamento, o risco pode ser ainda maior.

Ao mesmo tempo em que o sedentarismo é alto na população brasileira, cresce entre os que já fazem atividade física a tendência de partir para a sobrecarga. “Para fazer uma caminhada leve a pessoa não precisa se submeter a uma diversidade de exames médicos, mas o que tem acontecido é que ela passa a correr e logo quer participar de uma maratona, sem saber se tem condições. E começam os riscos cardiovasculares e também de lesões. Se a pessoa tem uma artrose no joelho, não adianta escolher a corrida para se exercitar”, avisa o médico do esporte André Pedrinelli.

A receita é antiga, mas pouca gente a respeita: fazer uma grande avaliação física antes de se submeter aos exercícios prolongados e de alto impacto. Não basta o exame médico de academia. O que também difere os esportistas profissionais das pessoas comuns é a equipe que dá suporte às atividades. A ginasta Daiane dos Santos conta com um time de dez pessoas que cuidam de sua rotina de treinamento, alimentação, rendimento e trato psicológico. E mesmo com a mais qualificada equipe a atleta não está livre dos perigos da modalidade.

“Uma das coisas que aprendi foi a conviver com a dor. E não é uma dor leve, muitas vezes é absurda, mas você precisa se preparar, enfrentar e descobrir seu limite. Agora que passou o Mundial (de Ginástica Artística), vou cuidar do meu pé para conseguir chegar bem nas Olimpíadas de Pequim”, revela Daiane, que chegou a competir com o pé direito inchado no Pan, mas teve de desistir da final no solo. Sua primeira lesão foi aos 17 anos, no tendão de Aquiles.

Daiane mantém rotina de treinamentos de até seis horas diárias. Passou por duas cirurgias nos joelhos. Após a primeira, conseguiu o título de campeã mundial na ginástica artística. Mas a segunda comprometeu o desempenho na Olimpíada de 2004. “Tive um período de recuperação muito curto e hoje meu joelho não dobra direito, provavelmente vou conviver com a dor por toda a vida. Mas eu escolhi”, reflete a ginasta.

Aos 45 anos de idade, o ex-arremessador de dardo e hoje professor de educação física Pedro Caetano sabe exatamente do que Daiane dos Santos está falando. Campeão paulista e brasileiro universitário nos anos 80, Caetano ainda sente as dores no cotovelo que lesionou em virtude do treinamento intenso. Na época, o contato com as técnicas mais avançadas era pequeno e o treinamento do atletismo significava, basicamente, a exaustão. Eram sete horas diárias de esforços repetitivos, força, resistência. “Você começa a treinar criança, quando vê está competindo e quando percebe se machucou. Hoje questiono até que ponto o esporte de alto rendimento não é uma loucura”, indaga o professor.

A rotina de Caetano hoje é tranqüila, três ou quatro vezes por semana de exercícios moderados, o bastante para garantir benefícios cardiovasculares, controlar a pressão, o colesterol e outras enfermidades associadas ao sedentarismo. Mas não esquece a época do dardo. Sente o braço ao dirigir e precisa se poupar quando demonstra aos alunos um arremesso de handball. “O esporte tem vários lados, ele é importante não só para o físico como também para a parte psicológica, ensina a disciplina, a perseverança. Porém, quando vai além disso, mostra uma opção de vida que realmente não é a mais saudável”, avalia Caetano.

Estudos

À medida que a medicina e a biologia avançam para pôr em atividade atletas com massa muscular cada vez mais potente, surge a necessidade de estudos capazes de diagnosticar até que ponto a evolução não é prejudicial. Para o professor de educação física Reury Frank Bacurau, as pesquisas ainda são pequenas, pois o alto nível esportivo é algo novo e os efeitos reais ainda não podem ser totalmente medidos.

Bacurau preparou uma tese de doutorado para a qual submeteu ratos a esforços intensos e moderados para verificar a reação do sistema imunológico. O animal treinado de forma moderada teve aumento e melhoria da imunidade, enquanto o que foi submetido a treinamento intenso apresentou redução nesse índice. É preciso, porém, ver a pesquisa com cautela, pois trata de uma questão específica – os tumores. “Ainda temos muito para pesquisar. Sabemos que o esporte de alto nível não é saudável, mas falta apurar o quanto ele realmente prejudica.”

O pesquisador lembra que além das tradicionais lesões e dos problemas cardíacos que têm levado alguns atletas à morte súbita, geralmente por apresentarem alguma cardiopatia, existem as questões hormonais. É fato que para uma mulher menstruar ela precisa de um determinado estoque de gordura no organismo. O nível baixo de gordura de uma maratonista, por exemplo, impede a menstruação, com risco de causar um desequilíbrio, item que pode ter relação com casos de câncer e também com a maior fragilidade dos ossos. “Volto a afirmar que ainda não temos dados precisos, temos de pesquisar. Ao reduzir o treinamento as mulheres voltam a menstruar, mas quais serão os efeitos no longo prazo?”, questiona Reury.

No caso dos esportistas amadores que não possuem devido acompanhamento especializado, uma das síndromes mais comuns é a de overtraining, o excesso de treinamento. É quando o corpo sinaliza haver uma falta de equilíbrio entre a quantidade de atividade física, o descanso e a alimentação. E efeitos como depressão, cansaço, irritabilidade, perda de massa muscular, insônia, falta de apetite invadem o cotidiano dos praticantes. Embora a saída para resolver o problema seja simples, reduzir a atividade física e melhorar a alimentação, o esportista depara com outra faceta pouco discutida − o dano psicológico, pois a atividade física pode virar vício.

“E nem falamos ainda do doping. Quem trabalha com educação física vê muitos atletas e sabe que é impossível chegar a uma massa muscular tão ampla sem anabolizantes. O assunto é tabu, quem é pego no doping representa uma parcela muito pequena dos que os utilizam. A Volta da França de ciclismo, por exemplo, já está sendo chamada de Volta da Farsa, devido ao grande uso de anabolizantes pelos atletas”, completa o pesquisador.

Homens de ferro

Paulo pepe iron
Exceção: o triatleta Carlos Galvão nunca teve lesões sérias

A rotina do consultor de marketing esportivo e triatleta Carlos Galvão tem sido intensa. Corre, nada, pedala e faz musculação todos os dias, alternando as modalidades, em alta carga, de domingo a domingo. Sua vida está assim desde junho, quando intensificou os treinamentos para participar agora em outubro de uma das provas que mais exigem do corpo: o torneio mundial de Ironman (Homem de Ferro), no Havaí.

A modalidade criada há 20 anos inclui 3.800 metros de natação no mar, 180 quilômetros de bicicleta e, para terminar, uma maratona: 42 quilômetros de corrida. Para a maioria, mais de dez horas de exercício físico sem parar. “Em 1999 eram 12 mil pessoas fazendo o Ironman, agora são mais de 50 mil. O número não pára de crescer. É uma modalidade para quem quer a surpresa, a motivação, a força de vontade. O importante não é vencer, e sim terminar a prova”, conta Galvão.

Triatleta desde 1998, o esportista diz que nunca sentiu nenhum problema associado ao esporte de altíssima performance. A única vez em que se machucou e ficou meses parado foi no futebol. O Ironman, em sua opinião, tem uma particularidade que o torna mais seguro que as corridas de rua: quem se arrisca a participar da prova sabe que precisa de um acompanhamento médico e profissional especializado. Galvão nunca foi vítima do overtraining, sabe que vai reduzir a rotina de treinamentos após a prova. “O esporte muitas vezes é uma filosofia de vida e tem seus riscos associados. Até hoje não tive nenhum problema sério com o triatlo, o mais difícil mesmo tem sido conciliar a vida de treinamentos com a social. Sair para jantar fora, só com quem topa voltar para casa antes das 10 da noite.”

registrado em: ,