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Número 14, Julho 2007

viagem

O sertão além do tempo

A região do Seridó, no Rio Grande do Norte, guarda mistérios e surpresas de Caatinga. E prova que o sertão também é terra de encantos, hoje ou há milhares de anos
por João Correia Filho publicado , última modificação 05/09/2017 16h10
A região do Seridó, no Rio Grande do Norte, guarda mistérios e surpresas de Caatinga. E prova que o sertão também é terra de encantos, hoje ou há milhares de anos
João Correia Filho
Serra da Rajada

Serra da Rajada

E preciso baixar o corpo, esquivar-se sob uma fenda e adentrar o oco de uma rocha côncava, onde cabem três ou quatro pessoas. Os olhos demoram um tanto a se acostumar. Aos poucos as paredes de pedra vão revelando desenhos em tom avermelhado. Em instantes, uma verdadeira festa primitiva – homens com os braços levantados parecem dançar de um lado a outro, aves ensaiam o vôo e famílias se reúnem em torno de uma fogueira. Os desenhos, localizados nos arredores da cidade de Cerro Corá, interior do Rio Grande do Norte, são pinturas feitas há cerca de 9 mil anos, quando o homem primitivo já habitava a região hoje conhecida como Seridó. Além de Cerro Corá, a região inclui os municípios de Acari, Currais Novos, Caicó, Jardim do Seridó, Parelhas e Carnaúba dos Dantas, que fazem parte de um grande roteiro pela Pré-História.

Carnaúba dos Dantas, a 219 quilômetros de Natal, possui mais de 60 sítios arqueológicos. A quantidade e a qualidade dos desenhos impressionam visitantes e pesquisadores do mundo todo. Um dos sítios mais visitados é o Xique-Xique I, localizado nas encostas de uma pequena serra, onde o que se vê são homens caçando, exibindo lanças e flechas, um casal que espanta pássaros (ou quem sabe os encurrala tentando garantir o jantar), crianças sobre uma árvore e mais uma dezena de cenas com grande precisão e expressividade. São centenas de figuras que variam entre 5 e 15 cm, a maioria feita com pigmentos em vermelho, retirados do óxido de ferro. O Xique-Xique I proporciona também ótima visão de todo o vale, onde nossos artistas se protegiam de animais e de tribos inimigas.

A Talhada do Gavião é outro grande abrigo onde foram deixadas mais pinturas, dessa vez de artista mais detalhista, que trabalha com figuras geométricas minuciosas e utiliza cores além do vermelho para cobrir quase toda a superfície de pedra. Em meio ao grande mosaico multicolorido, além de algumas cenas envolvendo homens e animais, destacam-se desenhos de pirogas, barcos rudimentares feitos de um único tronco. Para alguns pesquisadores, tais símbolos poderiam indicar que onde hoje prevalece a caatinga pode ter havido um ecossistema bastante diferente, com rios navegáveis e clima mais úmido.

Na cidade de Parelhas, os primeiros habitantes também demonstram saber escolher o lugar para morar e deixar suas marcas. No sítio arqueológico do Mirador, como o nome insinua, tem-se uma visão geral de toda a planície que hoje é o Açude Boqueirão, resultado do represamento do Rio Seridó. As pinturas estão localizadas no alto do morro, num paredão inclinado de mais de 100 metros que as protegeu da chuva e do sol. São vários blocos de desenhos, com temas que variam: bandos de aves (muito parecidas com emas, comuns na região), caçadores que seguram tacapes e flechas. Os traços são perfeitos.

Não muito longe dali, em Caicó, uma das maiores cidades do Seridó, chega-se à Gruta da Caridade, onde são encontradas pinturas com outras características, as itacoatiaras (pedra riscada). Aí os grafismos, em baixo relevo, são considerados pinturas mais recentes, em torno de 2 mil anos. No interior da gruta há um pequeno riacho que forma quedas d’água. Não é à toa que o local tem se tornado ponto de visitação constante de aventureiros e espeleólogos.

João Correia Filho Açude Gargalheiras
Açude Gargalheiras

Fonte de alimento

A busca pela água forjou uma outra característica do Seridó: a presença de açudes, construídos, a maioria, em meados do século passado. Hoje, quando se olha para um mapa hidrográfico do sul do estado, o que se tem é uma região coalhada de áreas azuis, indicando onde a mão do homem fez a água se acumular. Mais de 400 mil pessoas vivem em função da água desses açudes.

Alguns, como o Gargalheiras, o Boqueirão e o Sabugi, permeiam toda a vida do sertanejo, servem de fonte de alimento e mantêm irrigadas plantações de milho, feijão e cana-de-açúcar. Também representam uma expectativa para o turismo, que já começa a descobrir a beleza de seu entorno – as imensas estruturas geraram as paisagens mais belas do Seridó, quando montanhas e vales desenham um horizonte inusitado para o Semi-Árido brasileiro.

O Açude Gargalheiras, na cidade de Acari, passou a atrair aventureiros em busca de esportes radicais (trilhas, rapel e escaladas são praticados ali) e de sossego (a única pousada do lugar é um verdadeiro refúgio em meio ao imenso espelho d’água, ao qual se chega apenas de barco). Do topo da serra, a visão impressiona aqueles que imaginam o sertão estéril, seco e sem vida.

Toda essa diversidade se apresenta ao visitante em meio a um ecossistema que, assim como o interior nordestino, foi subjugado e agora está sendo descoberto pelo mundo. Conhecida como sinônimo de seca e pobreza, a Caatinga começa a se mostrar um local cheio de vida, cor e surpresas. Quem visita a região pode ver na fauna (preás, veados, emas e grande quantidade de pássaros), na flora (vários tipos de cacto, árvore e uma imensidade de flores) e na vida do sertanejo (com suas roupas de couro e sua sabedoria) muito da cultura do Brasil. Um lugar que espera pelo viajante atento, em busca de paisagens únicas, que já encantou nossos antepassados há milhares de anos.

Saiba mais

Roteiro Seridó: O Sebrae do Rio Grande do Norte criou recentemente o Roteiro Seridó, projeto de turismo que inclui as sete cidades da região. Além do roteiro arqueológico, oferece opções de ecoturismo, turismo cultural e turismo rural – www.roteiroserido.com.br

Como chegar: Saindo de Natal, a cidade mais próxima é Currais Novos. São 180 quilômetros seguindo pela BR-304 até Macaíba e de lá pela BR-226. A partir daí quase todas as cidades ficam bem próximas.

Onde ficar: Pousada Pé de Serra, nas margens do Açude Gargalheiras, em Acari. A energia é toda solar e não há estradas até lá. Chega-se ao açude numa pequena lancha. (84) 3412 1413 / 9995-6127.

O projeto “Cama, Café e Rede”, no qual os visitantes ficam em casa de moradores da região, garante bom atendimento. Informe-se pelo site do Roteiro Seridó.

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