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Número 137,

Mídia

QuatroV: o audiovisual contra o ódio e em prol dos direitos humanos

Site que surgiu em meio ao retrocesso político de 2015 é feito por voluntários que produzem vídeos para propagar a não-violência e combater discriminações, falsas notícias, golpismo e militarismo
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 04/03/2018 10h41
Site que surgiu em meio ao retrocesso político de 2015 é feito por voluntários que produzem vídeos para propagar a não-violência e combater discriminações, falsas notícias, golpismo e militarismo
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Gunther (xadrez): 'A ideia do canal surgiu de voluntários que não aguentavam mais ver tantos vídeos fomentando ódio e propagando inverdades'

“Somos da geração que irá construir um mundo sem guerras e sem fronteiras. Somos humanistas, ativistas, videomakers, produtores, jornalistas, designers, poetas, historiadores, filósofos e investigadores que se juntaram para combater as campanhas de ódio e de intolerância na televisão e nas redes sociais, através de um programa semanal de TV e de vídeos curtos na internet.” É assim que o projeto QuatroV se apresenta: como um canal que produz conteúdo audiovisual com foco na convergência da diversidade, na propagação dos direitos humanos, nos métodos de não violência ativa, não discriminação, liberdade de ideias e de crenças.

Um dos programas produzidos semanalmente é o 4V: Política, Filosofia, Arte e Cultura, que promove debates políticos, entrevistas, infovídeos e discussões de assuntos considerados polêmicos.

Segundo o diretor criativo do projeto, Gunther Aleksander, 4V nasceu em março de 2015, depois de uma reunião internacional da Pressenza, uma agência criada em 2009 durante a Marcha Mundial pela Paz e pela Não-violência. O intuito era combater as campanhas de ódio e mentiras que aumentaram exponencialmente. “A principal ideia do canal é bem simples: se os poderosos têm controle sobre a mídia de massa, nós podemos fazer uma massa de mídias. Unindo pequenos veículos alternativos e pessoas comuns. E se eles têm os bancos, nós temos uns ao outros”, afirma Gunther.

"Esta ideia do canal surgiu de alguns voluntários que não aguentavam mais ver tantos vídeos fomentando ódio e propagando inverdades. Já vínhamos fazendo algumas produções audiovisuais, produzindo de forma ocasional alguns vídeos sobre paz e desarmamento, direitos humanos, não-discriminação e não-violência",  declara o filósofo e ativista graduado em Comunicação Audiovisual. Ele observa que nos últimos anos a onda conservadora cresceu e foi muito fomentada pelos principais veículos da mídia tradicional. "Chegamos à conclusão que era necessário e urgente dialogar com públicos maiores. Para fazer um contraponto e ampliar a perspectiva, incluindo sempre que possível ao menos três ou quatro pontos de vista para fugir dos maniqueísmos."

Segundo Gunther, depois de três anos de sua criação, os vídeos do QuatroV alcançam de 1 milhão a 2 milhões de visualizações mensais, além de contar com um programa de opinião em uma TV pública do Paraná e com exibições em ônibus de Salvador. “Como somos voluntários, trabalhamos com o conceito de compromisso de pauta, ou seja, que cada voluntário possa trabalhar matérias que realmente lhe 'tiram o sono' e consigam abordar a informação de uma forma plural, mostrando o lado que a maioria das redações tradicionais não costumam abordar”, conta o diretor criativo.

Resistir ao ódio em todas as suas formas

No início de fevereiro, o grupo publicou o vídeo Do Luto à Luta, que traz informações sobre a violência contra as pessoas transexuais e transgênero e sobre como elas estão ocupando cada vez mais espaços sociais para conquistar seus direitos e lutar contra a transfobia.

Outro destaque do site é um vídeo sobre violência de gênero, que foi ao ar pouco depois que MC Diguinho lançou a misógina Surubinha de Leve, música que viralizou no início deste ano e faz apologia ao estupro. “O sucesso só demonstra que há uma cultura que naturaliza a violência contra a mulher, a cultura do estupro. Em 2016, o Brasil registrou 135 estupros por dia – isso, daqueles que foram denunciados. E uma pesquisa apontou que mais de um terço dos brasileiros acreditam que 'mulheres que se dão ao respeito não são estupradas'; 30% acreditam que 'mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada'”, informa o vídeo de pouco mais de dois minutos.

Para o grupo, é imprescindível difundir informação que combata a violência e o ódio em todas as suas formas, em especial nas camadas marginalizadas da sociedade. “É de importância fundamental resistir ao ódio em todas as suas formas e superar a 'cultura do inimigo' para fortalecer a ação cultural, política e social para sair desta maré e virar a página do golpe. O estado policial e o tribunal de exceção que se instalaram nos últimos anos sempre estiveram presentes na periferia e no campo. E o mais grave é que desumanizam grande parte da população e, justamente por não reconhecerem que somos todos humanos, realizam um genocídio sistemático das camadas mais pobres e marginalizadas”, afirma Gunther Aleksander.

Hoje em dia é possível criar mecanismos de comunicação simples e fortes o suficiente para competir com os veículos tradicionais. Deixando de repetir os slogans vazios dos meios de comunicação e introduzir novas pautas e novos vocabulários no cenário geral, gerando conteúdos polêmicos e debates chamativos que tragam pessoas para o campo da democracia, dos direitos humanos, da não-violência e da não-discriminação”, completa.