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Número 134,

Cinema

'Todos devem lutar contra a opressão e exclusão das pessoas trans'

Documentário 'Meu Corpo é Político', de Alice Riff, acompanha quatro militantes LGBT e propõe uma reflexão sobre a visibilidade das pessoas trans, negras e periféricas
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 30/11/2017 14h50, última modificação 30/11/2017 18h13
Documentário 'Meu Corpo é Político', de Alice Riff, acompanha quatro militantes LGBT e propõe uma reflexão sobre a visibilidade das pessoas trans, negras e periféricas
Divulgação
Linn

Linn: 'Não é só o macho que vai dizer como a gente tem de rebolar. Agora, a gente vai falar como quer rebolar'

O cotidiano, a intimidade e os espaços de fala da população transgênero, negra e periférica estão representados no primeiro longa-metragem da diretora Alice Riff, Meu Corpo É Político, que estreia nos cinemas no dia 30 de novembro. O documentário acompanha o dia a dia de quatro militantes LGBT que vivem em bairros periféricos da capital paulista: o homem transexual Fernando Ribeiro, as mulheres transexuais Giu Nonato e Paula Beatriz e a artista queer Linn da Quebrada.

Com pouco mais de uma hora de duração, o filme não cai em nenhum momento na armadilha de fazer retratos estereotipados. Ao contrário: sua intenção é apresentar estes cidadãos que estão ocupando espaços que lhes foram (e ainda são) negados historicamente. Um exemplo é o cotidiano de Paula, mulher trans negra que é diretora de uma escola pública. Do café da manhã em família até a assinatura de documentos na escola, sua rotina em si é a forma de sua resistência.

Segundo Alice, a ideia do documentário surgiu a partir da militância que conheceu no Festival Periferia Trans, realizado desde 2015 em São Paulo, cujo organizador, Bruno César, assina a linha editorial e pesquisa do longa. “O filme acompanha e se soma a uma militância trans que vem sendo construída, de pensar a questão trans somada a outros marcadores de marginalização em uma população que vive fora dos centros, no contexto das periferias, trazendo outras questões, somadas também à questão dos corpos negros. A discussão nesses espaços e com esses corpos é e deve ser diferente da discussão T entre pessoas que vivem no centro, de classe média”, afirma a cineasta cujos curtas-metragens abordam temas ligados aos direitos humanos.

Paula e Fernando

Ocupar espaços

O filme foi elaborado a partir de reflexões de como os corpos trans estavam construindo no cotidiano uma luta pela ocupação dos espaços públicos. “Ele propõe ao espectador um encontro: passar uma hora e pouquinho vivendo com aquelas pessoas, participando da vida delas e, a partir desse encontro, levantar questões relacionadas à transfobia e à brutal exclusão a que as pessoas trans estão lutando contra", diz. "A intenção é discutir as principais questões e como elas estão presentes no cotidiano das pessoas trans, buscando contribuir para que toda a sociedade perceba como é responsável também por essa luta, no sentido de lutar contra todas as violências – desde a violência física até a violência institucional.”

Meu Corpo É Político talvez possa ser definido mais como um filme de imagens de resistência do que de discursos e entrevistas que explicam os pontos de vista dos personagens. As imagens acabam dizendo muito mais que as falas propriamente ditas. O discurso, neste caso, se faz mais nas ações cotidianas, como pegar um ônibus, tomar banho, no trajeto para o trabalho, no encontro com os amigos, do que na fala propriamente dita. Ações que deveriam ser consideradas corriqueiras para todos são, na verdade, atos de resistência para pessoas marginalizadas.

As imagens que são construídas no filme estão reivindicando a ocupação dos espaços e a luta pela garantia de direitos, reivindicando o direito de ser como se é. O filme constrói uma narrativa pouco apresentada quando se fala em transexualidade. A observação propõe a experiência, propõe entrarmos um pouco no cotidiano de quatro pessoas que estão construindo uma reflexão o tempo todo. Construímos no filme imagens de resistência, e elas levam o espectador às reflexões que são importantes na construção de uma sociedade em que todos e todas tem o direito de viver com dignidade e liberdade”, aponta a diretora.

É isso o que querem Fernando Ribeiro, Giu Nonato, Paula Beatriz e Linn da Quebrada: direitos e respeito. “Se eu preciso procurar um ginecologista, eu não consigo porque você chega lá no consultório onde só tem mulheres cisgêneras, pessoas que têm vagina (eu tenho uma vagina mas o meu corpo é masculino) e os médicos não estão preparados para receber isso, as pessoas não estão preparadas para me receber. Às vezes, eu estou com alguma dúvida, alguma dor, e eu não vou. (…) Até quando? É essa a preocupação da minha mãe, é essa a preocupação da minha companheira, da minha namorada, de todo mundo. É essa preocupação que o governo tinha que ter comigo. (…) Quanto mais o tempo passa, mais eu vou me escondendo e vou deixando de ocupar os espaços que são meus de direito”, diz Fernando Ribeiro no longa-metragem.

Além do combate à transfobia, há também uma forte mensagem contra o machismo e a misoginia, especialmente presente na fala da artista Linn da Quebrada. “Eu não sou cantora. Acho que estou agindo com a música, com o funk, para falar da minha experiência, de uma experiência que me formou e para gerar movimento, que é o mais interessante. O funk é a poesia da favela, o funk é a poesia da periferia e acho que é só pra evidenciar que isso é um movimento que todas nós podemos fazer, que não é só o macho, alpha, que vai dizer como a gente tem de rebolar. Agora, a gente vai falar como quer rebolar”, provoca.

Ao evidenciar as lutas internas e externas dessas quatro pessoas, o longa deixa entender que é dever de toda a sociedade fazer com que os direitos de todos e todas sejam garantidos e respeitados, independentemente de gênero, orientação sexual, raça etc. “A transfobia, o racismo, o machismo e a misoginia matam, excluem, levam grupos à situação de marginalidade e pobreza. É responsabilidade de todos, trans e cis, brancos(as) e negros(as), cada um reconhecendo seu lugar e seus privilégios, lutar contra toda uma história de opressões e exclusão. Principalmente nesse momento do país, em que grupos de direita têm se articulado contra todas as lutas ligadas aos direitos humanos”, declara Alice Riff.

Meu corpo é político
Direção e roteiro: Alice Riff
Com Fernando Ribeiro, Giu Nonato, Linn da Quebrada e Paula Beatriz
Produção: Studio Riff, Paideia Filmes
Produtor Executivo: Heverton Lima
Classificação: 12 anos
Duração: 71 minutos
País: Brasil