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Número 127,

viagem

Uma visita ao último muro europeu: Chipre

De um lado, dois terços da ilha, fica a República de Chipre, parte da União Europeia. Do outro, um terço, a República Turca de Chipre. A história dessa divisão lembra a antiga entre as duas Alemanhas
por Flávio Aguiar, para a Revista do Brasil publicado 15/04/2017 10h52, última modificação 15/04/2017 14h21
De um lado, dois terços da ilha, fica a República de Chipre, parte da União Europeia. Do outro, um terço, a República Turca de Chipre. A história dessa divisão lembra a antiga entre as duas Alemanhas
Zinka Ziebell
Ruínas de Santo Hilário

Ruínas de Santo Hilário: palco de intrigas políticas que levaram a alguns assassinatos de cortesãos e até de um rei

Nicosia, a capital da República de Chipre, na ilha do mesmo nome, é a última cidade europeia dividida por um muro. O muro em questão é uma faixa que divide não só a cidade, mas a ilha inteira ao longo de pouco mais de 200 quilômetros, tendo em média a largura de uma avenida. De um lado, ao sul, ocupando 60% do território, fica a República de Chipre, integrante da União Europeia e da Zona do Euro. Do outro lado, fica a República Turca de Chipre, que só a Turquia reconhece, e cuja moeda é a lira turca.

Dentro da faixa, administrada pela Organização das Nações Unidas (ONU), com seus capacetes azuis, nas zonas urbanas há casas abandonadas e sinais de guerra, com suas paredes esburacadas por balas, além de algumas residências estarem semidestruídas.

Do lado norte, a cidade tem seu nome turco: Lefkosa. A história e a permanência dessa divisão, que lembra a antiga entre as duas Alemanhas e as duas Berlim, são bastante complicadas.

No fim da 2ª Guerra Mundial, Chipre era uma colônia britânica, herdada do Congresso e Tratado de Berlim, ao fim do século 19, e da dissolução do Império Otomano, que dominou a ilha desde o fim do século 16 até o fim dos anos 1800. Houve movimentos por independência e propostas de anexação à Grécia e à Turquia.

Em 1960 a ilha tornou-se independente, mas a tensão entre as comunidades turcas e gregas continuou, embora houvesse também movimentos nacionalistas unitários dentro de ambas as comunidades.

Por sua vez, os britânicos mantiveram duas bases militares na ilha, que ocupam aproximadamente 3% de seu território. Em 1974, a paisagem política mudou radicalmente. Um golpe de Estado por parte de defensores da incorporação à Grécia, com apoio do junta militar que governava o país, depôs o então presidente Makarios, também arcebispo da Igreja Ortodoxa.

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Ruína de Igreja Ortodoxa e uma casa da “terra de ninguém”, abandonada

Na sequência, a Turquia invadiu militarmente a ilha, ocupando o lado norte. Em consequência desse conflito houve a divisão, e a formação das duas repúblicas, embora a ONU não reconheça o lado norte como país independente.

Mais de 200 mil pessoas tiveram de emigrar para um ou outro lado: os de ascendência grega e religião ortodoxa para o sul, e os de ascendência turca e religião muçulmana para o norte.

A situação provocada é complicadíssima, pois há títulos de propriedade de casas, por exemplo, de um lado da ilha, que pertencem a gente que mora do outro lado, sem falar naqueles das casas que estão na terra de ninguém que separa ambos. As comunidades se mostram divididas: há os que mantêm a posição “grega” e os que mantêm a posição “turca”.

Mas há ainda os que defendem um nacionalismo cipriota que reuniria ambas as comunidades numa espécie de confederação. E outras complicações permanecem. Só se pode chegar ao lado norte, por via aérea, quem proceda da Turquia.

A reportagem, por exemplo, seguiu da Alemanha para a cidade de Antalya, na Turquia, e daí para o aeroporto cipriota que fica perto da cidade de Famagusta. Os cidadãos do lado sul podem passar livremente para o norte. Porém, um cidadão do norte que não tenha licença especial para atravessar o muro/fronteira terá de, primeiro, seguir para a Turquia, daí para a Grécia e somente depois seguir para seu objetivo final, se quiser ir para o sul – embora a distância que separa os dois pontos – o de partida e o de chegada – possa ser de apenas algumas dezenas de metros.

O norte tem forte presença econômica e militar turca. Exemplo disso é o projeto de construir um aqueduto de água doce da Anatólia turca para a ilha, ao custo de centenas de milhões de qualquer moeda em que se queira medir sua execução. As bases militares turcas estão dispostas em pontos estratégicos, e são proibidas fotos e filmagens, bem como sobre a faixa da ONU.

Do lado sul, vê-se a presença do capitalismo europeu triunfante – com suas lojas e vitrines rutilantes, além das inevitáveis bases britânicas, que abrigam cerca de 7 mil militares. Deu para perceber a existência de um preconceito genérico do sul em relação ao norte: este visto como “estranho” e “atrasado”, e aquele, como “europeu” e “adiantado”.

Superando esses preconceitos tão divisores quanto o muro concreto, a visita ao lado norte é interessantíssima de todos os pontos de vista, bem como produtiva é também uma excursão ao lado sul, onde é possível encontrar lojas pequenas, gente comum, com única ambição de sobreviver em paz com o “outro lado”.

No lado norte, o guia Celal Firat, com seu alemão impecável e uma erudição fantástica, revelou toda a riqueza cultural da ilha, mostrou de modo equilibrado as tensões e a extraordinária complexidade religiosa e política de Chipre e sua história. Sua atenção e apoio aos visitantes foi valiosíssima.

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'O Nascimento de Vênus', de Botticelli, mostra chegada de Afrodite em Chipre

Chipre está a apenas 90 quilômetros da Síria (a distância entre as cidades de São Paulo e São José dos Campos). Foi terreno de disputas e território ocupado desde a Antiguidade por gregos, macedônios, romanos (que deixaram ruínas extraordinárias na ilha). Depois pelos cruzados, franceses (a dinastia dos Lusignan), por Ricardo Coração de Leão (o rei inglês das Cruzadas), além de genoveses, venezianos, depois otomanos (turcos), ingleses.

Houve até uma guerra entre a Rússia czarista e a Turquia envolvendo a ilha, e a presença russa também é muito forte até hoje.

Além das ruínas gregas e romanas, há marcas extraordinárias de igrejas cristãs, hoje da religião ortodoxa, além de outras igrejas e basílicas que foram transformadas em mesquitas muçulmanas do lado norte. No plano mítico, a ilha é o berço de Afrodite, a Vênus romana, que nasceu ali da espuma do mar (o sêmen/sangue do deus antigo Urano), havendo disputas entre o sul e o norte sobre “o local” exato deste nascimento.

Já no plano literário, Chipre é palco da tragédia Otelo, de Shakespeare, que evoca o tempo da sua dominação pela “Sereníssima República” veneziana. Na cidade de Famagusta há, entre os pontos turísticos há uma Torre de Otelo, embora a localização de Otelo e sua corte não seja precisa na tragédia de Shakespeare.

Entre os muitos pontos imperdíveis no lado norte estão as ruínas romanas de Salamina (Salamis nas línguas locais) e as do castelo medieval de Santo Hilário, no alto de um dos picos da ilha (a mais de 700 metros de altura – a mesma do Corcovado, no Rio de Janeiro), palco de intrigas políticas que levaram a alguns assassinatos de cortesãos e até de um rei, pelo menos).

Zinka Ziebell Anfiteatro Salamina
Anfiteatro Salamina: entre os muitos pontos imperdíveis no lado Norte

A ilha teve importância estratégica em todas as fases de expansão do cristianismo. A mistura de história e lenda registra a passagem por ali do apóstolo Paulo e do evangelista Marcos, dentre outros santos de forte culto, como São Barnabé e São Mamede. No lado sul, na cidade de Larnaca, há uma igreja ortodoxa dedicada a São Lázaro, aquele que foi ressuscitado por Cristo, com exposição de alguns ossos ditos dele, como relíquias.

Hoje há um movimento forte pela reunificação, sob a forma de uma confederação, embora haja também quem queira manter a separação. Uma das dificuldades que é difícil de suplantar é que nem o Reino Unido e nem a Turquia querem abrir mão de suas bases militares.

Em todo caso, trata-se de uma visita imperdível. Para o portador de passaporte brasileiro não há dificuldade de passar de um lado para o outro.