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Número 124,

Haddad e a cidade

‘São Paulo teve ganhos civilizatórios e a casa está em ordem’

Para ex-prefeito, planejamento é bem amarrado e duro de ser desmontado. “Mas vamos ver até aonde vai a coragem para desmontar. E até onde vai a disposição de setores esclarecidos da cidade em defender isso”
por Paulo Donizetti de Souza e Rodrigo Gomes publicado 01/01/2017 14h39, última modificação 08/01/2017 12h37
Para ex-prefeito, planejamento é bem amarrado e duro de ser desmontado. “Mas vamos ver até aonde vai a coragem para desmontar. E até onde vai a disposição de setores esclarecidos da cidade em defender isso”
Jailton Garcia/RBA
Fernando Haddad

Para Haddad, a disputa na cidade será mais no plano do simbólico do que conceitual. 'E acho que o lado republicano vai ganhar'

São Paulo – Ao deixar o comando da maior cidade do continente e, segundo ele, a casa em ordem em um tempo de estados e municípios falidos, Fernando Haddad revela uma ponta de tristeza por não conseguir se reeleger. Para se completar um ciclo baseado num conceito humanizado de gestão, oito anos estariam de bom tamanho. “Em 2020, não estaríamos discutindo velocidade nas vias ou De Braços Abertos, seriam programas já consolidados”, acredita. Mas ele próprio entende que as vitórias da esquerda na capital paulista “são pontos fora da curva”.

Haddad lembra que mesmo governos com aprovação de até 80%, como os de Luiz Inácio Lula da Silva, seu partido, o PT, perdeu na cidade as eleições presidenciais de 2006, 2010 e 2014. E pondera que o país não vive uma situação normal, depois de um período de mais de 10 anos de intenso ataque dirigido a demonizar a política, como um todo, e a esquerda, em particular. “O que acontece aqui não é disputa, virou carnificina em torno de ideologia.”

Apesar de sucedido por um conservador, que vê a cidade como negócio, o agora ex-prefeito duvida que programas que caíram nas graças da população sejam desmontados, por constar de um planejamento de longo prazo, até 2030, “muito bem amarrado”. O Plano Diretor Estratégico, que rendeu à administração reconhecimento internacional e prêmios urbanísticos, pode ser ajustado, mas não desmontado, acredita. A disputa será mais no plano do simbólico do que conceitual, aposta Haddad, agora prestes a retomar carreira de professor de Ciência Política na Universidade de São Paulo. “E na disputa simbólica, acho que o lado republicano vai ganhar”, emenda.

O que acontece aqui não é disputa, virou carnificina em torno de ideologia. Chamar ciclista de comunista. Criticar faixa de ônibus. É impensável. Se fosse outro prefeito, elogiariam

O sr. disse algumas vezes que não se preocupava com a reeleição, e que importante é fazer o que tem de ser feito. Mas uma preocupação com a continuidade dos programas não seria uma postura republicana? Faltou preocupação com a política?

Olha, procurei alinhavar o desenvolvimento da cidade o quanto eu pude. Eu aprovei a reestruturação da dívida de uma maneira duradoura. São Paulo hoje está na melhor condição financeira dos últimos 20, 25 anos. Isso nem meus adversários contestam. Deixei o planejamento urbano da cidade pensado até 2030, amarrei o desenvolvimento urbano a um plano de longo prazo, que é o Plano Diretor Estratégico. E licitei o maior conjunto de obras da história da cidade. Muitas eu entreguei, outras estão em curso ou vão ser iniciadas, porque estão conveniadas com o governo federal. Do ponto de vista tanto do PDE quanto dos planos setoriais, hospitais, UPAs, UBS, habitação, mobilidade, corredores, eu acho que está bem estruturado. Será difícil descontinuar. Acho que a descontinuidade vai ser mais no plano simbólico que no real.

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O trânsito da cidade se tornou muito mais civilizado, com corredores e faixas de ônibus, ciclovias, calçadas, diminuição de velocidade, transporte individual por aplicativo, carpooling. Organizamos uma série de coisas e está se discutindo a velocidade em duas vias. É mais simbólico do que real. Pega os programas sociais que eu desenvolvi. O único que está em disputa é o De Braços Abertos. Os outros nem se discute. Às vezes se discute a perfumaria para demarcar território no campo simbólico. Mas duvido que o essencial seja desconstruído.

Mesmo passando de uma gestão que se propunha a pensar em cidade humanizada para uma que pensa em cidade para os negócios?

Isso é grave. Abrir-se mão disso, desse conceito. Se a disputa simbólica se desdobrar em efeitos práticos e as pessoas não se verem mais como o centro da política para cidade, você pode ter um prejuízo civilizacional. Houve um ganho civilizacional importante na cidade de São Paulo. A cultura bombou, os espaços públicos, a apropriação das ruas. A questão da Avenida Paulista é muito simbólica. Você colocar uma ciclovia na principal avenida da América Latina, fechar aos domingos, botar artista de rua, food truck, parklets. Mas vamos ver até aonde vai a coragem para desmontar essas coisas. E vamos ver também até onde vai a disposição da cidade, de setores esclarecidos, em defender isso. A ideia original de desfazer a Paulista Aberta, colocando só meia faixa, durou 15 dias. A reação foi grande e houve um recuo. Se houver essa disputa simbólica, acho que o lado republicano vai ganhar.

O Doria já sinalizou, por exemplo, uma revisão do Plano Diretor. E já há um histórico de quando a Marta aprovou Plano Diretor e não houve continuidade nas gestões Serra e Kassab.

Eu conhecia as fragilidades e procurei prevenir desta vez. O Plano Diretor está muito bem amarrado. Vai ser pedreira mexer com ele. Foi elogiado pela ONU, teve repercussão internacional. O PDE de São Paulo foi premiado pelo site de urbanismo mais acessado do mundo, o ArchDaily. O representante da ONU participou da sanção e o melhor discurso foi o dele. Ajustar, pode ser, mas desmontar vai ser difícil.

Em 2006, 2010 e 2014, mesmo “apanhando” muito da imprensa, Lula e Dilma venceram eleições por terem alcançado resultados perceptíveis na vida das pessoas. Faltaram em sua gestão ações mais “perceptíveis”?

Nas três eleições que você citou, perdemos na cidade de São Paulo. Aqui a disputa ideológica é muito maior do que em qualquer outro lugar do país. A imprensa é toda alinhada com o ponto de vista conservador. A Erundina ganhou uma vez, a Marta ganhou e eu ganhei. Mas são pontos fora da curva. Nas três eleições que você menciona, perdemos na cidade. E estamos falando de um presidente que teve mais de 80% de aprovação. Por quê? Vamos sair um pouquinho da capital. Veja o que aconteceu no ABC. O Luiz Marinho não conseguiu fazer o sucessor em São Bernardo. O Carlos Grana, em Santo André, e o Donisete Braga, em Mauá, não foram reeleitos. E não foi por falta de realizações, todos fizeram boas administrações. É um contexto muito complexo.

Dificuldades não eram esperadas? O sr. comenta reiteradamente que a imprensa pegou no seu pé.

Uma muralha, né? Escondeu realizações e atacou coisas boas. Eu vou te falar uma coisa: quando eu estava na reunião com o papa, em Roma, com prefeitos do mundo inteiro, e disse que a OAB havia entrado com ação contra a redução da velocidade nas vias, as pessoas me perguntaram mais de uma vez se era verdade. A entidade representativa dos advogados está processando a prefeitura por seguir uma orientação da OMS? Eu poderia citar dezenas de casos desse tipo. O que acontece aqui não é disputa, virou carnificina em torno de ideologia. O déficit de republicanismo no Brasil é uma coisa que só não percebe quem não quer. Eu nunca vi uma coisa dessas acontecer. A pessoa chamar ciclista de comunista. Criticar faixa de ônibus. Tudo por ideologia. É uma coisa impensável. Se fosse outro prefeito a fazer, iriam elogiar.

Não tem jornalista que usa droga? Não tem político que usa? Eles não recebem salário no final do mês? Por que um dependente químico que trabalha para a cidade não pode receber?

Sua gestão não foi condescendente e valorizou os grandes veículos de comunicação? Integrantes da administração deram mais atenção a eles, ofereceram “furos” sobre ações da administração, enquanto houve desatenção aos veículos menores e alternativos.

Pode ser. Se você está falando, eu acredito. Vocês talvez tenham sido vítimas desse processo.

Tivemos mesmo dificuldades para ser atendidos...

Isso pode ter acontecido, mas não por minha vontade.

Não é algo que tem de ser repensado? Até o governo Lula é criticado por não ter feito reforma que democratizasse a comunicação.

É verdade. Você veja que os grandes veículos entraram com ação para tirar do ar sites do El País, BBC e The Intercept. Olha a que ponto chegamos! Quererem tirar do ar veículos que são mais independentes, menos impregnados de ideologia conservadora. E ninguém discute isso. Não se viu notícia disso. Eu acho até que vi na Rede Brasil Atual, mesmo. Por onde eu saberia? Nem os veículos alvos da ação noticiaram.

O sr. evitou ir para o embate com o governador Geraldo Alckmin porque dizia que sempre saía perdendo. Ele tinha uma blindagem a favor e o sr., hostilidade. Não faltou esforço para marcar essas diferenças do que é obrigação do estado e a obrigação da prefeitura?

Você já reparou como são as manchetes nos jornais? “Haddad fez tal coisa...” e “DAEE tal outra coisa”. Quem é o DAEE? Ninguém sabe. “Sabesp tal coisa”, “Dersa tal coisa”. Um dia eu vi uma matéria que dizia “engenheiro da gestão Haddad...”, ele era um engenheiro de carreira e a Folha deu que era da minha gestão. Conseguiram colocar meu nome na manchete. Quando pode isso, pode tudo. Teve uma vez um “Irmão de secretário de Haddad é processado”, aí descobriram que ele era irmão de um secretário estadual, e sumiram com a manchete. Era só trocar meu nome pelo do governador.

Agora, vozes que se calaram durante as eleições estão dizendo “que absurdo voltar a velocidade original das marginais”. Onde esse pessoal estava há três meses? Viajando? Ficou bonito o que era feio?

Independentemente da conduta dos jornais, o sr. não exagerou no republicanismo na relação com o governo estadual? Um exemplo: em junho de 2013, quando o Conselho da Cidade recomendou rever o aumento da tarifa de ônibus, o sr. não acatou, ficou junto com Alckmin.

A decisão do recuo foi no dia seguinte à reunião do Conselho. Aquilo comprometeu todo o planejamento que tinha sido feito até março, custou R$ 1,5 bi para a cidade. Eu dizia que aquele movimento não tinha nada a ver com tarifa, e eu estava certo.

O Ministério Público foi mais rigoroso com seu governo?

O MP, enquanto instituição, teve um relacionamento importante conosco, principalmente no combate à corrupção. Foram parceiros de primeira hora no combate, onde se descobriram as várias máfias dentro da prefeitura. Um ou outro promotor tem essa postura menos republicana, mas não é a instituição. Tivemos um problema com um promotor Marcelo Milani, que vem perdendo as ações que propôs sem pé nem cabeça. Isso causa um problema para a gestão. A imprensa não separa o MP como instituição da ação de um promotor especificamente. Esse é um promotor que tem uma atitude não republicana, por isso entramos com duas representações contra ele na corregedoria do MP, uma foi acatada.

O sr. se relaciona com as páginas de seus “clones” das redes sociais, como Prefeito Gato ou o Haddad Tranquilão? Eles dizem coisas que gostaria de dizer e não pode?

Fernando Haddad

Eu tenho identidade com o bom humor e eles são bem-humorados, mesmo sendo críticos às vezes. Isso compõe parte da minha personalidade. Eu sempre procuro manter o humor e a autoironia, então eles captam um traço da minha personalidade.

Tem também o Prefeito Gourmet, mais crítico, abordando que o sr. fez uma gestão voltada para classe média e deixou a periferia de lado.

É desconhecimento. Onde eu construí hospital, CEU, creche, corredor de ônibus, LEDs, Uniceu e praça com Wi-Fi? Se fosse listar aqui, é tudo na periferia. “Às vezes a pessoa acha que conhece São Paulo e repete o que o (comentarista Marco Antonio) Villa diz na Jovem Pan. Eu tenho pena de quem repete o Villa. Isso traz muitas consequências como estamos vendo agora, muita intolerância e ódio. Além de muita demonização da política. Quem são os intelectuais orgânicos desse projeto conservador que está em curso? Comentaristas de rádio, subintelectuais, pessoas despreparadas. A assimilação por parte da elite econômica de um pensamento tão raso dá conta do pé em que nós estamos.

Esse não é um fenômeno da “redessocialização” da política? O que importa não é a proposta, é “mitar”? A última campanha, por exemplo, pouco discutiu projetos.

É uma pena para a cidade uma imprensa ter comprado isso. A imprensa não forçou a discussão sobre “kit gay”? Assimilou até o bordão da extrema-direita para tratar de um assunto sério. A partir daí você tira a base do rebaixamento do debate político. Chamar de “bolsa crack”, “bolsa travesti”, “kit gay”, onde nós estamos? Estamos discutindo programas reconhecidos internacionalmente.

Pode haver uma evasão da população que está sendo atendida pelos De Braços Abertos com a proposta do Doria de cortar o auxílio?

Não consigo entender o argumento de que um drogado rico pode receber salário e um pobre, não, porque ele compra droga. Não tem jornalista que consome droga? Não tem político que consome droga? Eles não recebem salário no final do mês? Por que alguém que cuida da zeladoria da cidade não pode receber salário? E estamos falando de R$ 15 por dia. Eu não consigo entender o drama, porque não é uma “bolsa”. É remuneração por trabalho. Falam “não pode dar dinheiro para drogado”, olha esse jeito de tratar a população, nunca foram conversar com eles. A primeira atitude que você deve fazer é avaliar o programa com os beneficiários, falar com os médicos que atendem essa população.

Algumas pessoas se dizem mais tristes com a sua derrota do que com o impeachment, por verem na sua administração um projeto de cidade inclusiva. O sr. também sente tristeza por ter perdido, ou já estava preparado?

Eu sabia dos riscos, quem viveu 2013 e 2016 não poderia estar otimista. Foi o período mais turbulento que eu vivi, já são quase 54 anos. Mas eu queria ficar mais quatro anos e concluir um ciclo. Em uma cidade pequena, talvez, em quatro anos você consegue mostrar a que veio. No Ministério da Educação, por exemplo, se eu tivesse ficado só quatro anos (ficou de 2003 a 2012, sendo a partir de 2005 como ministro) não teria deixado o legado que deixei, que hoje já está documentado, tem livro sobre o assunto. Em São Paulo, precisaríamos de oito anos para completar o ciclo. Garanto que não íamos mais discutir velocidades das marginais em 2020, nem radar, nem Braços Abertos. Nada disso. Tudo isso estaria consolidado e assimilado.