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Número 117,

Memória

Livres, idealistas e rebeldes. A grande história do jornal 'Ex-'

Tese sobre o Ex-, que circulou nos anos 1970, mostra atualidade do jornal em relação aos veículos alternativos de agora
por Vitor Nuzzi publicado 22/05/2016 12h47, última modificação 24/05/2016 18h03
Tese sobre o Ex-, que circulou nos anos 1970, mostra atualidade do jornal em relação aos veículos alternativos de agora
Reprodução
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Nº 1: deboche, ousadia e grandes reportagens

“O Ex-17 vai ser um presente de grego: 60 páginas, 10 contos. (...) Nós sabemos que o bolso da cambada amiga dói com uma facada dessas, mas lembre-se de nós nesse Natal. (...) Venha de lá um pedacinho do seu 13º, prá gente botar na rua nosso 18º mais aliviados. E, se for possível, um Feliz Natal prá todos nós.” Não teve a edição 17 do Ex-. O número 16, que fazia o anúncio irônico, foi o último, publicado em novembro de 1975, com uma tiragem inicial de 50 mil exemplares esgotada e uma extra de 20 mil. O tema da capa era corajoso, ousado para aqueles dias em que o desaparecimento de pessoas era um fato comum: o assassinato de Vladimir Herzog, o Vlado, diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo. O editorial era o Hino da República, com seu refrão “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós”. Era a manchete da primeira página.

Na página 2, na seção de cartas, o intelectual francês Michel Foucault manifestava solidariedade a estudantes e professores da Universidade de São Paulo presos pela ditadura. “Uma universidade que não é plenamente livre não passa de uma empresa de servilidade. Não dá para lecionar sob o facão de botas, não dá para falar diante do muro das prisões; não dá para estudar quando as armas ameaçam. A liberdade de expressão e de pesquisa são sinais de garantia de liberdade dos povos”, escreveu Foucault, que suspendeu o curso que ministrava na USP.

Foi a última edição regular do Ex-, jornal que sobreviveu durante dois anos e se tornou marco da imprensa alternativa. Com ousadias como a de noticiar a morte trágica de Vlado, em reportagem de oito páginas, ou publicar trechos do futuro livro de Fernando Morais sobre Cuba (A Ilha), com Fidel Castro na capa e entrevista do jornalista a Hamilton Almeida Filho e Mylton Severiano da Silva, o Myltainho, em agosto de 1975.

A publicação foi tema de uma tese de doutorado em Ciências Sociais, da pesquisadora mineira Dalva Silveira, aprovada em 15 de abril na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Integrante da banca, o professor Laurindo Leal Filho ressaltou a atualidade do jornal, ainda mais em um tempo de momento turbulento da política brasileira (leia a coluna de Lalo Leal na página 5 desta edição). “O legado está no trabalho que muitos jornalistas ainda conseguem fazer neste país”, afirmou. “O Ex- manteve viva, a duras penas, essa ideia de jornalismo como instrumento de transformação da sociedade.”

Ele destacou que a tese era defendida “às vésperas de um golpe parlamentar que atropela todo o arcabouço institucional brasileiro”, em referência à sessão da Câmara que aprovou a continuidade do processo de impeachment, agora no Senado (leia mais nas páginas 10 a 14).

Pela redação do jornal passaram nomes como Sérgio de Souza,­ Hamilton de Almeida Filho, Narciso Kalili, Marcos Faerman, Mylton Severiano da Silva, Dacio Nitrini, Palmério
Dória. Alguns tocam suas pautas até hoje.

“Quero trabalhar aquilo que está escondido, que não pode ser esquecido”, diz Dalva Silveira, que se interessou pela trajetória do Ex- durante pesquisa para mestrado em Ciências Sociais sobre o cantor e compositor Geraldo Vandré, tema de seu livro A Vida não se Resume em Festivais.

Na edição 12, de meados de 1975, o Ex- trouxe uma reportagem sobre Vandré, baseada nas visitas do artista à redação, já que ele não aceitou dar entrevista. A primeira sobre ele depois de sua volta ao Brasil, em 1973. “Considero a matéria mais completa que eu encontrei”, conta Dalva. “Em sua análise, chamou minha atenção sobretudo o seu tom libertário e o fato de apresentar, naquele momento de censura, a denúncia da interferência da política ditatorial na carreira do compositor. O contato com o exemplar motivou a leitura de outras edições do jornal e a posterior investigação do periódico em seu conjunto.”

Ali começava a se esboçar a tese que ela defenderia perante a banca: “Como explicar o fato de um jornal que apresentou matérias sobre Vandré e Herzog ter sido considerado despolitizado pela esquerda ortodoxa?” E a hipótese a ser investigada: “No Brasil, a repressão pós-AI-5 tornou possível que jornalistas adeptos da contracultura e portanto apartidários – caso da ‘turma do Ex-’ – mesclassem em seus trabalhos a crítica comportamental à constante produção de matérias que faziam resistência ao governo ditatorial”.

A pesquisadora passou a investigar outros periódicos criados pelo que ela chama de “turma do Ex-”. Publicações como Realidade, Novidades Fotóptica, Revista de Fotografia, Bondinho, Grilo, Jornalivro, Foto-Choq, Repórter Três e, mais recentemente, Caros Amigos. “Importante ressaltar que o grupo também contou com a participação de jornalistas de outras publicações, como do Jornal da Tarde e da revista Veja. Através da análise dos expedientes dos exemplares do jornal Ex-, constatei que, apesar de existir um núcleo central de profissionais que atuaram em todas ou quase todas as edições do periódico, no curso de sua existência, o Ex- apresenta o total de 125 profissionais.”

Uma mistura de resistência política e crítica de costumes ­caracterizava a publicação. Imagens e textos debochados se juntavam a reportagens sobre a contaminação por mercúrio no Japão ou sobre dom Pedro Casaldáliga, “o primeiro bispo ameaçado de ser expulso do país”, em São Félix do Araguaia, com fotos e texto de Alex Solnik. Ou entrevistas com o escritor Eduardo Galeano e o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa, um texto de Gabriel García Márquez sobre o Chile de Salvador Allende e até uma fotonovela tendo operários paulistas como personagens (Indústria de Sonhos).

Ex
O número 16 foi o último, publicado em novembro de 1975, com capa corajosa sobre assassinato de Herzog. Desbunde com Kissinger, Pelé pelado, reportagem baseada em visitas de Vandré e furo sobre livor de Fernando Moraes em Cuba fizeram história

Asterix

Para Palmério Dória, há certa procedência na fama atribuída ao Ex-, onde ele trabalhou do primeiro ao último número. “A nossa turma passou a se associar mais com o chamado desbunde do que com aquela imprensa política, engajada”, observa. Mas ele considera importante dividir a história do jornal em diversas fases. “Houve o Ex- do Sérgio de Souza, era uma redação dispersa, as pessoas chegavam com suas pautas, os diretores de arte com suas histórias em quadrinhos. As matérias que predominavam na primeira fase vinham da revista Rolling Stone.”

Depois veio a fase da casa na Lapa, zona oeste de São Paulo, onde alguns dos jornalistas moravam em comunidade. “Nós nos considerávamos gauleses”, diz Palmério, lembrando de Asterix, personagem de quadrinhos cuja aldeia resistia ao Império Romano. Dali, na sala com um pneu e um piano, saíram entrevistas como a feita com Zé Celso. “Nossa vida era a pauta do jornal.”

Por fim, na Bela Vista, bairro na região central conhecido como Bixiga, se instalou o “melhor jornal da Rua Santo Antônio”, quando apareceu alguma “injeção de capital” com a entrada de Paulo Patarra, vindo da Editora Abril. “A gente se tornou um jornal mais ligado à realidade brasileira e mais político, sem perder o desbunde.”

Na maior parte do tempo, foram tempos de dureza. Na época da Lapa, só Palmério e Myltainho tinham emprego fixo. “Dinheiro não existia”, diz Palmério. Nem telefone. Todos andavam com fichas telefônicas no bolso, e o telefone da redação era um orelhão. O jornalista considera o Ex- um “fruto” da Realidade. “Não à toa, em 1978 foi criada na Editora Três a revista Repórter Três, que era uma tentativa de recriar a Realidade. É uma turma interligadíssima. Quase uma tessitura.”

Jocoso e picante

Além de suas 16 edições regulares, o Ex- lançou quatro extras, com reportagens especiais. Em 2010, o Instituto Vladimir Herzog e a Imprensa Oficial lançaram, em parceria, uma coleção com 19 edições em fac-símile. “Infelizmente, a morte de Vlado também custou a vida do Ex-. Naquele momento o jornalismo brasileiro também viu morrer aos poucos o seu lado jocoso e picante”, diz o instituto.

Outro examinador da tese, o professor Marco Antônio de Almeida, da USP, destacou a linguagem “mais diversificada” do Ex-, inclusive no aspecto estético, em contraponto a jornais alternativos mais “pesados” em conteúdo e forma. Também identifica ali tópicos que passariam a ser mais discutidos pela esquerda apenas nos anos 1980, relacionados ao comportamento, além de um “legado temático” – retrocesso político, direitos civis – com elementos em disputa ainda hoje.

“Nem sempre, a prática do jornalismo contracultural brasileiro se mostrou alienada do combate à política do regime militar”, diz Dalva. “Isso significa que, a despeito da crítica apresentada pela esquerda ortodoxa, devido à repressão imposta pela ditadura, foi possível que jornalistas desse tipo de imprensa e, portanto, apartidários, mesclassem matérias cujo foco era a revolução dos costumes com um número significativo de reportagens denunciativas desse governo, apresentando uma incisiva postura de resistência política.”

Palmério Dória observa que, naquela época, mais de 100 ­jornais alternativos atuavam no Brasil, no que hoje em alguma medida talvez possa ser comparado às redes sociais. “Havia colaboração entre eles. Cumpriam o papel da internet, de certa forma.” Do outro lado, acrescenta, “a imprensa dos donos da mídia continua fazendo o que fazia naquela época”. E foi preciso aparecer um jornalista de fora, no caso o norte-americano Glenn Greenwald, para “arrombar a festa”, diz Palmério. “Estourou o mocó da grande imprensa.”

O jornalista fala com satisfação da reportagem sobre Vlado e do papel histórico do Ex-. “Foi a melhor coisa... Tenho a impressão de que o jornal foi criado para isso. Nós éramos bois de piranha, testávamos limites”, afirma, lembrando de ter ouvido exatamente isso de Ricardo Kotscho, que pouco tempo depois, no Estadão, faria uma matéria sobre mordomias no setor público: “Vocês ampliaram os nossos limites. Ninguém faria se não fosse o Ex-. Éramos duríssimos e orgulhosíssimos”.

Todo o acervo do Ex- também pode ser visto no site www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br