Número 11, Abril 2007
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O catolicismo no Brasil

O catolicismo firma-se como o doador universal de fiéis às fileiras do pentecostalismo e dos sem-religião e inquieta as instâncias eclesiásticas
por Faustino Teixeira publicado 04/04/2013 12:21, última modificação 14/04/2009 18:47
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O catolicismo firma-se como o doador universal de fiéis às fileiras do pentecostalismo e dos sem-religião e inquieta as instâncias eclesiásticas

O catolicismo continua sendo a religião majoritária no Brasil. O número de brasileiros que se declaram católicos gira em torno de 125 milhões, três quartos da população brasileira. Em termos relativos, o declínio é moderado e constante se comparado aos censos anteriores, de 1940 (95,2%), 1950 (93,7%) e 1960 (93,1%). A partir dos anos 80, a porcentagem de católicos foi declinando cada vez mais: 89,2% em 1980, 83,3% em 1991 e 73,8% em 2000. Algumas projeções indicam que pode chegar a 65% no próximo censo do IBGE.

O crescimento do catolicismo no Brasil ocorre de forma mais lenta que o ritmo de ampliação da população do país. O catolicismo apresenta uma taxa média de crescimento anual em torno de 1,3%, enquanto a taxa da população total chega a 2%. O censo de 2000 revelou ainda o significativo crescimento do número de declarantes evangélicos (15,4%) e dos “sem religião” (7,3%).

Causa inquietação nas instâncias eclesiásticas o fato de o catolicismo firmar-se como o “doador universal” de fiéis às fileiras do pentecostalismo e dos sem-religião; bem como a situação crescente daqueles que mantêm sua crença desvinculada de qualquer instância religiosa tradicional: daqueles que crêem sem pertencer.

O atual revigoramento religioso no Brasil se dá em detrimento do catolicismo. Na avaliação dos antropólogos Ronaldo de Almeida e Paula Montero, “o catolicismo tornou-se o principal celeiro no qual outros credos arregimentam adeptos”. Daí a efetiva preocupação de segmentos do catolicismo oficial, que se lançam com vigor em projetos de recatolicização da sociedade. Vale registrar as campanhas de evangelização promovidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos últimos anos e, em particular, o projeto nacional de evangelização “Queremos ver Jesus”. A Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que ocorrerá em maio, visa enfatizar uma “ação missionária mais incisiva, organizada e constante”, no sentido da reconquista do “substrato católico” latino-americano.

Em sintonia com essa preocupação de “readesão” ao catolicismo, atuam novos movimentos eclesiais, como a Renovação Carismática Católica (RCC). São movimentos que agem numa linha distinta de outros núcleos eclesiais ativos nas décadas de 70 e 80, como as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais. A RCC foca sua vida religiosa na “esfera da intimidade”, no incremento a grupos de oração centrados na emotividade. Mas também organiza e promove eventos litúrgicos em massa, apresentando um catolicismo mais sedutor e atraente para a população. É visível o crescimento do número de católicos carismáticos no Brasil, ou das pessoas que estão envolvidas com atividades relacionadas ao movimento. Fala-se em 12,6% da população.
A estratégia evangelizadora carismática vem corroborada pelo crescimento das comunidades de Aliança e Vida, como Canção Nova, Shalom e Toca de Assis, e também pela intensificação de sua proposta evangelizadora nos meios de comunicação de massa, sobretudo rádio e TV. Trata-se da emergência de um “catolicismo midiático”, que traduz um novo estilo de atuação missionária.

O catolicismo no Brasil revela complexidade, diversidade e pluralidade. Mas verifica-se nas últimas décadas uma acentuada tendência de alinhamento da Igreja Católica com a dinâmica restauradora vigente na conjuntura eclesiástica mais ampla. A lógica da ação evangelizadora vem agora concentrada no anúncio explícito de Jesus Cristo e da Igreja. Não há lugar destacado, nesse contexto, para pastorais mais críticas ou para a experiência das CEBs, que enfatizam a centralidade do testemunho profético e transformador.


Faustino Teixeira é professor associado do programa de pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), consultor do Iser/Assessoria (RJ) e pesquisador do CNPq. Publicou, como organizador, Sociologia da Religião: Enfoques Teóricos (Vozes, 2003), Nas Teias da Delicadeza: Itinerários Místicos (Paulinas, 2006)

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