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Número 106,

Esporte

O America do Rio quer ser grande de novo

Um dos clubes de maior tradição do país e xodó de torcedores ilustres e apaixonados tenta recuperar seu espaço nobre na elite do futebol carioca e no bairro onde cresceu
por Maurício Thuswohl publicado 17/05/2015 10h41
Um dos clubes de maior tradição do país e xodó de torcedores ilustres e apaixonados tenta recuperar seu espaço nobre na elite do futebol carioca e no bairro onde cresceu
Sandro Vox/America Rio
Torcida do America

Sonho da torcida de ver o time campeão da segundona foi adiado por gol cruel do Americano no finzinho da semifinal

Eram 47 minutos do segundo tempo quando o meia Jessé, do Sampaio Corrêa, chutou à queima-roupa, de dentro da área, para aflição do público. Havia 726 pessoas no estádio Giulite Coutinho, em Édson Passos (Mesquita), Baixada Fluminense, na noite de 15 de abril. A fração de segundo que durou o “silêncio ensurdecedor” da torcida do America foi interrompida pelo barulho da bola no corpo do goleiro Felipe, defesa que garantiu o 0 x 0 e a classificação do time rubro para a semifinal do primeiro turno da Série B do estadual do Rio de Janeiro.

Dono da camisa que no passado já foi de Pompéia, País e Ado, o arrojado Felipe seria candidato a herói. Na semifinal contra o Americano, bastariam dois empates para ir à final. Mas depois de um 0 x 0 na primeira partida, o time de Campos levou a melhor ao fazer 3 x 2 aos 46 do segundo tempo do jogo decisivo. A luta do America (que não leva o acento porque o nome segue a grafia original na língua inglesa) pelo retorno à elite ficou para o segundo turno.

Fundado em 1904 e outrora considerado o quinto time grande do Rio de Janeiro, o America Football Club foi sete vezes campeão estadual (1913, 1916, 1922, 1928, 1931, 1935 e 1960), em uma época na qual os times cariocas, ao lado dos paulistas, figuravam entre os melhores do mundo. O time viveu uma prolongada decadência dentro e fora das quatro linhas. Esta culminou com a queda para a segundona carioca em 2011 e, no ano seguinte, a ameaça de perder na Justiça a bela e agora abandonada sede social do clube, localizada na Rua Campos Sales, na Tijuca, zona norte, região onde o America cresceu – após um breve início no bairro da Saúde – e sempre teve a maior parte de seus torcedores. Conhecida pelo grito de “Saaaangue!”, que por tantas vezes ecoou com força no Maracanã, a torcida americana passou a temer o pior ao ver a força vital do clube se esvaindo esportiva e financeiramente.

Mas uma série de fatores contribuiu para que em 2015 a esperança volte a correr nas artérias dos americanos. Com a posse no ano passado de uma nova diretoria, encabeçada pelo presidente Léo Almada, foi organizado um grupo de “torcedores ilustres”, no qual pontifica o ex-jogador e agora senador Romário (PSB), que sempre se confessou torcedor do America. Esse grupo ajudou a montar um time que mescla jovens promissores e jogadores que já atuaram por times grandes, tendo como meta o retorno à Série A do estadual.

Raffa Tamburini/America Rio america x sampaio correa
Time eliminou o Sampaio Correa no sufoco nas quartas, mas não conseguiu passar da semi no primeiro turno
Sandro Vox/America Rio America x Sampaio Correa
Equipe tentará repetir boa campanha no segundo turno da Série B
Raffa Tamburini/America Rio coração vermelho
Clube tenta emplacar programa de sócios-torcedores
Perdas

Fora de campo, foi anunciada uma parceria com a iniciativa privada para demolir as estruturas da sede social e construir uma nova e moderna sede no mesmo local. O espaço será dividido com um shopping. Um grupo de trabalho composto por representantes de todos os poderes do clube foi montado para tratar da parceria. Segundo a diretoria, 16 empresas já manifestaram interesse em assumir a reforma da sede e receber a concessão de exploração comercial de parte do espaço por 40 anos, período durante o qual um percentual do lucro do empreendimento deverá ser repassado ao America.

A ideia dos dirigentes é aproveitar essa receita para montar times competitivos e, dentro de alguns anos, voltar à elite do campeonato brasileiro, além de pagar a dívida do clube, que segundo Almada, estaria em torno de R$ 60 milhões, valor que pode ser considerado pequeno se comparado às dívidas dos quatro grandes clubes cariocas. “Poderemos equacionar nossas dívidas e o terreno continuará sendo do clube. Esse acordo de parceria é a única forma de salvar o America”, resume o presidente. A decisão sobre a empresa ou empresas que formarão a parceria será conhecida em julho, mas o fechamento do negócio é dado como certo.

Os torcedores americanos sabem que há um contexto histórico de perdas que faz com que a possível reconstrução da sede da Rua Campos Sales justifique emocionadas comemorações. Um dia, a sede histórica teve também um campo de futebol, casa do America na conquista de seus sete títulos estaduais. O estádio, que após ampliações chegou a ter capacidade para 25 mil pessoas e foi palco de jogos com casa cheia durante décadas, acabou demolido em 1961, quando o America, então o clube com mais sócios da região, decidiu ampliar suas dependências sociais. Com a venda de um dos maiores craques de sua história, o volante Amaro, para a Juventus da Itália, naquele mesmo ano, o America comprou o estádio
Wolney Braune, no bairro vizinho do Andaraí, com capacidade para 5 mil pessoas.

Em 1993, já atolado em problemas financeiros, o America vendeu o terreno do estádio do Andaraí, que hoje abriga um shopping. Desta vez, o golpe na torcida seria grande. Após sete anos sem casa para jogar, foi inaugurado em 2000 o estádio Giulite Coutinho. Com capacidade para 13 mil pessoas, o estádio, no entanto, jamais ficou lotado, certamente por estar localizado em outra cidade, a dezenas de quilômetros da região onde pulsa o coração da torcida americana. Essa distância e o terrível momento dentro de campo criaram um círculo vicioso que fez muito torcedor do America desistir de acompanhar o time de perto.

Público e glórias

Na atual temporada, o maior público a assistir a um jogo do America em seu estádio foi de mil pessoas, antes de o time chegar à semifinal. A direção do clube sonha com a volta da fiel e apaixonada torcida, e lançou em março o programa Coração Vermelho para atrair sócios-torcedores ao Giulite Coutinho. “Se contarmos os custos de confecção dos ingressos, ambulância, luz e quadro móvel, o prejuízo nos jogos com pouco público pode chegar a R$ 10 mil”, diz o vice-presidente de Administração, Ricardo Baptista. Com o objetivo de reconquistar a torcida, a diretoria decidiu investir em uma nova subestação para adequar a iluminação do estádio aos padrões exigidos pelas transmissões de tevê.

Quando o time estiver de volta à Série A do estadual e habilitado a disputar novamente a Copa do Brasil e a Série D do Brasileirão, o passo seguinte previsto pela diretoria é aumentar a visibilidade da marca America no mercado publicitário. Público existe: segundo uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2010, a torcida americana corresponde a 0,5% da população do Rio de Janeiro. Com os torcedores computados em outros estados, segundo o instituto de pesquisa, trata-se de um contingente de 200 mil pessoas. Em 1960, ano do último título estadual, com um time que tinha Amaro, Nilo e Quarentinha, a torcida americana correspondia a 6% da população do estado.

No esporte, assim como na política, lembrar o passado de glórias é sempre uma boa estratégia para aglutinar simpatizantes. Ciente disso, no dia 4 de abril o America fez festa antes da partida contra a Portuguesa, válida pelo estadual, para homenagear a família Antunes, dos irmãos jogadores Nando, Antunes (in memoriam) e Edu. Este último, considerado o maior craque da história americana, é também diretor executivo de Futebol do clube. Zico, o mais novo do clã, embora jamais tenha jogado pelo America, também foi homenageado, já que atualmente as categorias de base do clube treinam no CFZ, administrado pelo chamado Galinho de Quintino. Duas rodadas antes, o homenageado foi Cesar, artilheiro do Brasileirão de 1979, vestindo a camisa rubra.

O canto de cisne do America no cenário do futebol nacional aconteceu em 1986, quando o clube chegou em terceiro lugar no Brasileirão, eliminado na semifinal pelo São Paulo de Careca, Pita, Oscar e Bernardo – time que acabaria campeão. Antes, o America havia eliminado o Corinthians nas quartas-de-final. Naquele time se destacavam o meia Renato, o então novato Jorginho (lateral-direito da seleção tetracampeã em 1994) e o zagueiro Donato, que fez fama no La Coruña, da Espanha, e chegou a jogar na seleção daquele país.

No segundo jogo da semifinal contra o São Paulo, no Maracanã, um público de 85 mil pessoas empurrou o time rubro no insuficiente empate em 1 x 1, já que o time paulista havia vencido o primeiro confronto por 1 x 0. No ano seguinte, por questões meramente políticas, o America não foi incluído no recém-formado Clube dos Treze e, mesmo tendo sido o terceiro colocado no ano anterior, foi afastado da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Ali teve início a derrocada de um dos mais tradicionais clubes do país.

O atual time do America, dirigido pelo técnico Arturzinho, tem como destaques, além do goleiro Felipe, o meia Léo Rocha e o atacante Fábio Saci, e também os experientes Wagner Diniz (ex-Vasco e São Paulo), Somália (ex-São Caetano e Fluminense) e Jean (ex-Flamengo). A meta traçada pela diretoria do clube incluiu a realização de uma pré-temporada, algo que não acontecia há muito tempo, e de 15 amistosos, com 12 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. “O trabalho está fluindo e o time vem evoluindo. Precisamos agora confirmar isso com a volta à primeira divisão”, diz Arturzinho.

Sandro Vox/America Rio Em campo
O goleiro Felipe e Tia Ruth, patrimônio da torcida
Torcedores notáveis

Um time de torcedores notáveis na cultura e na política é também testemunho das glórias do America. O amor pela camisa rubra foi ou é compartilhado por gente como Heitor Villa-Lobos, Noel Rosa, Francisco Alves, Oscarito, Dona Ivone Lara, Tim Maia, Lamartine Babo, Virginia Lane, Afonso Arinos, Marcelo Cerqueira, Silvio Caldas, Ary Fontoura, Arnaldo Niskier e João Cabral de Melo Neto, entre outros.

No dia a dia da segunda divisão do campeonato estadual, são outros os heróis que não deixam cair por terra o pavilhão rubro. O símbolo maior é Ruth Rodrigues, de 90 anos, que se tornou célebre ao distribuir rosas para árbitros, jogadores e torcedores adversários. Tia Ruth, como é carinhosamente chamada pela torcida americana, acompanha até hoje os jogos do time e apoia entusiasticamente a proposta de reforma da sede da Rua Campos Sales. “Vamos voltar à primeira divisão e logo estaremos disputando o título carioca novamente. Agora eu tenho fé, a reforma da sede será a salvação do America”, afirma, repetindo, sem saber, o mesmo termo utilizado pelo presidente do clube.

Outro exemplo de abnegação e amor pelo clube vem de Célio de Souza Ferreira, de 63 anos, que organiza um blog que virou ponto de encontro virtual entre torcedores. Seu Célio, como é conhecido, virou ídolo da torcida americana depois que decidiu transmitir por conta própria jogos do time, munido de uma câmera, um microfone e um notebook conectado à internet, muitas vezes acompanhado de um amigo comentarista. “Se tiver uma dúzia de torcedores ouvindo minha transmissão, já estou satisfeito”, brinca. “O America é uma paixão muito grande. É paixão antiga.”