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Número 106,

história

Malcolm X. A voz rouca dos guetos

Para Malcolm X, sonho americano foi erguido sobre o pesadelo dos negros. Seu assassinato, há 50 anos, eliminou um ícone da resistência ao racismo e um projeto alternativo à “democracia” norte-americana
por Cida de Oliveira publicado 17/05/2015 18:54
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Para Malcolm X, sonho americano foi erguido sobre o pesadelo dos negros. Seu assassinato, há 50 anos, eliminou um ícone da resistência ao racismo e um projeto alternativo à “democracia” norte-americana
MICHAEL OCHS ARCHIVES/GETTY IMAGES
Malcolm X

Malcolm falava a língua dos operários, sem-teto, prostitutas, viciados, que saíam dos guetos e se transformavam em soldados

Em uma manhã fria de novembro de 1929, homens encapuzados da organização racista Ku Klux Klan jogaram gasolina e atearam fogo no sobrado da família Little, no subúrbio de Lansing, no estado norte-americano de Michigan. As lembranças das chamas consumindo a casa rapidamente e os gritos desesperados marcariam a memória do pequeno Malcolm, na época com 4 anos, conforme contaria em autobiografia, lançada em 1965. Dois anos depois, seu pai, Earl Little, um pastor batista que além de religião pregava a luta contra a discriminação racial, foi espancado até a morte e teve o corpo colocado numa linha de bonde, sendo esquartejado.

Episódios assim eram constantes entre a população negra dos Estados Unidos numa época em que não podia votar, frequentar escolas ou outros espaços públicos e muito menos havia lei para impedir linchamentos e enforcamentos de negros em árvores, como denunciou Billie Holiday (1915-1959) na canção Strange Fruit. E forjaram o caráter radical de Malcolm, amadurecido na prisão por assalto a mão armada. Com a internação psiquiátrica da mãe, após o assassinato do pai, ele foi separado dos irmãos e ingressou na criminalidade. No ginásio, quando disse querer ser advogado, ouviu do seu professor preferido que o Direito não era realidade para negros, e sim atividades braçais, como a marcenaria.

Seu ódio contra os brancos foi cristalizado com a doutrinação por seguidores de Elijah Muhammad, criador e líder de uma seita chamada Nação Islâmica (NOI, da sigla em inglês). Consistia de uma releitura muito particular do Islamismo, sob medida para fazer seguidores principalmente entre os presidiários negros. Pregava o ódio, até mesmo a violência se preciso fosse, aos brancos, considerados demônios, e fundamentava a ideia de Malcolm, que sonhava com uma pátria para os negros. “Tenho o direito de me defender, mesmo que, para isso, tenha de usar armas”, dizia.

Leitor voraz e autodidata, fez o ensino médio por conta própria nas celas. Estudou diversas áreas do conhecimento, inclusive retórica, e se revelou grande pregador, ouvido até pelos carcereiros. “Criou na prisão uma nova Nação do Islã. Em 1954, quando saiu em liberdade condicional, a NOI tinha 400 seguidores. Em 1965, quando foi assassinado, tinha atraído 400 mil”, diz o escritor Jeosafá Fernandez Gonçalves, autor do livro prestes a ser lançado O Jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria). “Em dez anos, transformou o grupo na maior força política negra engajada, maior que a liderada pelo pastor batista Martin Luther King. Falava a mesma língua dos operários, sem-teto, prostitutas, viciados, que saíam dos becos e guetos e se transformavam em ‘soldados’ da NOI”.

time life pictures/Getty Images Malcolm na cadeia
Na cadeia, Malcolm conheceu a NOI. Estudou e virou pregador. Foi acolhido e respeitado pelos grandes líderes de sua época
Contra a guerra

Para esse “exército”, Malcolm recrutou o boxeador Cassius Clay, que lutava também contra o racismo. Um dos melhores esportistas do século 20, ele se converteu, adotou o nome de Muhammad Ali e se recusou a lutar na Guerra do Vietnã: “Nenhum vietcongue me chamou de preto, por que eu lutaria contra ele?”. A amizade dos dois esfriou quando o líder rompeu com a NOI.

Lapidado pela leitura incessante, o ex-traficante e assaltante extrapolava os limites do fanatismo de Elijah, que não comportava mais em sua consciência. Passou a viajar pela África e Europa, sendo recebido por líderes e chefes de Estado, mas tratado como negro norte-americano – e não africano, como sonhou. Foi à Meca. Viu gente de todas as raças cultuando um mesmo Islã, ortodoxo, que nada tinha a ver com aquele pregado pela NOI. Estudiosos contam que o rompimento foi bilateral.

De um lado, o criador da Nação do Islã corroído pela inveja de sua cria, corrompido em seus valores e interlocutor secreto das estruturas racistas que dizia combater. De outro, uma liderança em consolidação, aberta e sensível, para quem a fé que o livrou da criminalidade era uma seita fanática que funcionava para 400 seguidores em pequenos cultos nas prisões e salões dos arredores da cidade. Com as posições passadas a limpo, deixou para trás o papel de boca nervosa da NOI contra os demônios em pele branca. “Quando comprova o envolvimento de Elijah com jovens da seita, com quem tinha filhos, Malcolm se desliga e passa a ser caçado dentro da própria NOI”, conta Gonçalves.

E fora da Nação do Islã também. Apoiador de todas as revoluções africanas, tivessem elas o caráter que fosse, se aproximou de lideranças como Gamal Abdel Nasser (1918-1970), que presidiu o Egito entre 1956 e 1970, a então República Árabe Unida. Nasser ofereceu um cargo no seu governo para proteger a vida em risco do amigo nos Estados Unidos. Outro foi Fidel Castro, que contou com seu apoio na Revolução Cubana, com quem esteve no famoso encontro num hotel do Harlem, em Nova York, durante uma visita do comandante à sede da Organização das Nações Unidas (ONU).

E até mesmo o pastor Martin Luther King, que comandava um rebanho de classe média e tinha a simpatia dos brancos devido à sua doutrina religiosa inspirada na não violência do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948). Passou então a ser visto como traidor da doutrina de Maomé, porque estaria frequentando cultos protestantes, e como comunista.

Socialismo

“É de Malcolm a célebre frase ‘não existe capitalismo sem o racismo’”, diz o historiador Vladimir Miguel Rodrigues, professor e autor do livro O X de Malcolm e a Questão Racial Norte-Americana (Editora Unesp). Na autobiografia, o líder não afirma essa suposta simpatia pelo socialismo. Porém, seu discurso dialoga com a esquerda ao criticar o capitalismo. “Chegou a afirmar que o homem branco americano não é um racista, mas o ambiente político, econômico e social americano, que acalenta uma psicologia racista no branco.”

Rodrigues acredita que, mesmo sem ter estudado a fundo o marxismo, Malcolm buscou na história, na sociologia e na economia a explicação para o racismo e para a situação de inferioridade do afro-americano, que vendia barato, quase de graça, sua força de trabalho para os brancos, detentores dos meios de produção.

O caráter atribuído a Malcolm de comunista, libertário, violento, pacifista, muçulmano radical negro, tocou mais que as multidões de oprimidos que paravam para ouvir suas pregações. Chegou mais tarde às periferias de outros países, às quebradas de São Paulo. “No princípio eram trevas/ Malcolm foi Lampião/ Lâmpada para os pés negros de 2010/ fãs de Mumia Abu-Jamal, Osama, Sadam/ Al-Qaeda, Talibã, Iraque, Vietnã/ Contra os boys/ Contra o GOE/ contra a Ku Klux Klan”, canta o rapper Mano Brown em Mente de Vilão. E inspira jovens negros que encontram no Islã, crescente nas periferias brasileiras, que não se identificam com a pregação das igrejas evangélicas neopentecostais. Como X, os jovens desamparados, vítimas da violência buscam resgate e a vida nova que creem começar com um novo nome, adotado durante a conversão. Como o X de Malcolm no lugar de Little, um protesto contra a identidade africana roubada ainda na África, pelos caçadores de escravos.

Bettmann Corbis/latinstock. Pregacao Malcolm X
No Harlem, em 1963, a plateia negra e pobre o acompanha: conteúdo libertário iria contagiar a periferia esquecida de vários países
Inimigos

Polêmico entre os negros por defender a força, era odiado pelos brancos e visto com desconfiança pelos muçulmanos negros por dividir espaço e poder com o líder Elijah. A lista de inimigos crescia à medida que enxergava a justiça acima da cor, da religião e do espaço. E que a luta por ela deveria ser travada onde nasceu e cresceu, por meio da articulação entre pobres e excluídos, fossem brancos ou pretos. “Ele caminhava para a organização de uma força política de base operária contra o liberalismo americano, transformando-se em alternativa política que assustava o Departamento de Estado americano e inspirou a criação dos Panteras Negras”, conta Jeosafá Gonçalves.

De orientação marxista, os Panteras eram um partido político criado na Califórnia, que articulava luta de classes com luta racial. Reivindicava indenização pelos anos de escravidão em que foi formada a riqueza da potência. Defendia a luta armada e por isso tornou-se ameaça à segurança interna no país. Perdeu expressão ao longo dos anos 1970 e 1980 devido a prisões e disputas internas.

Em plena Guerra Fria, os americanos consolidavam a opção pela eliminação de alternativas políticas. Articulou-se o assassinato do então presidente John F. Kennedy, em novembro de 1963. Liberal, de cujas doutrinas nasceram os golpes de Estado na América Latina, Kennedy tinha firmado compromisso com uma legislação para os negros e foi visto como fraco em relação a Cuba e por ter permitido a ascensão do movimento pelos direitos civis e dos Panteras. O serviço secreto norte-americano, segundo Vladimir Rodrigues, foi eliminando as lideranças negras, numa tendência de conservadorismo que chegaria ao ápice na década de 1980, com Ronald Reagan. Não havia espaço para ideias progressistas.

Para Gonçalves, a história mostra articulações entre Nação do Islã, CIA e Departamento de Estado norte-americano, que a mando de Elijah e com o amém das autoridades do governo assassinaram Malcom em fevereiro de 1965. Ele completaria 40 anos em maio. O negro que em 1954 deixava a prisão, esperança dos companheiros de cela, negros e pobres, afirmou que o sonho americano era construído sobre o pesadelo dos negros. A consciência social e política avançada caminhava para uma aliança com Martin Luther King. “Seria a base operária de Malcolm com a classe média de Luther King, sobretudo negra. Por isso King foi calado três anos depois. Estavam liquidadas as alternativas”, diz o autor.

As ideias de Little, no entanto, não desceram com ele à sepultura. Malcolm foi responsável direto pela aprovação da Lei dos Direitos Civis Estados Unidos, em julho de 1964. Proposta por Kennedy, pôs fim aos sistemas estaduais de segregação racial, que permitiam linchamentos de negros. Na esteira da lei vieram ações afirmativas, como as cotas em universidades, que já não existem mais enquanto competência federal.

Mas o debate persiste. Para os brancos, as cotas já duraram o suficiente para corrigir distorções e reduzir as desigualdades. Os negros, porém, ainda ganham menos. E como acontece no Brasil, são as maiores vítimas da atuação policial. Eric Garner, 43 anos, morto em julho do ano passado em Nova York, depois de receber uma “gravata” de um policial branco que acabou absolvido. E o jovem Michael Brown, 18 anos, assassinado em agosto passado, em Ferguson, Missouri, por um policial branco igualmente inocentado. A luta de Malcolm continua.

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