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Número 103, Janeiro 2015

Entrevista: Capilé

Quem mais critica financiamento público são os que mais recebem

Um dos líderes do Fora do Eixo, Pablo Capilé, fala sobre 'Os Novos Bárbaros', a disputa entre conservadores e progressistas no país, rebate críticas sobre o financiamento público as regras de conduta do coletivo
por Xandra Stefanel publicado 07/02/2015 09h49
Um dos líderes do Fora do Eixo, Pablo Capilé, fala sobre 'Os Novos Bárbaros', a disputa entre conservadores e progressistas no país, rebate críticas sobre o financiamento público as regras de conduta do coletivo
MÍDIA NINJA
Pablo Capilé

Pablo Capilé: “É um grande projeto coletivo em que muitas pessoas dão opinião”

O que você achou do livro Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo, do Rodrigo Savazoni?

Achei ótimo. É uma leitura a partir de uma visão de um cara muito bacana, que dialoga com a gente faz muito tempo. Várias pessoas escreveram teses sobre o que estamos fazendo, outros livros vão surgir. É uma narrativa contínua: várias visões que vão se somando para levar a uma leitura mais próxima sobre o que significa o processo como esse que a gente vive. É um processo que não tem muito precedente no mundo. Não é comum, nem simples de se decifrar.

Como o FdE se coloca nesta transição do primeiro para o segundo mandato da presidenta Dilma?

O Fora do Eixo apoiou a reeleição da Dilma e apoiou com a mesma autonomia que a gente sempre teve. Do mesmo jeito que a gente tem autonomia para apoiar, tem autonomia para cobrar, pressionar, dialogar. O Estado não é uma entidade, é uma rede a serviço do comum, e não precisa de convite para dialogar com o Estado, você tem de se convidar. Quando você decide tomar algumas decisões numa rede como a nossa, distribuída, com um monte de gente e que, em determinado momento, entendeu que a continuidade do governo Dilma é o que havia de melhor em disputa, com toda autonomia do mundo vai continuar criticando o que tem de criticar e elogiando o que acha que tem de elogiar. Dar força para o que está avançando continuar e forçar para não haver retrocesso.

Como analisa o aumento de manifestações da direita nos últimos tempos?

É um rebote a um levante de esquerda muito forte que aconteceu no Brasil nos últimos anos. É um processo, 40 milhões de pessoas saindo da zona de extrema pobreza começam a levantar muitas questões. E essas outras questões foram levantadas também, aí tem tanto um levante de direita quanto um de esquerda. Então, você continua em disputas contínuas, fortalecendo o campo em que acredita. Quanto mais esse campo se fortalece, mais consegue disputar princípios e valores dentro dos debates sobre o Estado, a sociedade civil e o povo brasileiro, e mais isso tem força, fôlego e vigor para enfrentar o levante do outro lado.
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“São ministérios em disputa, em um país em
disputa, com um Congresso em disputa”

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E a composição do ministério da Dilma?

É a mesma coisa. Tem ministros muito ruins, como Kátia Abreu (Agricultura), Gilberto Kassab (Cidades), Helder Barbalho (Pesca), o ministro do Esporte (George Hilton), mas ao mesmo tempo tem ótimos ministros, como o Patrus Ananias (Desenvolvimento Agrário), o Juca, principalmente – para nós, que somos do campo cultural, foi um golaço a indicação do Juca –, o Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), que é um grande cara também, o Ricardo Berzoini nas Comunicações, que muito provavelmente vai avançar também... São ministérios em disputa em um país em disputa, com um Congresso em disputa.

A democratização da comunicação se torna mais possível?

Eu espero que fique porque a presidenta falou no discurso dela de posse que iria trabalhar para isso, falou isso durante a campanha, o Berzoini falou isso, os movimentos estão falando isso, parte dos partidos que ajudaram no processo de reeleição da presidenta também estão falando isso, o partido da presidenta, que é o PT, também está falando isso... Então, é a expectativa de muita gente que este debate avance. Tudo leva a crer que a gente vai ter um ambiente mais favorável para debater esse tema.

Tenho certeza que na Cultura vai mudar muita coisa. Depois de quatro anos que foram muito ruins, tanto com a Ana de Holanda quanto com a Marta Suplicy, a chegada do Juca é um link “de volta para o futuro”, é um ministério que vai ter a capacidade para dialogar, um ministério da esquerda, da utopia, um ministério que vai dar conta de dialogar com campos diversos, com os indígenas, com o meio ambiente, com a comunicação, com a juventude, com o movimento de moradia, com todos os artistas e as diversas linguagens que os rodeiam. Acho que tem um time bacana que precisa dialogar, se conectar, precisa criar uma uma arquitetura de participação para que mais movimentos possam contribuir para que continue avançando.

As críticas externas que o FdE recebeu no que diz respeito ao financiamento e às regras de convivência interna promoveram alguma mudança no movimento?

Se você for pesquisar sobre as críticas, vai ver que tem um debate moralista pra caramba em torno de uma experiência de comunidade urbana que não existia no Brasil, em franco diálogo com todo mundo no centro da cidade, com um monte de intelectual, artista, produtor circulando e que estabelecia uma certa diferença do que parte dos críticos acreditava que deveria ser a sociedade brasileira, os princípios e valores que deveriam ser debatidos. Mas falar de “trabalho escravo e seita”? Quem tem o mínimo de inteligência olha para o conjunto da coisa e entende que é muito mais preconceito e julgamento moral equivocado do que algo que se possa traduzir como algo próximo da realidade.

A gente enfrenta crítica desde que começou. Na real, a discussão para nós é assim: se a gente não tivesse mudado o mapa da música brasileira, se não tivesse organizado a Mídia Ninja, se não tivesse casas coletivas numa rede no Brasil inteiro, se não tivesse apoiado a Dilma, se não tivesse apoiado o Haddad, se não tivesse uma moeda própria, se não nascesse gente dentro do movimento que a gente desenvolve, se a gente não fosse uma comunidade, nenhuma dessas críticas estariam acontecendo. A gente é uma plataforma que se movimenta. É um processo contínuo de aprendizado. Não é por um momento que as pessoas, depois do Roda Viva – que foi muito bom –, resolvem todos de uma vez ter uma opinião sobre nós, que a gente vai mudar.

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“O Estado brasileiro tinha de ter mais compromisso com investimento na ponta, em movimentos, redes, ONGs, iniciativas ligadas à disputa de um novo mundo possível. A mídia recebe recurso público para caramba. É hipócrita”

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A própria vivência do grupo como rede que vai mudando conforme as necessidades?

Claro, é óbvio! O tempo inteiro todo mundo dá opinião sobre o que você faz. Você acha que isso não influencia no processo de construção? É um grande projeto coletivo em que muitas pessoas dão opinião, e essas opiniões estão circulando entre todas as pessoas que fazem parte. Mas é orgânico, é o tempo inteiro essa reflexão. Não tem uma reunião anual em que a gente fala “vamos mudar nosso regimento”. As pessoas não trabalham sob algumas regras, voltam para suas casas e ganham um salário. É uma comunidade e ela está o tempo inteiro se debatendo e se construindo. As pessoas moram juntas, elas não se encontram e depois vão embora. Então, não é um processo de crítica, é a reflexão crítica que nós mesmos fazemos junto com a sociedade sobre o que estamos fazendo.

Essa história de verba pública também é a maior hipocrisia. O FdE É um movimento que faz muita coisa e na trajetória recebeu pouquíssimo recurso público. Se você pegar o custo-benefício das ações que a gente desenvolveu com os recursos públicos que recebeu, você entende claramente o que eu estou querendo dizer. É um movimento que precisa de muito pouco recurso público. Em 2014, por exemplo, a gente quase não teve recurso público para nada. Em 2015 vai ter menos ainda e em 2016, menos ainda. As pessoas, às vezes, se assustam com a capacidade que uma rede como essa tem de fazer muita coisa ao mesmo tempo e acha que isso deve estar sendo financiado por alguém. Não entendem que, você tendo pessoas que vivem naquela comunidade, que elas tendem a se dispor mais para que as coisas aconteçam do que quem vai embora para casa depois do expediente.

Vocês fazem campanha de financiamento colaborativo?

Sim. Tem fundos internacionais que são parceiros, tem campanha colaborativa, a gente organiza festivais... 95% do nosso recurso não é público. E eu não estou fazendo uma defesa contra o investimento de verba pública. Não! Tem de financiar. O financiamento público na cultura é pequeno. Mas a gente construiu uma plataforma que precisa de pouco dinheiro público para conseguir fazer o debate político. Muitas vezes, as pessoas criminalizam quem faz o debate político para receber o dinheiro público e isso é uma hipocrisia gigantesca. O Estado brasileiro tinha de ter mais compromisso com o investimento na ponta, de coletivos, de movimentos, redes, ONGs, inciativas ligadas à disputa de um novo mundo possível. A mídia brasileira recebe recurso público para caramba. Recebe milhões e milhões e são as primeiras a tentar levantar a desconfiança sobre como os movimentos e coletivos brasileiros são financiados. É uma ladainha, conversa fiada, hipócrita, porque os que mais criticam são aqueles que mais recebem.