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Número 100, Outubro 2014

CULTURA

O tupi nosso de cada dia

Livro conta a origem e o significado de palavras indígenas incorporadas ao português cotidiano
por Xandra Stefanel publicado 01/11/2014 13h18, última modificação 02/11/2014 14h33
Livro conta a origem e o significado de palavras indígenas incorporadas ao português cotidiano
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Por que você está na pindaíba? Pode ser porque está desempregado ou porque o salário é baixo. Mas os índios de língua tupi há séculos já podiam ficar na pindaíba, sem esses motivos. É que pindá, em tupi, significa anzol. Iba significa ruim. Então, pindaíba quer dizer “anzol ruim”. E, para os povos que viviam em grande parte da pesca, anzol ruim é o mesmo que não ter o que comer.

Pindaíba é um dos mais de 830 verbetes de Paca, Tatu, Cutia! – Glossário Ilustrado de Tupi (Editora Melhoramentos, 128 págs.), de autoria de Mouzar Benedito, com ilustrações de Ohi. O livro não é um dicionário, pois não tem nem formalidades nem estrutura para isso, mas traz verbetes que contam a origem e o significado de palavras de culturas indígenas incorporadas ao português cotidiano e histórias curiosas relacionadas a elas.

A obra apresenta informação histórica com humor. Por exemplo: jabá. Não o jabá com sentido de propina que alguns artistas pagavam (e ainda pagam) para tocar suas músicas nas rádios (mesmo porque o índio não conhecia esse tipo de jabá). Mas, originalmente, essa palavra não era sinônimo de carne seca. Jabá, em tupi, é “fuga, fugir, fugitivo”. Quando os índios escravizados pelos portugueses fugiam eles precisavam comer mas, como não podiam parar para caçar, levavam carne seca, que passou a ser chamada de jabá.

E o que, então, Jabaquara, nome de um bairro de São Paulo e um outro de Santos, tem a ver com isso? É que quara é um sufixo tupi que significa refúgio, entre outras coisas. Jabaquara significa “refúgio dos fugitivos”. É o mesmo que quilombo no idioma quimbundo. O Quilombo do Jabaquara, de Santos, era famoso e abrigou escravos fugitivos até a abolição da escravatura, em 1888.

Uma curiosidade da língua tupi é que os nomes que os seus falantes deram aos animais correspondem a alguma característica deles. Por exemplo, jacaré significa “o que olha de lado”. Você já viu uma cutia comendo uma espiga de milho? Ela pega a espiga com as patas dianteiras e fica em pé sobre as traseiras. Por isso ganhou o nome cutia, “a que come em pé”.

Paca significa esperta, ágil. Caçadores desse animal montavam armadilhas e tinham de ficar um tempão esperando escondidos até conseguirem capturá-la. Vem daí o verbo paquerar, hoje usado para uma atividade bem mais agradável e ecológica.

Entre as aves, tem o jacu, que quer dizer “desconfiado, cauteloso”, assim como muitos roceiros. E por falar em caipira, está aí outra palavra tupi. Tem quem a traduza por desconfiado ou tímido, mas seu significado literal é “morador do mato”.

Cidades, rios, montanhas...

ohi.jpgEm todos os estados brasileiros existem cidades com nomes de origem tupi, mesmo naqueles em que não se falava a língua. É que os bandeirantes falavam tupi e os jesuítas usavam esse idioma para se comunicar com os índios, daí o motivo de “criarem” uma língua a partir dos vários dialetos. Por isso, tanto bandeirantes como os religiosos usavam esta língua para nomear rios, povoados etc.

No estado de São Paulo, base dos bandeirantes, há uma profusão de nomes tupis nas cidades. Pindamonhangaba, por exemplo, é o “lugar onde os homens fazem anzóis”, quer dizer, fábrica de anzol. Outra de nome curioso é Itaquaquecetuba: quicé é um tipo de taquara tão cortante quanto uma faca, tuba é coletivo. Taquaquicetuba, que depois virou Itaquaquecetuba, é um lugar com muitas taquaras do tipo quicé. Bauru, contrariando o que muita gente pensa, não tem qualquer ligação com sanduíche, mas com “cesto de frutas”. Poá é “mão aberta”. Itu é “salto, cachoeira”. Ituverava é “cachoeira brilhante”.

Alguns nomes de cidades podem até carregar semelhanças com questões bíblicas, mas são, na verdade, tupi. É o caso de Jacobina, que não tem nada a ver com Jacó, filho de Isaac e Rebeca na Bíblia. O nome da cidade baiana vem de já cuã apina, que quer dizer “cascalho limpo ou jazida de cascalho”. Foi lá que os portugueses garimparam ouro pela primeira vez no Brasil, em 1718.

Os rios com nomes tupi também se espraiam. Paraguai, por exemplo, é “rio dos papagaios”, e Tocantins, “nariz de tucano”. Da mesma forma, o idioma nomeou muitas montanhas, como Mantiqueira, que é “chuva gotejante ou chuva contínua”. No Nordeste, tem a Chapada do Araripe, palavra que significa “sobre o mundo”.

De fato, há muitas palavras e expressões que parecem fazer parte da língua portuguesa: pereba, tapera, peteca, mingau, pamonha, guri, sapeca, carioca, maloca, pipoca, assim como os nomes de estádio como Morumbi, Itaquera, Pacaembu, Maracanã... Todas vêm do tupi.

 

Nheengatu e a língua geral paulista

Os jesuítas queriam catequizar os povos indígenas e perceberam que quase todos os povos da faixa litorânea falavam dialetos de uma mesma língua, mas não tinham escrita. Era algo exclusivamente oral. Resolveram então “unificar” esses dialetos e criar uma escrita para eles. Em São Paulo, chamaram de “língua geral paulista” e no norte, de nheengatu, que significa “língua boa ou falar bem”.

Em São Paulo e sua área de expansão, só se falava a “língua geral paulista”. Depois da guerra em que os exércitos de Portugal e Espanha se uniram para combater os Guarani, apoiados pelos jesuítas, o Marquês de Pombal resolveu expulsar os jesuítas do Brasil, e em 1758 determinou que só se falasse português por aqui. Mas demorou bastante para que o português fosse assimilado, e muitos dos brasileiros do (atual) Sudeste preservaram o modo de falar nheengatu.

No tupi não existe, por exemplo, a pronúncia do 'l' nem do “lh”, que acabam virando “r” na pronúncia caipira. Então, trabalho vira trabaio, por exemplo. Mulher é muié. E no tupi nheengatu não existe “r” no final dos verbos, o que foi mantido no “dialeto caipira”, por isso fala-se fazê, trabaiá, coçá, brincá...

Serviço

Paca, Tatu, Cutia! – Glossário ilustrado de Tupi

De Mouzar Benedito. Ilustrações de Ohi
Editora Melhoramentos, 128 páginas, R$ 49