Viagem
Roteiro da memória
Uma caminhada de cerca de quatro horas pode mostrar uma São Paulo que a intensidade de seu cotidiano esconde
Publicado em 14/01/2009
Ao andar pelas ruas da região central de São Paulo, não é difícil sucumbir ao seu ritmo frenético e deixar escapar sua riqueza histórica e cultural. Para ajudar a capturar esse olhar, o professor de Geografia da USP Francisco Capuano Scarlato elaborou um roteiro que vai do Masp, na Avenida Paulista, à Estação da Luz. Uma caminhada que revela a dinâmica de transformações e a riqueza arquitetônica que passam despercebidas no dia-a-dia paulistano.
Contraste de épocas na Paulista
A avenida Paulista sempre foi símbolo de nobreza desde sua criação, no século 19, com a economia do café e seus grandes casarões. Os poucos que ainda restam, a exemplo do museu Casa das Rosas, convivem com exemplos de contemporaneidade como os prédios do MASP (Museu de Arte de São Paulo) e da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
Rumo ao reduto italiano
Siga
para a rua São Carlos do Pinhal, rumo ao Morro dos Ingleses. Apesar de
a divisão administrativa contemporânea enquadrá-lo no bairro da Bela
Vista, a identidade o mantém ligado ao Bixiga, tradicional reduto de
italianos que começava na Praça da Bandeira e chegava até as encostas
desse morro. Ao subir as escadas da rua Fortaleza, você vislumbrará um
projeto de cidade semelhante ao da avenida Paulista, apesar de ainda
existirem lá antigos palacetes.
Já na rua dos Ingleses, desça
a escadaria que dará acesso à outra forma de ocupação urbana própria
dos imigrantes: são pequenas casas geminadas que aos poucos viraram
cortiços. Na rua Treze de Maio ainda existem duas emblemáticas
construções dos italianos. A Padaria Basilicata (foto), desde 1904 com
a mesma arquitetura, oferece aos imigrantes produtos com as
características de sua terra natal. E a Paróquia Nossa Senhora da
Achiropita, fruto da devoção dos italianos calabreses à santa. O Bixiga
é, ainda, reduto de muitos teatros e cantinas.
Pátio do Colégio
Do berço italiano, o Bixiga, para onde nasceu a cidade: o Pátio do Colégio . Desça a rua Santo Antônio até o Anhangabaú, e siga para o triângulo histórico formado pelas ruas XV de Novembro, São Bento e Direita. Antes de o poder econômico transferir-se para a Paulista, este era o coração financeiro de São Paulo. Repare na simbologia desse poder ainda presente na arquitetura: o Tribunal de Justiça, as bolsas de Valores e Mercadorias, o prédio do antigo Banespa, o tradicional Edifício Martinelli e também o Centro Cultural Banco do Brasil, uma proposta mais atual de revitalização do Centro.
Igreja de São Francisco
Não deixe de visitá-la, e à de São Bento onde, às 10h, nos domingos, acontece a missa com canto gregoriano, um show à parte.
Viaduto Santa Ifigênia
No Centro antigo destaque ainda para o Mosteiro da Luz e o Solar da Marquesa. Um pouco mais adiante e bastante preservados estão os viadutos do Chá e Santa Ifigênia (foto), que representam a expansão da cidade para o oeste, quando o triângulo central ficou pequeno demais para comportar o crescimento da época do café.
Teatro Municipal
O
edifício construído por Ramos de Azevedo em um terreno no Morro de Chá
é uma réplica menor da Ópera de Paris. Em 12 de setembro de 1911, o
Teatro Municipal foi inaugurado e ainda hoje abriga importantes
espetáculos de música e dança, e figura como exemplo de preservação ao
lado do antigo prédio da Light (companhia de energia), instalado sobre
o viaduto do Chá, transformado num shopping.
Estação da Luz
Pela avenida Cásper Líbero chega-se à Estação da Luz, signo do poder do capital inglês que controlava a economia cafeeira e hoje, também, sede do Museu da Língua Portuguesa.

A padaria Basilicata, desde 1904 com a mesma fachada externa
(Foto: Jailton Garcia)
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