Ponto de Vista
Para que todos trabalhem
O lema dos sindicatos europeus resgata valores que a onda neoliberal quis enterrar. Emprego é demanda social, não individual. Rever a jornada é promover solidariedade e qualidade de vida
Por: Emir Sader, da Agência Carta Maior
Publicado em 14/01/2009
A flexibilização laboral era
fenômeno típico dos países da periferia do capitalismo. Enquanto no
centro eles tinham pleno emprego, nós já éramos vítimas de várias
formas de superexploração do trabalho, entre elas a flexibilização:
trabalho sem contrato, sem carteira de trabalho e todos os outros
direitos. Na verdade, isso se chama trabalho precário.
A
substituição do mundo bipolar pela unipolaridade de hegemonia
estadunidense e a passagem do modelo de regulação e de bem-estar social
para o modelo neoliberal foram resultado e provocaram mudanças radicais
na relação de forças entre capital e trabalho, entre empresários e
trabalhadores.
Na Europa ocidental isso significou passar de 30 anos
de pleno emprego para taxas de desemprego altíssimas. Além disso, as
transformações no processo produtivo e nas relações internacionais
acentuaram a imigração de trabalhadores entre países da periferia e do
centro do capitalismo.
O projeto do governo francês pretendia,
supostamente, diminuir o desemprego, acentuando a precarização laboral.
O argumento tem sido o mesmo: barateando o custo da mão-de-obra,
haveria mais contratações. Sabemos, por experiência, que é falso. Por
aqui gerou mais dispensas de contratos formais e substituição por
contratos temporários, o que não afetou o nível de emprego, mas piorou
sua qualidade.
Na França, a novidade veio da tentativa de
extensão da situação passível de contratações de empregos precários até
os 27 anos. Significaria que trabalhadores poderiam ser contratados com
custos bem mais baixos e sem direitos elementares – como indenização
por dispensa, férias, 13º salário, previdência social,
licença-maternidade. Isso representaria uma porcentagem bem alta do
mercado de trabalho, pois há na Europa ocidental um contingente de
jovens que nunca trabalharam, vivendo de seguro-desemprego. Mas lá
também não há um contingente muito idoso nesse mercado, porque a
aposentadoria se dá com idades relativamente menores do que nas outras
regiões do mundo.
O movimento de resistência foi desatado a
partir do movimento estudantil, alastrando-se depois para jovens
trabalhadores, até chegar aos sindicatos, às centrais sindicais e aos
partidos de esquerda. Tornou-se um movimento suficientemente amplo para
vetar a possibilidade de o projeto ir adiante, apesar das declarações
iniciais do governo de que não aceitaria negociar.
Os argumentos
neoliberais vão na direção de alegar que a Europa ocidental teria menor
competitividade do que os EUA. Esse seria o caso de França, Itália,
Alemanha e de outros países, por apresentarem custos da mão-de-obra
mais altos que os EUA, onde a precarização é maior.
O argumento
é falso, porque é o dinamismo tecnológico e, principalmente, a
exploração de mão-de-obra em países da periferia do capitalismo – como
China, México, Indonésia, Paquistão, Índia, Brasil – que mantêm a
competitividade das empresas dos EUA. E, por outro lado, o barateamento
da mão-de-obra local pelo uso do trabalho dos imigrantes – tolerados,
mas sem direito algum – e pela extensão da jornada de trabalho, porque
os trabalhadores estadunidenses pegam novos empregos para recompor suas
enormes perdas salariais.
Como resultado, os EUA passaram a ter
a jornada de trabalho mais longa do mundo, superando o Japão. Enquanto
isso, a Europa ocidental equilibra muito mais desenvolvimento econômico
e social, com jornadas relativamente mais curtas, com mais direitos
garantidos que nos EUA.
O lema das centrais sindicais
européias sai fortalecido das manifestações que derrotaram o projeto de
precarização das relações de trabalho do governo Chirac: “Trabalhar
menos para que todos trabalhem”. O que significa retomar a bandeira da
diminuição da jornada de trabalho, abandonada pelos governos de
direita.
Emir Sader, articulista da agência Carta
Maior, é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj),
coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre
outros, de A vingança da História (Boitempo, 2004)
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