Mídia
Confusão na crise do mensalão
Apesar da intensa cobertura de todos os meios de comunicação, a maioria dos brasileiros considera-se mal informada sobre a crise política
Por: Bernardo Kucinski
Publicado em 14/01/2009
Empresas de comunicação ficam com 80% do que as agências de publicidade recebem para intermediar anúncios. A Abril, por exemplo, faturou R$ 11 mi. via Duda Mendonça (Foto: Gerardo Lazzari)
Boa arte da população acha mesmo que houve corrupção, mas não está claro como aconteceu. A confusão foi produzida pela própria mídia, ávida por denúncias e mais empenhada em incriminar do que em investigar. A começar pelo próprio nome – “mensalão” –, que se impôs pela repetição, como uma marca, e acabou virando seção fixa de jornal. Deputados passaram a ser chamados genericamente de “mensaleiros”. Ocorre que nunca foi provada uma relação entre pagamentos regulares e votações de deputados a favor do governo.
Jornalistas e oposição ignoraram até mesmo as questões do senso comum: 1) Por que pagar “mensalão” a sete deputados do PT que já votam com o governo? 2) Por que deputados foram ao Banco Rural apenas uma ou no máximo três vezes, se era um “mensalão”? 3) Por que o governo teve dificuldade em aprovar projetos se estava pagando “mensalão” para que fossem aprovadas? 4) Por que pagar “mensalão” a um deputado como Roberto Brant, do PFL, opositor ferrenho do governo?
O noticiário omitiu sistematicamente que as empresas de propaganda ficam com apenas 15% a 20% do dinheiro que recebem dos clientes para o pagamento das campanhas na mídia.
Quando a Veja noticiou que empresas de Duda Mendonça receberam R$ 700 milhões em cinco anos, nunca esclareceu que, de cada R$ 100 recebidos, cerca de R$ 80 ficam para o veículo onde foi feito o anúncio. A própria Veja e outros veículos da Abril, por exemplo, faturaram R$ 11 milhões em anúncios via Duda Mendonça.
CPI e mídia acusaram fundos de pensão de desvio de dinheiro para o “valerioduto”. Os fundos, que gerem centenas de bilhões de reais, contestam. “A imprensa preferiu fontes desqualificadas que alimentaram a desinformação”, diz o presidente do fundo Petros, Wagner Pinheiro.
1. A mídia foi pautada diariamente pela oposição: acusações verbalizadas pela oposição de tarde, viravam manchetes factuais no dia seguinte.
2. Acusações que deveriam ser ponto de partida para uma investigação jornalística eram publicadas sem checagem. Bastava usar termos como “suposto”, como observou Carlos Heitor Cony.
3. Os acusados não eram procurados para se defender e, quando eram, suas explicações eram tratadas com sarcasmo.
4. Surgiu um novo modo narrativo: basta ser indiciado para ser tratado como criminoso, mesmo que a acusação ainda esteja sujeita a ser rejeitada pela Justiça;
5. Nessa nova forma narrativa, escreveu o jornalista Carlos Brickman “qualquer medida judicial em favor de réus é chicana” e “qualquer absolvição é pizza, independente de prova”. Qualquer declaração do acusador é, em princípio, aceita como verdade...
6. Nessa nova narrativa predominou a malícia. Em vez de elucidar os fatos, contextualizando-os e hierarquizando-os, optou-se pela desinformação e a suspeição.
7. Todo o fogo era dirigido apenas contra o PT. A grande imprensa ignorou, por exemplo, as denúncias contra o banqueiro Daniel Dantas, do Banco Opportunity, à lista dos doadores de Furnas. Ignorou ou relegou a segundo plano que o “valerioduto” foi criado pelo PSDB para a campanha de 1998 de Eduardo Azeredo, em Minas Gerais.
Bernardo Kucinski é professor licenciado da ECA/USP, autor de vários livros sobre jornalismo e assessor da Presidência da República
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