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Número 4, Setembro 2006

O diário de Manuela

A história recontada na minissérie da Globo causa encanto e perplexidade. É que estamos desacostumados a ver os acontecimentos do Brasil contados por combatentes ousados e idealistas
por Flávio Aguiar publicado 04/04/2013 12:27, última modificação 05/01/2010 15:08
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A história recontada na minissérie da Globo causa encanto e perplexidade. É que estamos desacostumados a ver os acontecimentos do Brasil contados por combatentes ousados e idealistas

Garibaldi (Thiago Lacerda) e Anita (Giovanna Antonelli) (Foto: Divulgação/Rede Globo)

Apesar do título A Casa das Sete Mulheres, a maior parte das perguntas a mim dirigidas quando da primeira apresentação da minissérie da TV Globo dizia respeito aos homens e suas batalhas. O enredo se passa durante a Revolução Farroupilha (1835-1845). A maior e mais longa guerra civil brasileira começou durante o período regencial e terminou no Segundo Reinado, sob d. Pedro II.

Como sou gaúcho, e escrevi sobre a revolta, amigos e conhecidos vinham me perguntar: mas essa gente existiu mesmo? O general Netto era tão ousado assim? E Bento Gonçalves, tão nobre? Teixeira Nunes comandou mesmo brigadas de ex-escravos, do lado dos revoltosos? Giuseppe Garibaldi era assim, tão romântico?

Muitas perguntas se dirigiam também a respeito de Anita, que se uniu a Garibaldi quando os revoltosos tomaram Laguna, em Santa Catarina, em busca de um porto de mar, em 1839. Junto com o italiano ela foi para Montevidéu, e depois para a Europa, onde ambos lutaram pela unificação da Itália e onde ela morreu, em 1849, durante a fuga dos garibaldinos da Roma sitiada pelos franceses, austríacos e partidários do poder terreno do papa.

Vamos por partes. A Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, começou em 1835, quando tropas rebeldes, comandadas por Bento Gonçalves, tomaram Porto Alegre e depuseram o presidente da província. A luta foi se alastrando pelo estado inteiro, com episódios dramáticos. No ano seguinte, em 1836, o general Antonio de Sousa Netto proclamou a República Rio-Grandense, separando do Brasil o estado do Sul, mas guardou a possibilidade de reunir-se ao restante do país caso as demais províncias aderissem ao sistema republicano e constituíssem uma federação.

Bento Gonçalves foi preso naquele ano e enviado ao Rio de Janeiro. Conheceu Giuseppe Garibaldi, então exilado e perseguido político, condenado à morte na Itália por conspiração. Garibaldi aderiu à revolução e rumou para o Sul com outros italianos. Dois deles se notabilizaram: o conde Tito Lívio Zambeccari, que foi feito prisioneiro e voltou para a Itália depois de anistiado, e o galante Luigi Rossetti, que se tornou um dos principais escritores do diário oficial dos revoltosos, O Povo, e morreu em combate.

Como era costume nessas guerras, os revoltosos recrutaram escravos, a quem prometiam a liberdade. O coronel Teixeira Nunes comandou duas brigadas de Lanceiros Negros, como eram conhecidos, e elas tornaram-se o terror dos imperiais. Em 1839, os farroupilhas, comandados por Garibaldi e Davi Canabarro, transportaram dois barcos por terra, da Lagoa dos Patos até o mar, e com um deles (o outro naufragou) atacaram Laguna, onde o italiano conheceu a jovem Anita. Derrotados ao final do ano, os revoltosos retornaram ao Rio Grande do Sul, onde a luta continuava.

Depois de dez anos de batalha, o fôlego dos rebeldes esgotou-se. Os imperiais, comandados por Caxias, propuseram uma paz que foi considerada honrosa pela maioria. Durante o processo de negociação, o coronel Teixeira Nunes foi perseguido e morto. Netto partiu para o Uruguai, deixando para trás uma frase que fez fortuna: “Vou para o Uruguai. Lá é uma república. E o meu sombrero perdeu o costume de fazer barretadas para imperador”, ou algo assim.

Mariana Ximenes e Camila Morgado

Baseada em fatos reais

As perguntas a mim dirigidas mostravam certa perplexidade das pessoas ao tomarem conhecimento desses fatos e desses personagens. É que não estamos acostumados, na maior parte do Brasil, a ver nossa memória povoada por combatentes ousados, alguns deles verdadeiros idealistas. Nas escolas antigas ensinava-se um respeito quase religioso por figuras pátrias, sobre as quais decorávamos algumas coisas. Depois, nossa história passou por um descrédito generalizado, onde só se viam galhofas, traições e até palhaçadas, ou massacres vergonhosos, como o de Canudos. Assim, os acontecimentos narrados na minissérie da Globo, e com a glamorização inevitável dos personagens, surpreende a maior parte do Brasil, e provoca um certo encanto.

É uma adaptação, por Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, com direção de Jayme Monjardim e Marcos Scechtman, do romance homônimo de Letícia Wierzchowski. A novidade do livro e da adaptação é contar a história da guerra do ponto de vista das sete mulheres que moram na casa de Bento Gonçalves, em sua estância perto do Rio Camaquã. Entre essas mulheres, sobressaem Dona Caetana (escrevia-se Cayetana), a uruguaia que era esposa de Bento e a matriarca da casa, vivida por Eliana Giardini, e Manuela, sobrinha do general, interpretada por Camila Morgado. O romance é contado sob a forma de diário, escrito por Manuela. Na vida real, e na ficção, a jovem teve um envolvimento amoroso com Garibaldi, antes de ele ir para Santa Catarina e conhecer Anita. Mandada para a cidade de Pelotas, nunca se casou, e até a morte era conhecida como “a noiva de Garibaldi”.

A Revolução Farroupilha é hoje objeto de culto no Rio Grande do Sul, e foi e é também motivo de polêmicas por vezes veementes. Discute-se a respeito do papel dos escravos, se eles foram de fato incorporados aos revoltosos ou se eram só usados; sobre o caráter republicano da revolta; os motivos da guerra, se eram apenas econômicos ou se havia razões também políticas.

O certo é que os farroupilhas tinham muitas facções. Se os estancieiros, grandes proprietários de terra, conseguiram manter a hegemonia entre eles, apenas seus interesses econômicos – obter vantagens para a produção de charque – não seriam suficientes para explicar uma guerra que mobilizou, de ambos os lados, 20 mil combatentes durante dez anos e tornou-se a pedra fundamental da identidade cultural dos gaúchos.

Para ler mais
É indispensável que se leia O Continente, primeiro dos três romances de Erico Verissimo que compõem a trilogia O Tempo e o Vento (Companhia das Letras). Há também muitas biografias e romances disponíveis sobre o duo Giuseppe e Anita Garibaldi, inclusive as Memórias dele, trabalhadas por Alexandre Dumas (L&PM). Também há os romances de Tabajara Ruas, Netto Perde Sua Alma (Record) e Os Varões Assinalados (Mercado Aberto). O romance de Letícia Wierzchowski está publicado pela Record.

Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e editor da TV Carta Maior

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