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Entrevista com o professor da língua guarani Mario Ramão Villalva Filho

Por: Rádio Brasil Atual

Publicado em 02/09/2011, 18:53

Última atualização às 18:53

Marilú Cabañas: Os paraguaios falam duas línguas: o espanhol e o guarani. É o único país da América do Sul cuja população preserva a língua nativa. O guarani é falado por mais de noventa por cento dos habitantes. Brasileiros e argentinos por exemplo, não conseguiram ao longo do tempo manter viva a língua falada antes da colonização. Para falar sobre a importância do Guarani, como identidade cultural do povo paraguaio, o nosso diretor de jornalismo Oswaldo Luiz Colibri Vitta e eu, vamos conversar com Mario Ramão Villalva Filho do Núcleo Cultural Guarani  - Paraguay Teete, professor de Guarani da PUC de São Paulo. Bom dia Mario!

Colibri: Bom dia Mario, tudo bem? Aqui no estúdio com a gente o Mario, obrigado por ter vindo aqui conversar com a gente e essa série que a gente está fazendo, a Marilú e eu, nós estamos falando sobre o Paraguai, especificamente sobre a Guerra do Paraguai e o título é “Quem Tem Medo da Guerra do Paraguai”, Por que nasceu essa série? Nasceu em função dessa história desses arquivos secretos que o governo está discutindo agora, ultra-secretos. E existe pelo menos é o que se tem notícia, um arquivo a respeito da Guerra do Paraguai. Nós estamos desvendando um pouquinho a história da Guerra do Paraguai, ouvindo historiadores, jornalistas, cineastas, todo mundo que abordou esse assunto, tanto no Brasil como fora do Brasil. Então, esse é o tema que nós estamos discutindo, então a primeira pergunta é saber o que o senhor acha ,como professor, da abertura desses arquivos da Guerra do Paraguai, qual é a opinião do senhor e também se a abertura desses arquivos, vai contribuir com algum resgate dessa história do Paraguai ou uma aproximação com o Brasil em relação a essa história da Guerra do Paraguai, já que o Brasil deve muito ao Paraguai, pelo menos deve pedir desculpas, é o que a gente acha. Bom dia!

Marilú Cabañas: Primeiro “mba’éichapa”, não é? 

Colibri: “mba’éichapa” que é em Guarani,  alguma coisa como” bom dia”. Nós estamos falando a pronuncia errada, não é? A Marilú  está estudando. Como é?

Marilú Cabañas: “Mba’éichapa”.

Colibri: “Mba’éichapa”.

Mario Villalva Filho: Aí responde “ iporã “.

Marilú Cabañas: E depois como faz? “E você?”

Mario Villalva Filho: “Che avei”, que seria,” eu também”.

Marilú Cabañas: Ah... está certo. Então vamos lá.

Mario Villalva Filho: Eu acreditando... também estou acompanhando o trabalho de vocês, e até repetindo a história, as palavras de outros profissionais que vocês chamaram, acredito muito na importância de resgatar esta história, de levar à tona, mesmo que algumas pessoas, alguns pesquisadores falam que não, vai abrir feridas antigas, mas não... você tem que saber. Sabe aquele arquivo na Rússia depois que caiu o comunismo lá, na KGB foram abertos os arquivos, no Chile também, praticamente já abriram todos os arquivos, no Paraguai bem conhecido, aquele arquivo do terror também foi já aberto. Por que o Brasil vai segurar essas informações? O povo tem que saber, não é?

Colibri: Tanto na ditadura como também mais para trás da Guerra do Paraguai.

Mario Villalva Filho: Completo, tudo bem os mais novos sobre a segurança nacional, tudo bem, mas eu acho que não muda mais nada se saber sobre a ditadura, já acabou, já passou bastante tempo, sobre a Guerra do Paraguai também, os arquivos... acho que não muda nada, para a gente saber mais e até para evitar de se repetir as mesmas histórias em todo o continente o que aconteceu esses momentos ruins na nossa história.

Colibri: E o que o senhor acha, o Guarani sendo falado lá no Paraguai, ajuda muito na identidade nacional do Paraguai, não é verdade? Dessa preservação, e como é que aconteceu isso, também?

Mario Villalva Filho: Tem vária pesquisas, que inclusive essas pesquisas que o pessoal marca, dizem que tiveram três momentos fundamentais, talvez para a permanência da língua. Primeiramente, igual aos outros países. Os espanhóis casaram com as índias, e todo mundo falava Guarani por aqui no Brasil , na América do sul, falam o Guarani, São Paulo,  Rio também, e foram as mulheres que praticamente falavam Guarani com os filhos. Acho que dessa forma foi passando de filho para filho. Principalmente eu compreendo agora o papel da mulher, significou muito, de passar para seus filhos a língua porque... até hoje, o fundamental educador da criança talvez seja a mãe, nesse sentido.

Marilú Cabañas: E na época, eram os espanhóis os pais?

Mario Villalva Filho: Eram os espanhóis. E mesmo proibindo a língua nativa, a mulher fazia questão de falar e continuar falando, mesmo sendo proibido. A mulher falava, tanto que permaneceu a língua.

Colibri: E aqui no Brasil, não aconteceu esse fenômeno, que aconteceu lá.

Mario Villalva Filho: Eu acho que essa primeira parte também aconteceu no Brasil. Eu acho que o erro do Brasil, como já se sabe muita gente aqui no Brasil, foi o Marquês de Pombal, que determinou a extinção da língua e conseguiu. Proibiu. Acho que era inimigo dos jesuítas e conseguiu eliminar aqui no Brasil. E no Paraguai também teve muita gente que proibiu, era proibido, só que eu acho que há outra linha de pesquisadores que levantam, o porquê na permanência da língua Guarani no Paraguai seria às costas as guerras. Primeiramente, a independência que foi em 1811, os mestiços paraguaios se comunicavam em Guarani entre eles, tanto na escrita como na palavra e isso fez com que a conspiração naquela época não fosse reprimida, ou não percebesse que tinha uma conspiração. Porque eles se comunicavam em Guarani entre eles e os espanhóis ,donos do governo, do rei, não conseguiram captar, tanto assim foi a independência ... isso ...foi muito utilizada.

Colibri: Nesse momento da independência do Paraguai, o Guarani era falado.

Marilú Cabañas: Como estratégia.

Mario Villalva Filho: Estratégia mesmo. Depois o Guarani permaneceu na população, veio vários governos, veio a guerra como a gente chama no Paraguai, “Guerra Grande”, a Tríplice Aliança, o Guarani foi utilizado muito como estratégia. Tinham jornais em Guarani.

Colibri: Quando o senhor fala “estratégia”, é que para os outros, Argentina, Uruguai e os brasileiros, não iam entender os paraguaios falando, porque eles vão estar falando em Guarani e os outros países não iam entender. Como código até.

Mario Villalva Filho: Exatamente. E comunicação inclusive, da retaguarda com a frente. Tinha um jornal chamado “Cabichuí”, que significava abelinha. Então esse Cabichuí, a maioria  era escrita em Guarani mesmo, justamente para o soldado que estava na frente, era feito escrito e distribuídos entre os soldados. Tanto assim que existe este arquivo até hoje lá no Paraguai e aqui no Brasil deve ter também alguns números...

Colibri: Então no jornal de resistência escrito em Guarani, da língua da resistência.

Mario Villalva Filho: Exatamente, que a tropa era instruída, era culta. Apesar que a última entrevista que eu fiz, que se diz o último pesquisador, professor da UNB, falou que o Paraguai era um país inculto...

Colibri: Doratioto? Exato!

Mario Villalva Filho: Doratioto! Falou que era analfabeto...

Colibri: Eu lembro disso. Foi bem o senhor ter colocado isso que eu fiquei até... estava aqui com a Marilú no estúdio na hora que ele deu a entrevista, o professor Doratioto, historiador Doratioto, e ele falou que: “...veja só, eles eram analfabetos... só falavam Guarani!”

Marilú Cabañas: Como você recebeu essa informação quando você ouviu?

Colibri: Eu quase caí da cadeira! Se a posição dele... se ele acha que é analfabeto quem fala outra língua que não é a língua dos colonizadores, é muito estranho isso, mas enfim... Agora  o senhor pode responder.

Mario Villalva Filho: Hoje por exemplo, existem várias pesquisas internacionais, na Suíça, dizendo que, se uma criança criada com duas línguas ao mesmo tempo, ela consegue ter uma abertura melhor no seu cérebro, e começa aprender mais. Fica mais inteligente. Isso atualmente. Mas indo para os  fatos, está comprovado que existiu mais de um jornal, na época da guerra, um deles como eu falei, chamado “Cabichuí”; existem vários livros aqui no Brasil analisando esses desenhos, desenhos e escrituras... jornal mesmo, com desenhos e o texto normal. Existiu. Tanto assim... e eu pergunto para você, se tinham vários jornais e várias edições, distribuídos entre as frentes, entre  os soldados paraguaios, se eles eram analfabetos, como iam ler os jornais? Quer dizer, quem escreveu o jornal era alfabetizado e quem  leu também, porque...

Marilú Cabañas: É uma visão preconceituosa, então?

Mario Villalva Filho: Para nós sim. Acreditamos que é um olhar preconceituoso.

Marilú Cabañas: Estamos conversando com o professor Mario Ramão Villalva Filho do Núcleo Cultural Guarani - Paraguay Teete, ele que ensina Guarani na PUC de São Paulo. Professor, quando os jesuítas chegaram no Paraguai, eles tiveram que se adaptar ao Guarani, não é?

Mario Villalva Filho: Os jesuítas  submeteram aos guaranis, aos índios, na sua religião, na sua cultura, mas...

Colibri: Na religião católica?

Mario Villalva Filho: Na religião católica, daquela época. Mas para que os jesuítas possam se submeter aos índios, eles se submeteram primeiro à língua dos índios. Quer dizer os índios foram dominados no espírito, no corpo, sei lá... mas na língua não. Na língua eles mantiveram e implantaram sua própria língua.

Marilú Cabañas: Os jesuítas tiveram que aprender.

Mario Villalva Filho: Aprenderam e tanto assim que em 1615, não tenho a data específica, já tinha o primeiro dicionário espanhol em Guarani, naquela época. Muito antes do português, muito antes do espanhol etc e tal. Quer dizer, já tinham muitos estudos.

Colibri: Então é um fenômeno que só de fato aconteceu lá no Paraguai, aqui no Brasil isso não aconteceu porque, eles dominaram os jesuítas e os portugueses também, dominaram, impuseram a religião católica aos índios brasileiros e também deixaram de lado a língua deles, que ensinaram o português aos índios brasileiros, quer dizer, deixaram de lado de todas as formas as línguas indígenas, todas, são várias.

Mario Villalva Filho: Eu acho, não sei, não sou especialista na área da cultura indígena no Brasil especificamente, mas pelo o que estou acompanhando, até trabalhando com o professor Navarro, que é meu mentor na USP; até 1800, 1700, o uso do Tupi-Guarani ainda era normal, tanto assim que tinha alguns documentos até em Tupi-Guarani aqui no Brasil, principalmente em São Paulo também. Agora, tudo começou a desaparecer, diminuir, quando veio o Marquês de Pombal e determinou a extinção da língua. E conseguiu.

Colibri: Quantas pessoas falam Guarani hoje no Paraguai, e fora do Paraguai?

Mario Villalva Filho: Segundo pesquisas, porque são vários países, a língua Guarani vem desde o sul da Bolívia, passando por Paraguai, o norte da Argentina, o lado oeste do Brasil, Mato Grosso, não é. Tem também um pouco no Uruguai, o Guarani também de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo. Tupi-Guarani e suas diferenças, dialetos, têm pesquisa que marcam acho que dez milhões até quinze milhões.

Colibri: De dez a quinze milhões.

Marilú Cabañas: A maioria está no Paraguai?

Mario Villalva Filho: A maioria está no Paraguai. Lá a população, noventa por cento ou mais, falam o Guarani. E tem lugares que não falam espanhol ainda. Eles falam ainda só o Guarani.

Colibri: Isso é mais incrível ainda.

Marilú Cabañas: Os mais antigos?

Mario Villalva Filho: Os mais antigos e também no interior mesmo que o pessoal resiste ainda na língua dominante do espanhol.

Marilú Cabañas: Aprende na escola o espanhol.

Mario Villalva Filho: É... é o meu caso por exemplo.

Marilú Cabañas: Conta um pouco a sua história.

Mario Villalva Filho: Eu nasci em Mato Grosso do Sul, Brasil, e minha mãe é paraguaia, meu pai também e fui criado com a minha mãe em Assunção e minha mãe só falava em Guarani.

Marilú Cabañas: Curso intensivo!

Mario Villalva Filho: Só em Guarani. Então minha língua materna foi o Guarani. Quando cheguei no Paraguai, fui obrigado a aprender o espanhol  quando fui para a escola.

Marilú Cabañas: Com quantos anos?

Mario Villalva Filho: Com sete anos.

Marilú Cabañas: Não sabia nada. Imagina o choque também!

Mario Villalva Filho: Foi um choque, foi um choque tremendo. Tanto assim que me senti...

Colibri: Mas você nasceu no Brasil?

Mario Villalva Filho: Eu nasci no Brasil.

Marilú Cabañas: Mas foi criado...

Colibri: Nasceu de um  lado do Brasil que era paraguaio, na verdade.

Mario Villalva Filho: É Corumbá... que era fronteira com a Bolívia na verdade!

Marilú Cabañas: A terra já era paraguaia, não é?

Mario Villalva Filho: Dizem! Não vou entrar em detalhes!

Marilú Cabañas: Perfeito. Estamos aqui conversando com  Mario Ramão Villalva Filho do Núcleo Cultural Guarani - Paraguay Teete. Professor de Guarani da PUC de São Paulo. Daqui a pouco a gente volta com a segunda parte da entrevista.

Marilú Cabañas: Voltamos a conversar com Mario Ramão Villalva Filho do Núcleo Cultural Guarani - Paraguay Teete, ele que é professor de Guarani da PUC de São Paulo, e ele estava falando a respeito da entrada dele na escola, com sete anos de idade e de repente só falava Guarani, e lá na escola, na sala de aula todo mundo só falava espanhol, os professores, não é? Foi um choque para você, e eu queria saber como é que você se virou ai nessa situação, deve ter sido uma confusão interna, bem grande, não é professor?

Mario Villalva Filho: Foi uma confusão. E com certeza não fui o único também, porque na época ainda era proibido. Tudo. Como eu te falei, minha mãe falava só Guarani, sou nativo da língua e eu entendia o espanhol, porque na mídia, na televisão, só espanhol. Então o Guarani era só escondido naquela época, e fui obrigado a falar o espanhol na escola e pude sentir o preconceito de falar uma língua indígena. O preconceito era muito forte na época, além de ser proibido mesmo, também, e tanto assim que eu reneguei a própria língua. Reneguei mesmo... não quero falar esta língua, não quero ser índio, não quero falar esta língua...

Colibri: Influenciado pela...

Marilú Cabañas: Pelos amiguinhos?

Mario Villalva Filho: Pelos amiguinhos, pela escola, pela mídia...

Colibri: Você estava em Assunção...

Mario Villalva Filho: Estava em Assunção.

Marilú Cabañas: Mas eles rejeitavam? O que as crianças faziam?

Mario Villalva Filho: Nós éramos rejeitados, tiravam sarro, faziam piadinhas...

Marilú Cabañas: “Bullying”?

Mario Villalva Filho: É. E durante toda a minha adolescência, inclusive no colegial, tinha um amigo... tenho um amigo ainda, chamado Gerardo... um minuto para ele, ele também tinha o mesmo problema que eu, também. Em casa falava em Guarani e eu falava Guarani em casa... só que nós falávamos espanhol porque queríamos ser cultos, queríamos ser civilizados. Hoje em dia eu odeio esta palavra!

Colibri: E quando que mudou oficialmente no Paraguai essa coisa?  No ponto de vista legal?  O Guarani foi implementado? Coisa recente...

Mario Villalva Filho: Em 1992 foi declarado língua oficial junto com o espanhol. Oficialmente, no final do ano passado, comecinho deste ano, foi aprovado uma lei de línguas que põe a língua Guarani junto, no mesmo patamar do espanhol.

Colibri: Tem uma TV só em Guarani?

Mario Villalva Filho: Só de Guarani, não. Mas tem vários programas. Na internet tem bastante.

Colibri: Rádio?

Colibri: Rádio, tem em Guarani?

Mario Villalva Filho: Rádio tem. Acredito que seja uma luta diária inclusive pelo Guarani, porque ele foi muito caracterizado como uma cultura oral, uma língua oral. Mas hoje em dia, obviamente, já tem várias literaturas, o próprio curso, doutorado em Guarani, são vários livros escritos em Guarani, poesias, músicas, filmes. Hoje em dia existe bastante material. Mas a luta continua, tanto assim, essa mesma semana a gente está no meio de uma luta agora, porque o Ministro de Educação quer tirar o ensino do Guarani do colegial, por exemplo.

Colibri: Lá no Paraguai?

Mario Villalva Filho: Lá no Paraguai. Então é uma nova luta, não é?

Colibri: Mais uma batalha para resistir!

Mario Villalva Filho: Depois de duzentos anos ainda tem que brigar... ainda pela existência.

Colibri: E o senhor também como professor, está brigando aqui para difundir o Guarani nas universidades, ter cursos gratuitos que é o sonho, que por enquanto ainda não está sendo realizado por dificuldades. Conta um pouquinho desse curso que o senhor dá de Guarani. É de extensão? Como é?

Mario Villalva Filho: É curso de extensão de um semestre. Começamos na USP, o curso é gratuito, por ser uma universidade pública. Hoje em dia tem um pequeno preço também. Agora também conseguimos colocar na PUC, as duas maiores universidades do país, aqui não é?

Marilú Cabañas: Começa quando esse da PUC?

Mario Villalva Filho: Da PUC começa agora em setembro. Pela característica do curso que é direcionado para pós-graduação e graduação, e  interessados em geral, mas um nível para todo mundo, um nível mais para conversação, cultura, basta ter o segundo grau.

Marilú Cabañas: E Mario, quando é que você começou a se orgulhar do Guarani.

Mario Villalva Filho: Neste sentido, eu acho que preciso agradecer aos brasileiros daqui. Com certeza. Porque na primeira entrevista para emprego que eu fiz aqui em São Paulo, em 1987, 1988, no meu primeiro emprego, fiz uma entrevista com um cara assim, na área de escriturário, coisa simples, não era nada com cultura. E estava ali o meu currículo de uma “pagininha” , jovenzinho, não tem nada para mostrar e... idiomas que fala? Espanhol ou português? Ai vinha origem: Paraguai. Ai o cara me falou: você vem do Paraguai? Venho. Você fala espanhol? Falo. E o Guarani? Falo. E por que você não colocou aqui? Eu fiquei mudo! Fiquei sem resposta! Mas por quê? Porque o Guarani é importante! Põe ai! A partir daí, comecei a pensar! E quando comecei a estudar na USP, obviamente o mundo acadêmico valoriza muito a língua nativa, o Guarani.

Marilú Cabañas: O que você estudou lá na USP?

Mario Villalva Filho: Fiz mestrado em Integração Latino-Americana, e em várias unidades, que é um curso inteiro de unidades; de comunicação até a parte de ciências sociais. A minha área é comunicação, principalmente rádio e TV.

Colibri: Você é radialista, jornalista.

Mario Villalva Filho: Exatamente.

Colibri: E as palavras em português que preservam essa língua nativa do Guarani, tem muitas palavras. “Perdizes”...

Marilú Cabañas: “Cayowaá”

Colibri: Rua Cayowaá... enfim, todas as palavras, cidades do interior e tudo mais, não é?

Mario Villalva Filho: Até no “Facebook”, estava olhando no “Facebook” e estava lá: “cutucar”, “cutucar” é Guarani, “cutuco”  vem da palavra Guarani... que é cutucar é... cutucar, é Guarani. O nosso “nhe, nhé, nhé” por exemplo, quando conversa muito, vem do “ñe'ê”, que seria a palavra ou frase em Guarani também.

Marilú Cabañas: Que significa?

Mario Villalva Filho: “Falar”, está falando muito... conversar muito.

Colibri: Estamos “cutucando”, fazendo “nhe, nhe, nhé”, nós estamos falando Guarani!

Mario Villalva Filho: Exatamente! E tem também “um chará”, que no português é a pessoa que tem o mesmo nome.  Mas também o “chara” vem do amigo, de companheiro, que no Paraguai seria,  “chera'a “, seria meu parceiro. Minha didática seria dos livros que vêm do Paraguai em espanhol, mas estou começando a criar uma nova pedagogia porque o português tem muitas palavras em Guarani e o som do português é muito mais parecido com o Guarani, que o espanhol com o Guarani. Quer dizer, vamos supor, se um chileno vai estudar o Guarani, ele vai ter muito mais dificuldade do que o brasileiro.

Marilú Cabañas: Esse “hã” que a gente tem, o “a” é mais aberto no espanhol, é isso? 

Mario Villalva Filho: O português tem acho que dezessete sons de vogais, o Guarani tem doze, o espanhol tem cinco, o português tem dezessete, o Guarani tem doze, então o cara que fala português tem muito mais facilidade por causa que...

Marilú Cabañas: Por causa das vogais.

Colibri: E as palavras estão ai. Eu lembrei outro dia que aquela história de “Cumbica”, que é uma palavra Guarani também, foi feito um aeroporto em um lugar chamado “Cumbica”, aqui em São Paulo, que é negócio de neblina... quer dizer, vão... é uma coisa esquisita. Você sabe o que significa “Cumbica” em Guarani? É nevoeiro? Como é a tradução?

Mario Villalva Filho: É nuvem baixa, a tradução.

Colibri: Nuvem baixa! O cara faz o aeroporto onde tem... chama-se “nuvem baixa”. É demais!

Marilú Cabañas:  Estamos conversando aqui com Mario Ramão Villalva Filho, do Núcleo Cultural Guarani - Paraguay Teete, professor de Guarani da PUC de São Paulo. Mário, os paraguaios misturam as duas línguas, o espanhol e o Guarani?

Mario Villalva Filho: Na verdade se tem lá, que a gente chama de “jopara“,  que seria uma mistura. Geralmente eles misturam as palavras que começam com o espanhol e terminam com o Guarani, ou começam com o Guarani e terminam com o espanhol. E existe essas dificuldades lá no Paraguai.

Marilú Cabañas: Como é chamado isso?

Mario Villalva Filho: “jopara”

Marilú Cabañas: Que é a mistura das duas.

Mario Villalva Filho: Que é a mistura das duas línguas. E tem uma outra coisa que é o “jehe'a”, que seria na mesma palavra, uma palavra só, existem o Guarani e o espanhol juntos. Por exemplo, pega uma palavra em espanhol e conjuga como se fosse em Guarani.

Marilú Cabañas: Por exemplo?

Mario Villalva Filho: “Atopa”, por exemplo, “che atopa”, “a-topa” em Guarani é encontrar, e “che atopa”. O “topar” que significa no espanhol; “a” que vem do Guarani, que seria “eu faço alguma coisa”, então; “eu encontrei”, seria a palavra “topar”. Porque “topar” seria no espanhol normal. Deveria falar, “ che a jihu”, seria o Guarani mais correto, não é?

Marilú Cabañas: E qual momento usa o espanhol, e em qual momento usa o Guarani?

Mario Villalva Filho: Só repetindo, já que outros poetas já falaram, o Guarani, ele é muito mais emocionante, é muito mais emotivo. Eu até uma vez escrevi um artigo colocando, que o Paraguaio  tem o Guarani na alma, no coração; e o espanhol na cabeça. Na hora que  for falar academicamente, se fala espanhol porque as palavras ficam mais difíceis, a ciência. Mas quando se for falar do seu sentimento, da paixão, do amor, o Guarani facilita mais.

Colibri: Você vai falar para sua namorada, para sua mulher...

Marilú Cabañas: “Eu te amo”, como é “eu te amo”?

Mario Villalva Filho: “Rohayhu“.

Colibri: Quando você vai xingar também... em Guarani?

Mario Villalva Filho: Exatamente.

Marilú Cabañas: Opa! Esse, o pessoal aprende primeiro, não é? 

Colibri: É linguagem afetiva também, emocional. Xingar ou...

Marilú Cabañas: É forte emoção...

Mario Villalva Filho: Dentro da minha matéria, da minha pedagogia, deixo uma meia hora, falo...  Turma!  Menor de dezoito, por favor...  vai tomar um café porque eu vou conversar com o pessoal mais velhinho. Eu fiz isso na USP e o pessoal adorou! Foi a aula mais interessante, nunca vi a turma tão interessada...

Marilú Cabañas: E aprende rápido!

Mario Villalva Filho: É só falar uma vez, que já pegou!

Colibri: Palavrão eu sei em várias línguas. Até em chinês eu aprendi. Bom eu queria que o senhor falasse também professor, desse Núcleo Cultural Guarani - Paraguay, que forma que vocês estão fazendo para melhorar essa relação Brasil- Paraguai, até essa história da nossa série aqui “Quem tem Medo da Guerra do Paraguai”, de certa forma está tentando reativar esse relacionamento Brasil-Paraguai, não é?

Mario Villalva Filho: É estamos trabalhando, eu e a jornalista Nancy Areco, estamos trabalhando e começamos a nos reunir em 2009, a partir dai que a gente fundou essa associação...

Colibri: É, ”Núcleo Cultural Guarani – Paraguay Teete”.

Marilú Cabañas: Teete, a gente já aprendeu com a Nancy, que é verdadeiro. Você queria dar um curso também gratuito de Guarani?

Mario Villalva Filho: A minha idéia é socializar mais o curso. Na USP por exemplo, abriu o curso gratuito mas a gente precisa pelo menos um apoio econômico, um patrocinador, para a gente estar fazendo uma...

Colibri: E o Paraguai? Está ajudando nisso?

Mario Villalva Filho: Financeiramente não temos ajuda. Nenhum tipo de ajuda, estamos buscando...

Colibri: Vocês mesmos é que patrocinam.

Mario Villalva Filho: Nós patrocinamos do nosso bolso, tanto  passagem de ida e volta, material, distribuição, em condição de tudo que é possível. Mas agora estamos procurando realmente algumas empresas que queira patrocinar o nosso projeto e para a gente poder trabalhar tranquilamente  e levar para todo mundo a língua Guarani, a cultura, todo o material que nós temos; de falar bem de um país como o Paraguai, que tem muita coisa bonita para apresentar também.

Colibri: E o presidente Lugo? Está ajudando nisso ou não?

Mario Villalva Filho: Ainda não! Ainda não! Temos solicitado através do consulado, mas respostas mesmo não temos...

Marilú Cabañas: Mas não tem nem embaixador do Paraguai no Brasil.

Mario Villalva Filho: Não.

Colibri: Isso é... o presidente está até com dificuldades de estreitar relações...

Mario Villalva Filho: É... ele não tem a maioria. É a minoria no congresso.

Marilú Cabañas: Ele não consegue emplacar um nome para ser o embaixador aqui. O pessoal veta. O congresso veta.

Colibri: Ele indica e, embora ele esteja no executivo, legislativo, judiciário, emperram as resoluções que ele imagina ou determina, é isso.

Mario Villalva Filho: Acredito que a democracia no Paraguai, ainda é muito novo, muito frágil ainda; passou muito tempo sobre a escuridão da ditadura então a luz está bem no fundo ainda. Está começando a aparecer agora.

Colibri: Vocês estão fazendo esse trabalho de relações internacionais entre o Paraguai e o Brasil com o núcleo de vocês. Quem devia fazer isso é a embaixada, ou não?

Mario Villalva Filho: Deveria ver se tira  algum tipo de apoio oficial, por parte da embaixada.

Colibri: Quantos paraguaios tem lá, em São Paulo, mais ou menos?

Mario Villalva Filho: Segundo a pesquisa que eu peguei da última vez, tem em torno de sessenta mil mais ou menos, aqui em São Paulo.

Colibri: Só em São Paulo?

Mario Villalva Filho: Só em São Paulo.

Colibri: Quero agradecer o professor Mario pela gentileza de ter estado aqui com a gente. Estamos ai na batalha para conversar com o presidente Lugo, estamos ai marcando uma data, não é Marilú? Já está encaminhado? Como está a história? Vamos falar para os ouvintes.

Marilú Cabañas: Está encaminhado, vamos aguardar!

Colibri: Vamos aguardar para conversar com o presidente Lugo, e a gente também está aguardando uma posição do governo brasileiro para falar sobre esses documentos ultra-secretos, relativos à Guerra do Paraguai. Nós estamos nessa batalha.

Marilú Cabañas: Vamos convidar, Colibri, para ele fazer o encerramento dele em Guarani? Para ele se despedir?

Colibri: Vamos. A gente precisa aprender o Guarani!

Marilú Cabañas: Se despeça da gente em Guarani, Mario!

Mario Villalva Filho: “ Oñondive ñande mbareteve”.  “Oñondive”, seria ”juntos” e “ ñande mbateteve“, seria “somos mais fortes”, “mais poderosos”.

Marilú Cabañas: Estamos juntos, não é?

Mario Villalva Filho: Juntos na luta!

Colibri: Estamos juntos na luta! É isso ai!

Marilú Cabañas: Conversamos com Mario Ramão Villalva Filho, do Núcleo Cultural Guarani - Paraguay Teete, professor de Guarani da PUC de São Paulo.

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