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Entrevista

Para Amorim, prolongamento de prisão de Lula provocaria 'grande tensão'

Ex-chanceler destaca forte repercussão da prisão de ex-presidente na Europa e vê risco de graves prejuízos ao país." Pode-se ter a ilusão de que as pessoas vão se acostumar. Mas não vão"
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 11/04/2018 19h10, última modificação 12/04/2018 09h33
Ex-chanceler destaca forte repercussão da prisão de ex-presidente na Europa e vê risco de graves prejuízos ao país." Pode-se ter a ilusão de que as pessoas vão se acostumar. Mas não vão"
Jose Lucena/Futura Press/Folhapress)
Celso Amorim

"Pode-se ter a ilusão de que as pessoas vão se acostumar com prisão de Lula, mas não vão”, diz ex-ministro

São Paulo – “Nós estamos muito preocupados com nossa própria bomba atômica, de certa maneira, que é a prisão do Lula”, diz o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim, ao comparar a escalada da crise entre Estados Unidos e Rússia com o cenário brasileiro. “A prisão do ex-presidente é totalmente injusta. Mas esse foi um trauma que nós e ele já vivemos. Agora, mantê-lo preso durante muito tempo vai ser uma coisa de grande tensão. Pode-se ter a ilusão de que as pessoas vão se acostumar com isso, mas não vão.”

O diplomata conta que a percepção e repercussão internacionais sobre a prisão são enormes, o que pode trazer muitos prejuízos ao país. “Estamos vivendo um momento muito dramático. O próprio ministro Gilmar Mendes (do Supremo Tribunal Federal) disse bem, que é uma mancha na imagem do Brasil, e temos que concordar com ele nesse caso”, diz Amorim.

“As pessoas não se enganem. Por que o dólar subiu e a bolsa caiu? A percepção do mundo em torno da prisão do Lula é que é uma grande irracionalidade. Como se vai negociar um acordo com um país que comete uma coisa dessa?”

Ele cita as repercussões e reações de inúmeras lideranças e entidades internacionais, como do Partido Democrático italiano e o pronunciamento do ex-primeiro-ministro de Portugal José Sócrates, por exemplo, que classificou o encarceramento como "violência" e disse que Lula é vítima de um ato “absolutamente fora das regras constitucionais”.

Os ex-primeiros-ministros italianos Massimo D’Alema e Romano Prodi divulgaram carta em que denunciam a prisão, sem contar os apoios anteriores do prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel e do ex-candidato a presidente da França Jean-Luc Mélenchon, do movimento França Insubmissa.

Mélenchon afirmou, no sábado (7), que a esquerda mundial "foi golpeada duramente, especialmente na América Latina, onde você está vendo agora um golpe judicial contra Lula".

A repercussão na Europa envolve a percepção de que, no Brasil, se coloca em dúvida uma garantia fundamental. “A existência da democracia é a garantia do indivíduo frente ao Estado. Quando você relativiza isso, é muito preocupante. Um dia pode ser o Lula, no outro dia outra pessoa qualquer.” Na opinião de Amorim, "não há a menor dúvida de que essa repercussão internacional vai acabar influindo, mas pode ser tarde”. 

“O problema é que o tempo vai passando, as coisas vão correndo, a prisão continua, isso tudo vai tendo um efeito de estimular provocações, como já houve, desses bolsonaristas, gente de extrema-direita, orientados ou não por ele”, afirma. “Somam-se a isso outros episódios, como a morte da Marielle. Seria normal que tudo isso tivesse alguma influência na percepção os nossos juízes. Vamos ver o que vai resolver o Supremo.”

EUA x Rússia

Sobre a crise que envolve os Estados Unidos do presidente Donald Trump e a Rússia de Vladimir Putin, talvez sem precedentes desde a crise dos mísseis de Cuba, o ex-chanceler lembra que a atual escalada coincide com a posse de John Bolton no cargo de assessor de Segurança Nacional.  

“Bolton é muito belicista e foi, por exemplo, responsável pela retirada do nosso embaixador de armas químicas, (José Maurício) Bustani do cargo, justamente porque queria usar o pretexto das armas químicas para bombardear o Iraque”, recorda. Bustani foi destituído da direção geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq) em 2002 por colidir com Bolton, então subsecretário de Estado norte-americano para assuntos de desarmamento.

“Nosso embaixador, que comandava a organização, tinha mandado missão mostrando que não havia arma química nenhuma. Bolton se emprenhou pela retirada do Bustami”, diz Amorim.

Para ele, escaladas verbais como a desencadeada por Trump trazem grande risco. “A gente não sabe onde isso vai parar. Já ouvimos muitas vezes de terceira guerra e nunca aconteceu, graças a Deus.”

A crise começou com o envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha, Yulia, na Inglaterra, no início de março. "Pode ter sido feito por um serviço secreto ocidental. Não estou afirmando, mas pode ter sido", diz. A escalada chega agora a uma nova acusação, desta vez contra a Síria, aliada da Rússia. EUA, França e Reino Unido acusam o governo de Bashar al-Assad de usar armas químicas. Trump ameaça atacar o país árabe.

“Terceira guerra mundial seria um suicídio global. Então, espero que não se chegue lá. Pode haver um outro tipo de conflito mais localizado, indireto”, avalia o ex-chanceler brasileiro.

Sobre as especulações de que a aeronave americana apelidada de “Dia do Juízo Final” estaria em pleno voo, Amorim diz que não há, no momento, como saber se a informação é real. “Se é verdade, é muito arriscado. Se ela entra num espaço aéreo e atiram contra ela, por exemplo. As coisas ficam imprevisíveis. Não acho que haja a intenção de desencadear um conflito global, mas as ameaças às vezes fogem do controle. Pode-se chegar a um ponto em que um pequeno erro pode ocasionar um conflito.”

Assista à reportagem do Seu Jornal, da TVT: