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Projeto editorial-político

Intervenção abre 'clareira política' e desloca Bolsonaro, avalia Luiz Eduardo Soares

Antropólogo acredita que ação atrai eleitores da direita para "forças políticas tradicionais de centro" que não encontravam base suficiente para viabilizar suas candidaturas
por Redação RBA publicado 23/02/2018 18h11
Antropólogo acredita que ação atrai eleitores da direita para "forças políticas tradicionais de centro" que não encontravam base suficiente para viabilizar suas candidaturas
Divulgação
Luiz Eduardo Soares

Além de "tranquilizar os cariocas", Luiz Eduardo acredita que intervenção visa reconfigurar o campo político-eleitoral

São Paulo – Com a experiência de ter sido coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do estado do Rio de Janeiro (1999/2000) e secretário nacional de Segurança Pública (2003), Luiz Eduardo Soares dedica há tempos boa parte da sua vida profissional a um tema tão espinhoso quanto importante e com forte apelo junto à sociedade brasileira.

Com a intervenção militar no Rio de Janeiro posta em prática pelo governo de Michel Temer, o autor de mais de 20 livros, entre romances, dramaturgia e gestão pública, faz uma original análise do que está em jogo neste momento do país.

“Acredito que a intervenção militar seja, sobretudo, uma iniciativa política, um projeto editorial-político, ou seja, é necessário reeditar a história, a vivência cotidiana dos cariocas e fluminenses. É preciso descrever de outra maneira, chamando atenção para os aspectos positivos, agora provavelmente com foco nas grandes ações libertadoras, redentoras dos militares. Provavelmente esse será o caminho, salvo se os acidentes começarem a se multiplicar muito cedo”, reflete Luiz Eduardo Soares, em vídeo gravado para a Mídia Ninja.

Para ele, uma intervenção dessa magnitude só é possível ser feita se houver uma articulação profunda com os grandes grupos de comunicação que dominam a mídia brasileira. “Estamos diante de uma ação simbólica, cultural e política. E o efeito político não é só tranquilizar os cariocas, é criar a possibilidade de emergência de novas lideranças e da reconfiguração do campo político-eleitoral”, afirma.

Em seu depoimento, Luiz Eduardo lembra dos 14 meses de ocupação da favela da Maré entre 2014 e 2015, operação que gastou cerca de R$ 600 milhões, com resultados nulos após a saída das tropas federais. “Durante a ocupação houve uma série de problemas, foi um fracasso reconhecido pelas próprias lideranças militares”, diz ele. “Os militares mais experientes, mais responsáveis, sabem muito bem que uma ocupação, uma intervenção, não resolve os problemas da segurança pública. Várias experiências, particularmente no Rio de Janeiro, demonstraram que intervenção militar não resolve os problemas da segurança pública.”

Com essa constatação, o ex-secretário nacional de Segurança Pública questiona: “Se a intervenção militar não está destinada a resolver os problemas da segurança pública ou se quer encaminhar soluções, a que serve?”.

Na opinião de Luiz Eduardo Soares, a intervenção patrocinada por Temer servirá para abrir uma “clareira política”, deslocando a candidatura de Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e atraindo um eleitorado da direita para o centro. “Esse eleitorado passa a ser capturável por forças políticas tradicionais de centro que até então não encontravam uma base suficiente para viabilizar suas candidaturas.”

Segundo o autor do livro Cabeça de Porco, escrito em parceria com o rapper MV Bill, o discurso de “lei e ordem, nos limites da legalidade”, é uma complementação à retirada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva das eleições e ao “esquecimento” de Ciro Gomes. “Não adiantaria excluir Lula e ocultar Ciro Gomes, se não se criasse uma alternativa à direita e ao centro que viabilizasse esse outro projeto.”

Agenda esquecida

Com a intervenção militar no Rio de Janeiro, Luiz Eduardo destaca como efeito colateral a saída do debate de temas centrais para a segurança pública, como a política de drogas, a necessidade de repactuar a relação do Estado com as comunidades, marcadas pela brutalidade, além da juventude abandonada e sem perspectiva.

“Se tivéssemos um investimento dirigido à juventude vulnerável, com bilhões retirados dos pagamentos de juros aos rentistas, poderíamos dar um salto de qualidade, abrindo oportunidades e criando rotas de saída para uma juventude confinada a situações dramáticas”, avalia, enfatizando também a reforma das polícias. “São questões urgentes que foram definitivamente excluídas com esse grande espetáculo da intervenção militar.”

Assista a íntegra do depoimento: