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Economia e política

Debate na USP investiga causas e saídas para a crise brasileira

Evento reuniu André Singer, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Franklin Serrano e Laura Carvalho e mostrou, entre outras avaliações, que elites do país não aceitam Estado sustentado por governos populares
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 29/08/2017 08h57, última modificação 29/08/2017 09h32
Evento reuniu André Singer, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Franklin Serrano e Laura Carvalho e mostrou, entre outras avaliações, que elites do país não aceitam Estado sustentado por governos populares
RBA
Debate FEA

André Singer (esq), Laura Carvalho e Bresser-Pereira na Faculdade de Economia da USP, em São Paulo

São Paulo – "É uma ilusão imaginar, e isto se comprovou de novo, que a burguesia vá se engajar numa perspectiva de transformação estrutural do país, absolutamente necessária se quisermos ter uma integração no sentido de uma igualdade básica que permita transformar o Brasil num país justo." A avaliação é do cientista político e André Singer, em debate do seminário "Política macroeconômica, crescimento e desigualdade", realizado na noite de ontem (28) na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Além de Singer, o debate reuniu os professores Luiz Carlos Bresser-Pereira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), e Franklin Serrano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A moderação foi da professora da USP Laura Carvalho.

O comentário de Singer foi a propósito do processo que desencadeou a derrubada do governo de Dilma Rousseff, em maio de 2016. Segundo ele, diferentemente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que procurou colocar-se acima das classes sociais e "arbitrar o conflito de classes", Dilma deixou de desempenhar esse papel "e tomou o partido da coalizão produtivista".

Para o cientista político, apesar dos erros e das críticas que se pode fazer a Dilma, há um momento de seu governo que se deve registrar. "Sou crítico a Dilma, principalmente pela nomeação de Joaquim Levy (ao ministério da Fazenda), um grande equívoco, mas faço questão de fazer justiça a ela, porque ela foi corajosa no sentido de implementar um programa que decidi chamar de ensaio desenvolvimentista", disse.

Singer lembra que, em 2012, Dilma Rousseff chegou ao auge de sua força política. "No discurso que faz no 1° de maio de 2012, ela diz que a taxa de juros no Brasil é absurda e é inaceitável que os bancos mantenham essa taxa. Pela primeira e única vez em todo o período lulista, ela toma uma posição de classe contra o setor financeiro que é o núcleo político e dirige politicamente o capital." O professor da USP aponta uma possível crença da ex-presidenta de que teria o apoio da burguesia industrial paulista ao fazer concessões, como as desonerações e a redução de energia elétrica, calculando que teria o apoio do setor.

"Ela achou que, como tomou as medidas que os industriais pediram, teria o apoio político do setor industrial, mas ela perdeu esse apoio", afirmou.  "Acho que Dilma não leu direito a bibliografia sobre 64, onde já estava claro que a burguesia industrial pede a escada, e depois tira. Ela pede porque precisa, mas quando o Estado faz, ela se assusta, porque o Estado fica muito forte, e o Estado sustentado por forças populares ela não aceita."

Em sua exposição, Singer apontou que, quando ocorrem as manifestações de junho de 2013, a tomada de posição do setor industrial começa a ficar clara. "O presidente da Fiesp (Paulo Skaf), além de iluminar a fachada da Fiesp com a bandeira do Brasil, que era o símbolo dos manifestantes de direita, começa a dar declarações claras contra o governo. Todos nós sabemos onde essa história terminou: no pleno engajamento da Fiesp, Fierj e CNI no impeachment, em abril de 2016", analisa. "O fortíssimo engajamento confirma minha hipótese, de que a presidente cumpriu toda a agenda pedida pelos industriais, mas que resultou num rearranjo de classe que foi a reunificação da burguesia contra o lulismo."

"Subdesenvolvimento a longo prazo"

Do ponto de vista da economia, Bresser-Pereira defendeu – como tem feito sistematicamente – que a crise brasileira é estrutural. Segundo ele, a partir dos anos 1990, as empresas industriais enfrentam o grave problema de "baixo estímulo para investir". "Em 1994, apesar da baixa inflação, o Brasil continuou não crescendo em investimento público e privado." Com a taxa de juros em patamares estratosféricos e a taxa de câmbio apreciada "cíclica e cronicamente, não há crescimento possível", disse. Hoje, o país está novamente "entrando num subdesenvolvimento a longo prazo".

Para o economista da FGV, a taxa de câmbio apreciada é um dos principais inimigos da indústria nacional. Em sua avaliação, a condução do processo por Dilma foi política e economicamente "incompetente".

Segundo Bresser, a crise que começou a se formar a partir de 2014, com empresas e famílias se endividando mais e mais, com a taxa de lucro das empresas caindo de um patamar de 16%, em anos anteriores, para 4%, e a crescente perda de confiança em Dilma, culminaram com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. "Fiquei indignado conosco, porque nós, desenvolvimentistas, tínhamos fracassado."

Já para André Singer, Dilma demonstrou possuir "um plano articulado", o que, segundo ele, ficou explicitado com medidas como a tentativa de reduzir a taxa de juros e seu discurso contra a taxa de lucro do sistema financeiro. "Havia um plano articulado, sem entrar no mérito se do ponto de vista econômico era bom ou ruim. Os neoliberais dizem que não houve plano algum, que houve total incompetência. Não é verdade. Houve um plano."

Para Franklin Serrano, ocorreu uma mudança no modelo econômico a partir de 2011, quando Dilma assumiu, reduzindo o papel do Estado, transferindo-o gradativamente ao setor privado por meio de estímulos fiscais.

Na opinião de Serrano, as políticas de pleno emprego foram revertidas em decorrência da reação da oposição desempenhada pelas classes proprietárias. "Esta reação não é econômica, não vem da redução dos investimentos (das empresas), é política", disse.