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escracho na festa

Pai da ‘noiva ostentação’, Ricardo Barros é unanimidade e vira alvo de repúdio e ovos

Além de receber repúdio dos médicos ao dizer que eles "fingem trabalhar", ministro da Saúde de Temer enfrenta manifestantes na festa de casamento da filha Maria Victoria, em Curitiba
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 16/07/2017 11h45
Além de receber repúdio dos médicos ao dizer que eles "fingem trabalhar", ministro da Saúde de Temer enfrenta manifestantes na festa de casamento da filha Maria Victoria, em Curitiba
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Manifestantes: "Como bons cidadãos, temos que presentear os noivos e seus convidados (muitos deles políticos) com uma bela recepção"

São Paulo – A semana terminou difícil para o ministro da Saúde, Ricardo Barros. Pai da "noiva ostentação" Maria Victoria Barros, o ministro viu a festa de casamento da filha em Curitiba, na sexta-feira (14), se tornar palco de manifestação. Os manifestantes gritavam, "ão, ão, ão, vai chegar de camburão”, “golpista” e “Maria camburão”, para lembrar um episódio de fevereiro de 2015, quando os governistas entraram na Assembleia Legislativa escoltados por um carro do choque, da Polícia Militar. O plenário estava ocupado em sua maioria por professores em greve, que protestavam contra a votação de projetos de ajuste fiscal, incluindo a reforma na Previdência que tinha apoio de Maria Victória.

A noiva é deputada pelo mesmo partido do pai (PP) e integra a base do governador Beto Richa (PSDB). A mãe da noiva é a vice-governadora Cida Borghetti (PP). O casamento que era para ser festança de família e amigos, que instalaram uma estrutura metálica sob a fachada de um edifício histórico no centro da capital paranaense com autorização do governo, virou um grande escracho.

Pelas redes sociais, os manifestantes convocaram o ato lembrando os ataques das contrarreformas de Michel Temer, com a retirada de direitos. Um dos eventos divulgados nas redes sociais dizia que "nossa querida deputada irá se deliciar com um casamento farto de muitas regalias. Como bons cidadãos, temos que presentear os noivos e seus convidados (muitos deles políticos) com uma bela recepção, regada de muitos fogos de artifícios e palavras amigas e reconfortantes”. 

A família até achou normal. Em nota, a noiva e seus pais afirmaram que tudo transcorreu dentro na normalidade. Mas lamentaram ter tido parte da cerimônia atrapalhada pelo povo, que impediu um trajeto que seria feito a pé e as agressões físicas e verbais – "o preço da democracia", segundo eles – que foram motivadas pela pré-candidatura de Cida Borghetti ao governo paranaense.

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Policiais com bombas, prontos para reprimir a manifestação

Fala desastrosa

Se terminou ruim para o ministro, a semana foi difícil também para os trabalhadores, que na última terça-feira (11) viram seus direitos duramente conquistados jogados no ralo junto com a CLT dilacerada pelo Senado um dia antes do juiz federal Sergio Moro condenar, sem provas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão pelo suposto favorecimento envolvendo o tríplex do Guarujá.

Tampouco foi fácil para os médicos, especialmente para os do Sistema Único de Saúde (SUS). Na quinta-feira (13), ouviram do ministro da Saúde que "os médicos precisam parar de fingir que trabalham".

A fala desastrosa – senão carregada de má-fé – foi feita em evento oficial da pasta, em Brasília, quando Barros anunciava investimentos de R$ 1,7 bilhão para qualificar e ampliar o atendimento à população. Parte dos recursos será usada na modernização das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), como instalação de prontuário eletrônico e biometria para controle de horário de entrada e saída de servidores.

Conselhos regionais de Medicina em diversos estados endossaram nota do Conselho Federal de Medicina (CFM) em conjunto com a Associação Médica Brasileira (AMB). Algumas regionais, porém, elevaram o tom. É o caso de São Paulo (Cremesp) e do Rio de Janeiro (Cremerj), que afirmaram repudiar as declarações do ministro Barros.

Em nota, a Associação Médica do Espírito Santo foi direta: "Em mais uma declaração infeliz, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, tenta atribuir aos médicos do SUS a culpa pelos problemas que o sistema apresenta desde o seu nascedouro. Dizer que os médicos do SUS 'fingem que trabalham' é uma afirmação leviana e desrespeitosa de quem não conhece a realidade da saúde pública no Brasil. O ministro e os políticos, de forma geral, deveriam olhar para o próprio umbigo. Não são os médicos do SUS que estão sendo investigados por corrupção e desvio de bilhões em recursos públicos que deveriam ter sido destinados aos serviços públicos em benefício da sociedade. Quem finge que gerencia são esses mesmos políticos, que vão parar nas cadeiras de gestores públicos para satisfazer as vontades pouco ou nada republicanas de partidos políticos."

Para o Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (Sindimed), "o atual ministro da saúde, Ricardo Barros, mostrou, mais uma vez, o seu despreparo para exercer o cargo de gestor máximo do Sistema Único de Saúde (SUS)". "Em mais uma tentativa de desviar o foco dos reais problemas da saúde, Barros desrespeitou a categoria médica ao declarar que 'médico tem que parar de fingir que trabalha'. Por desconhecimento, ou má fé, o ministro omite a falta de uma política de recursos humanos uniforme e coerente, baseada em uma carreira do SUS, um dos principais condicionantes, junto com o subfinanciamento, para a desorganização do sistema de saúde. Procura desviar o foco das atenções, dias após ver sua gestão ser reprovada no Conselho Nacional de Saúde por não cumprir a aplicação mínima constitucional de 15% das receitas correntes líquidas".