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E agora?

Depois de 'não' geral a reformas e a Temer, movimentos esperam virar o jogo

População ocupou capitais e interior em todo o país em repúdio a propostas do Executivo, que seguem em discussão na Câmara, onde governo tem maioria. Líderes veem divisor de águas no debate
por Redação RBA publicado 15/03/2017 21h28, última modificação 16/03/2017 00h07
População ocupou capitais e interior em todo o país em repúdio a propostas do Executivo, que seguem em discussão na Câmara, onde governo tem maioria. Líderes veem divisor de águas no debate
Paulo Pinto / AGPT
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Em São Paulo, estimativas falaram em até 300 mil pessoas no início da noite na Avenida Paulista

São Paulo – Desta vez não havia helicópteros sobrevoando a Avenida Paulista, em São Paulo, diferentemente de movimentos pró-impeachment que contaram com extenso apoio midiático e mesmo logístico por parte de autoridades. Mas isso não impediu que a área fosse tomada por uma multidão, que no final do dia ecoava os protestos realizados durante toda esta quarta-feira (15) pelo país, contra as reformas da Previdência e trabalhista, e em repúdio ao governo Temer. Alheio às manifestações, o presidente chegou a dizer, durante evento em Brasília, que a sociedade, "pouco a pouco, vai entendendo" a necessidade de reformas.

Reformas que representam retrocesso e perda de direitos, afirmaram, durante o dia, representantes de centrais sindicais, movimentos populares e diversas entidades. O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, por exemplo, disse durante debate que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, da Previdência, representa uma das maiores reformas de exclusão social desde a Constituição de 1988. Para ele, o dia nacional de paralisações abriu espaço para o debate público e maior percepção da população sobre a ameaça a seus direitos. Em São Paulo, algumas estimativas falaram em até 300 mil pessoas no início da noite na Avenida Paulista. No Rio de Janeiro, seriam pelo menos 100 mil na Candelária. Manifestações foram realizadas em todas as regiões, somando aproximadamente 300 mil, segundo balanços parciais dos organizadores.

O movimento de hoje foi "um marco", na definição do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos. "Até aqui, nas últimas manifestações e dias de luta, estavam vindo às ruas apenas os movimentos organizados. Hoje tivemos um salto de qualidade. Muita gente que não está necessariamente mobilizada veio às ruas. Começou a cair a ficha sobre o tamanho do ataque das reformas trabalhista e da Previdência. É o início de um novo momento."

Avaliação semelhante fez o coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP) e da Frente Brasil Popular, Raimundo Bonfim. "Está caindo a ficha da população. No momento do impeachment a coisa era mais politizada, mais difícil de debater e de dialogar com a população. Nesse momento, é uma questão concreta, a população está fazendo as contas. Não é uma coisa que depende de filiação partidária, o prejuízo vai ser de todos os trabalhadores."

Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, o recado foi dado. "Não vamos aceitar as reformas da Previdência e trabalhista. É bom que deputados e senadores saibam que quem votar a favor será cobrado. Vamos visitar as casas deles, vamos denunciar insistentemente. Não vão acabar com os direitos dos trabalhadores."

"O governo Temer vai ter de recuar com esse desmonte da aposentadoria, senão ele não vai ter sossego, porque se o Congresso não derrotar o povo derrota", disse em Brasília o diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Aristides Veras dos Santos, que deverá ser eleito presidente da entidade na próxima sexta-feira (17).

Na capital federal, logo cedo, integrantes de vários movimentos ocuparam a sede do Ministério da Fazenda. À tarde, a manifestação tomou conta da Esplanada dos Ministérios, com pelo menos 10 mil pessoas.

A maior parte das capitais e muitas cidades do interior tiveram passeatas, protestos e atos contra as reformas de Temer. Diversas categorias profissionais, como bancários, metalúrgicos, químicos, eletricitários, trabalhadores nos Correios, servidores públicos, químicos, entre outras, fizeram paralisações. Em São Paulo, os ônibus urbanos só circularam depois das 8h. Os metroviários também aderiram ao protesto, e os trens circularam apenas parcialmente. Professores da rede estadual, em assembleia na Praça da República, aprovaram greve a partir do dia 28.

Enquanto isso, as reformas seguem em discussão no Congresso. Nesta quinta, estão marcadas novas reuniões das comissões especiais da Câmara que analisam a PEC 287 e o Projeto de Lei 6.787, de reforma trabalhista. Parte dos movimentos, como a CUT, defendem a rejeição integral das propostas. Uma parcela acha possível apresentar emendas. Hoje, em rede social, o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) afirmou que o governo Temer não tem legitimidade para propor reformas. "Derrubaram Dilma para impor uma reforma da Previdência que escraviza os brasileiros. Vamos apresentar emendas ao projeto original. Vamos fazer o possível para impedir que essa reforma seja aprovada."

De acordo com o deputado Bohn Gass (PT-RS), a estratégia é "minar a proposta de todos os lados". Foram apresentadas 146 emendas à PEC 287. Com representação minoritária no Congresso, as centrais sindicais e movimentos populares sabem que só permanecendo na rua é que haverá chance de barrar as "reformas" de Temer e aliados.