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caminhos e autocrítica

Laerte diz que humor é ferramenta para reconquistar a democracia

Cartunista e o jornalista Leonardo Sakamoto debatem sobre a crise política e o papel do humor. "Existem pessoas operando a rede para esticar a corda mais do que ela já está esticada", afirma Sakamoto
por Gabriel Valery, da RBA publicado 16/12/2016 15h52, última modificação 16/12/2016 18h54
Cartunista e o jornalista Leonardo Sakamoto debatem sobre a crise política e o papel do humor. "Existem pessoas operando a rede para esticar a corda mais do que ela já está esticada", afirma Sakamoto
ebc/reprodução
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Debate foi iniciativa da editora Boitempo e da revista CartaCapital

São Paulo – "O impeachment está nu", afirmou a cartunista Laerte Coutinho em um debate homônimo, ao lado jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto. O encontro, na noite de ontem (15) na livraria Blooks, em São Paulo, foi iniciativa conjunta da editora Boitempo e da revista CartaCapital. Entre os temas discutidos, a natureza do processo que destituiu a presidenta eleita Dilma Rousseff (PT), empossando como chefe do Executivo seu vice, Michel Temer (PMDB), além do papel do humor na formação política e os desafios para a reconstrução da esquerda no país.

"Como uma ferramenta poderosa da cultura humana, o humor não tem um lado só. Na ditadura anterior, o humor era uma ferramenta para a reconquista da democracia", disse Laerte, traçando um paralelo entre o período de ditadura civil-militar (1964-1985) e o atual. "Hoje já não é o que se passa. Existem divisões sérias e claras. Existem pessoas que acreditam que não há um golpe, mas sim um processo não normal, mas que não contestam. Talvez pelo fato da ausência de militares no governo", completou.

Para Laerte, a ditadura civil-militar era mais facilmente percebida como tal, além da presença de militares, pela "estruturação do poder que censurava e até os jornais que colaboraram ou fizeram vistas grossas podiam negar este fato alegando que estavam sob censura". A cartunista ressaltou que, no período, o humor começou a se descaracterizar de sua pauta única, com o adendo do pluripartidarismo. "Inaugurou-se um período de rachas do qual temos ecos ainda hoje. Boa parte da nossa atomização e dispersão se dá em torno disso."

Tal divisão ganhou a crítica de Laerte, que enfatizou que "a comicidade frequentemente corteja com o conservadorismo e o preconceito". Para Sakamoto, as divisões são naturais no sistema e refletem "a exploração de classes, a diferença entre pessoas, a existência de pobres e ricos". "Isso existe desde que o primeiro português mandou o primeiro índio colocar o primeiro pau-brasil na primeira caravela", afirmou.

Entretanto, a polarização, para Sakamoto, encontra-se em um momento crítico. "Existem pessoas operando a rede para esticar a corda mais do que ela já está esticada. Boa parte da divisão não é natural. Tem gente forçando, alguns deles querendo concorrer nas eleições de 2018 com 10% das intenções em pesquisas recentes", disse, sem citar diretamente, em relação ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que carrega nos discursos de extrema-direita para alçar popularidade, incluindo visões homofóbicas, xenófobas e ataques de ódio contra a esquerda e a diversidade.

O jornalista lembra o colega de profissão Antônio Prata, colunista da Folha de S.Paulo. Em 2013, Prata escreveu um texto, "Guinada à direita",  de irônico conteúdo reacionário. "Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparamos para a barbárie", disse na ocasião.

Prata dizia também em sua provocação: "Contra o poder desmensurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias inclusive), sem falar no ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites".

Entretanto, a reação do público de direita foi, para espanto do jornalista, de exaltação de seu discurso farsesco. Sakamoto sentenciou que esse fato serve de alegoria para "perceber que é preciso e possível expandir o entendimento da ironia, mas isso demanda algo que está em baixa que é a empatia, se colocar no lugar do outro".

Atomização e autocrítica

Laerte e Sakamoto convergem no entendimento de que a atomização das relações torna mais difícil movimentos populares coesos. "Vivemos em uma realidade onde a característica mais arrasadora é a ausência de instituições aglutinadoras como partidos políticos. Partidos eram lugares de reunião, de organização e de ações segundo ideias sintonizadas. As pessoas estão cada vez menos partilhando coisas, e sim compartilhando nas redes sociais, mas não existem movimentos de união de esforços", disse a cartunista.

"Existe cada vez mais uma setorização. Do ponto de vista da minha experiência, as pessoas trans dificilmente teriam, no mundo pré internet, condições de se reunirem como hoje. Mas ao mesmo tempo a internet favorece que este grupo se torne cada vez mais puro sangue. Travestis não frequentam a mesma comunidade das drags. Gays homens não frequentam as mesmas rodinhas das gays. A Parada LGBT é um milagre", disse.

Sakamoto defende o equilíbrio e a possibilidade de pertencimento a diversos grupos concomitantemente. "Existe o momento de busca e fortalecimento das unidades individuais, isso é importantíssimo, de reconhecer as identidades de grupo. Isso empodera as forças. Ao mesmo tempo, somos maniqueístas. Ao mesmo tempo que nos vemos parte de determinado grupo oprimido, esquecemos que somos parte de grupos maiores, como o dos trabalhadores", disse.

O jornalista vê que o entendimento de classes é essencial para frear, por exemplo, abusos de governos contra o povo. "Existem categorias que perpassam todos, como pobre e trabalhador. Esquecemos isso, é como a categoria dos jornalistas. Adoramos esquecer que somos trabalhadores, só lembramos na hora do passaralho, das grandes demissões. Na hora, o jornalista se acha traído, mas não é a realidade. Esquecemos a relação entre capital e trabalho, temos uma função no capitalismo, muitas vezes de guerreiro do capital alheio", afirmou.

Neste contexto de enfrentamento de questões maiores, entra a autocrítica realizada pelos presentes. "Ninguém nega os ganhos do Brasil nos últimos 13 anos. Mas a pergunta é se realmente houve um enfrentamento a questões realmente estruturantes, ou apenas surfamos em uma onda para aplicar direitos às minorias. Essa é a pergunta que a esquerda deve fazer. O governo garantiu cidadania através do poder de consumo, chamamos de nova classe média a classe pobre que pode comprar uma TV de tela plana. Mas e saúde de qualidade, educação de qualidade? Qual a capacidade, o caldo crítico deixado pela esquerda depois de tantos anos de governo?", questionou Sakamoto.

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