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Defesa de Eduardo Cunha fragiliza Temer

Das 41 perguntas sugeridas por advogados do ex-deputado ao presidente (arrolado como testemunha), 21 foram vetadas por Moro, mas parlamentares veem caso como nova ameaça ao Executivo
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 28/11/2016 18h43
Das 41 perguntas sugeridas por advogados do ex-deputado ao presidente (arrolado como testemunha), 21 foram vetadas por Moro, mas parlamentares veem caso como nova ameaça ao Executivo
Lula Marques/AGPT/fotos públicas
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Defesa de Cunha pergunta detalhes sobre as relações do presidente da República com alguns dos principais operadores do PMDB

Brasília – As fragilidades do governo do presidente Michel Temer aumentaram ainda mais hoje (28) com ameaças veladas feitas pelo advogado do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A defesa do ex-presidente da Câmara dos Deputados, que está preso no Paraná por envolvimento na Lava Jato (e arrolou Temer como testemunha dele), apresentou 41 perguntas a serem feitas ao presidente, das quais 21 foram vetadas. Mas as perguntas, aliadas aos pedidos de impeachment contra Temer, a formalização de investigações contra seus ministros e à possibilidade de novas delações a serem feitas pelos executivos da Odebrecht contra peemedebistas nos próximos dias, aumentaram a temperatura na base aliada, alerta para a governabilidade de Temer.

A oposição se prepara para a apresentação de pedidos de impeachment em várias frentes, até o dia 10 de dezembro, mas há quem aguarde o resultado das próximas delações a serem feitas para a Justiça Federal, até o final do ano. O Psol protocolou seu pedido nesta segunda-feira. “O ambiente em Brasília vai ser de nitroglicerina pura nas próximas semanas”, avaliou um líder de partido da base do governo que não quis se identificar.

Dentre as perguntas feitas pela defesa de Eduardo Cunha a Temer, destacam-se as que procuram saber detalhes sobre as relações do presidente da República com alguns dos principais operadores do PMDB, como o ex-diretor da área internacional da Petrobras Jorge Zelada, o lobista do setor de petróleo José Augusto Henriques (os dois, também presos em Curitiba) e o empresário José Yunes.

Yunes é considerado um dos melhores amigos do presidente e há informações de que ambos são sócios em alguns empreendimentos imobiliários. O pedido de perguntas também fez referência ao ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró e questionou afirmações que teriam sido feitas por Cerveró de que teria procurado Temer, então deputado federal, para pedir apoio político como forma de permanecer na diretoria.

Condições de governabilidade

Por ocupar a presidência da República, Michel Temer tem a prerrogativa de responder às perguntas por escrito, mas o juiz federal Sérgio Moro cancelou o envio das que achou que não tinham ligação direta com o caso relacionado ao seu envolvimento com a Lava Jato. No despacho, Moro disse que tais perguntas devem ser consideradas “inapropriadas”, uma vez que a 13ª Vara Federal de Curitiba, da qual ele é o magistrado titular, não tem competência para realizar qualquer investigação em relação ao presidente da República.

Entre parlamentares da oposição, há um grupo que acha que se denúncias feitas contra o presidente e ainda não investigadas forem comprovadas, não haverá condições políticas nem econômicas para que o governo se sustente em um processo de impeachment que dure alguns meses. “O processo todo terá de consistir numa ação rápida, porque o país não aguentará mais isso depois do processo de impeachment de Dilma Rousseff”, comentou um senador.

Por outro lado, existe no Congresso Nacional um grupo que acha que, no caso de alguma comprovação de envolvimento direto do presidente nas delações a serem feitas na próxima semana, os conselhos que já estão sendo dados a Temer por interlocutores e líderes da sua confiança, durante reuniões no Palácio do Planalto, são de que ele não espere a crise se agravar e renuncie ao cargo. No caso da renúncia ele perderá automaticamente o foro privilegiado.

Há, entretanto, a mobilização dos integrantes da base aliada para postergar qualquer intenção nesse sentido até o final do ano. O objetivo é criar condições para evitar a realização de eleições diretas no país. Isso porque, se alguma situação que leve a uma saída de Michel Temer do cargo demonstrar condições de ser observada em curto prazo (ou ainda este ano), poderão ser realizadas novas eleições no país para a presidência da República. E se tal desfecho ficar para 2017, a eleição terá de ser por via indireta.

“Embora tudo pareça estar no terreno das investigações, corremos o risco de ver uma avalanche de denúncias nas próximas semanas contra o presidente e seus ministros. E as perguntas insinuadas pela defesa de Eduardo Cunha mostram bem isso”, afirmou o deputado Paulo Pimenta (PT-RS).

O deputado disse que, atualmente, “os setores que apoiaram o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff não sabem mais o que fazer”. “Isso fica nítido, pelas traições que vêm à tona, como no caso do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero que gravou conversas comprometedoras com integrantes do governo, e a possibilidade de novas denúncias. Tudo tem combustão para fazer o governo tremer”, afirmou.