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Tiro no pé

Vazamento de áudio de Temer repercute mal no governo e entre parlamentares

Berzoini, senadores e deputados criticaram gesto e disseram que vice-presidente confirmou achar que processo de impeachment consiste numa "eleição indireta". Críticas são generalizadas
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 11/04/2016 19h08, última modificação 11/04/2016 19h47
Berzoini, senadores e deputados criticaram gesto e disseram que vice-presidente confirmou achar que processo de impeachment consiste numa "eleição indireta". Críticas são generalizadas
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Berzoini (esq.) disse estar “estupefato” com o gesto e que o vice está confundindo todo o processo

Brasília – Repercutiu como uma bomba, em um país já agitado pela tramitação e votação da admissibilidade do processo de impeachment, o vazamento antecipado de um áudio no qual o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), se pronuncia à Nação como se o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff já tivesse sido aprovado pela Câmara dos Deputados. A votação só deverá ocorrer no próximo domingo (17).

O primeiro a falar em nome do Executivo foi o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, que disse estar “estupefato” com o gesto, e que o vice está confundindo todo o processo com uma "eleição indireta". Temer afirmou que não vai responder a Berzoini porque não quer levar em conta certas afirmações feitas em momentos acalorados. Ele lamentou o vazamento, mas não acha que falou "nada que não venha mencionando há tempos, enquanto vice-presidente".

O vice afirmou, ainda, que mencionou temas que, mesmo que nada mude, continuará a defender. De acordo com Temer, que foi chamado por golpista várias vezes ao longo do dia, nos ministérios e no Congresso Nacional – e também como "personagem que trabalha pelo impeachment" –, o que aconteceu foi que ele falava com vários deputados do PMDB e lhe perguntaram o que iria dizer no domingo. Uma vez que, se a votação do processo for pelo afastamento da presidenta Dilma Rousseff, terá de se manifestar.

"Reiterei de modo informal palavras que foram gravadas sobre a necessidade de se unificar o país, procurar fazer um governo de salvação nacional, no qual se prestigie trabalhadores e patrões e se mantenha as políticas sociais. Isto não é novidade. Lamento que o áudio tenha vazado para parlamentares, mas minhas palavras não são nenhum exagero. E destaco que são propostas que continuarei mantendo, seja qual for o desfecho dos próximos dias", enfatizou o vice-presidente.

Não foi esse, porém, o impacto das palavras de Temer. Para o ministro Ricardo Berzoini, o vice-presidente admitiu que está disputando uma eleição indireta.“Ele está confundindo a apuração de eventual crime de responsabilidade da presidenta Dilma com eleição indireta. Está disputando votos!”, afirmou.

Declaração ao povo

No áudio, Temer simula uma declaração ao povo brasileiro e afirma que haverá sacrifícios, assumindo uma postura de quem já dá como fato o impeachment da presidenta Dilma, eleita com 54 milhões de votos. "Esse áudio demonstra as características golpistas do vice”, afirma Berzoini. “Transformou o processo numa eleição indireta para conseguir votos em favor do impeachment.”

Do Senado, Lindbergh Farias (PT-RJ) fez uma postagem em sua página no Facebook, na qual afirma que "Temer, o capitão do golpe, mais uma vez se supera". "Depois da patética cartinha enviada para a presidenta Dilma, agora o vice-decorativo faz um 'discurso de estadista' e envia por whatsapp para deputados, já se preparando para sentar na cadeira da presidência, dando o impeachment como fato consumado e se dirigindo à nação".

A notícia, assim como o áudio de Temer, repercute nas redes sociais e está sendo objeto de piadas e comparações com a famosa foto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) quando, em 1985, se antecipou durante uma eleição à prefeitura de São Paulo e sentou para fotos na cadeira do prefeito no dia da eleição. FHC terminou perdendo para o ex-prefeito e ex-presidente Jânio Quadros – que num gesto de ironia, ao assumir o cargo "desinfetou" a cadeira.

Na comissão especial do impeachment, o assunto começou a ser abordado pelo deputado Glauber Braga (Psol-RJ). Braga destacou que não é possível que ninguém fale no áudio do Temer, numa sessão histórica como a que está acontecendo.

"Temer, além de já estar trabalhando pelo impeachment há tempos, deixa clara sua proposta de governo, mas é bom que todos tenha consciência que o PMDB não vai para a rua para pedir mais ajuste fiscal ou por uma reforma trabalhista. O PMDB, capitaneado pelo vice-presidente que aí está, vai tentar fazer prevalecer o negociado sobre o legislado, pondo por terra nossa atual legislação trabalhista e vai tentar abortar a Lava Jato, porque sabemos que os caciques do PMDB estão envolvidos na operação".

Para o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), o vazamento prova que "Temer é maestro do golpe e rege uma orquestra cujo cantor principal é o Cunha, aspirante a vice-presidente".

Desde as 11h, deputados e lideranças partidárias contrários e favoráveis ao impeachment fazem considerações sobre o relatório do impeachment de Dilma Rousseff antes de iniciarem o processo de votação. A comissão especial do impeachment é formada por 61 deputados e tem previsão de se realizar até por volta das 21h.