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Sessão do Impeachment

Oposição comemora, e aliados já falam em se preparar para processo no Senado

“Somos madeira que cupim não rói”, disse Luciana Santos. “Vai vencer a certeza de que a presidenta não cometeu crime”, acrescentou Afonso Florence. Dilma deverá se pronunciar nesta segunda-feira
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 18/04/2016 00h33, última modificação 18/04/2016 01h05
“Somos madeira que cupim não rói”, disse Luciana Santos. “Vai vencer a certeza de que a presidenta não cometeu crime”, acrescentou Afonso Florence. Dilma deverá se pronunciar nesta segunda-feira
Renato Costa /Folhapress
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Bruno Araujo (PSDB-PE), voto que completou os 342 necessários à oposição para aprovar o processo de impeachment

Brasília – Encerrada a sessão da Câmara que aprovou a continuidade do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, hoje (17), entre os deputados da base aliada do governo o clima era de desolação, mas ao mesmo tempo de ânimo para seguir em defesa do mandato conquistado pelas urnas. Um dos discursos mais emblemáticos, quando a situação favorável ao impeachment foi confirmada, foi o da deputada Luciana Santos (PCdoB-PE), que lembrou uma música que diz “Somos madeira que cupim não rói”. “Seguiremos lutando até o fim contra esta tentativa de golpe”, enfatizou, ao lembrar que ainda há a continuidade do processo no Senado.

Apesar de a votação ter sido favorável ao impeachment desde o início da sessão, muitos dos que defendiam o mandato de Dilma chegaram a acreditar numa virada de posição, como a deputada Moema Gramacho (PT-BA) e até o líder do PT na Casa, Afonso Florence (BA). “Não vai ter golpe. Vocês todos, inclusive o presidente da Casa, vão ver isso”, disse Moema, durante o discurso para defender seu voto. “Vai vencer a certeza de que a presidenta não cometeu crime”, acrescentou Florence.

Como se não fizessem mais questão de contestar ou insistir sobre a falta ou não de crime praticado pela presidenta, os deputados oposicionistas conduziram a sessão de forma meramente política. Valia apenas a opinião contra ou a favor do governo. Os pronunciamentos em plenário pediram por Deus, pelas mulheres, filhos e netos dos deputados, pelos evangélicos, pelo eleitorado de cada um, pela Ordem dos Advogados do Brasil, pelos advogados de um modo geral e houve até quem homenageou a paz em Israel.

Traições diversas

A sessão foi tensa desde o início e, antes mesmo de ser iniciada, só se falava em traição por parte do PP e de grupos do PMDB que ficaram de votar pela derrubada do impeachment. O apoio dos deputados peemedebistas ao governo foi bem menor que o esperado e o PP, embora com alguns votos em prol do governo, votou em sua maioria pelo afastamento de Dilma Rousseff.

Surpresa, mesmo, terminou sendo a observação de alguns votos do PR, que tinha fechado questão pelo impeachment, mas registrou alguns parlamentares votando a favor contra a diretriz e em defesa da presidenta Dilma Rousseff. Também foi bem inferior ao esperado pelo governo o número de abstenções: apenas sete. O governo contava com ao menos o dobro desse número.

O ex-secretário nacional de aviação civil Mauro Lopes (PMDB-MG), que foi um dos principais responsáveis pela última crise entre o partido que integra e o Palácio do Planalto ao ser indicado e ter aceitado ocupar o cargo – ele saiu há poucos dias para voltar à Câmara, dizendo que votaria com o governo – mudou de posição outra vez e votou pelo impeachment. Em meio a muitas vaias, Lopes argumentou que estava sendo “fiel” à orientação do seu partido. Não falou muito.

Quando o placar constatou 342 votos, perto das 23h, a partir do voto do deputado tucano Bruno Araújo (PE), os votos contrários ao impeachment somavam 127 votos. Além de muitas acusações ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por ambos os lados e dos gritos entre os grupos de “Fora PT” e “Não Vai Ter Golpe”, destacaram-se falas como a do decano da Casa, Miro Teixeira (Rede-RJ), e de Jean Wyllys (Psol-RJ).

Teixeira disse que votaria pelo “sim” ao impeachment, mas para pedir que os parlamentares voltem no tempo “para investigar o início de tudo isso que começou e resultou em toda essa confusão”. Foi uma referência à Operação Lava Jato e para dar a entender que a apuração e supostas punições devem ser aplicadas a todos os políticos e partidos.

Mais enfático, Jean Wyllys criticou Eduardo Cunha, votou contra o impeachment e voltou-se para os deputados, em tom rude, afirmando: “Canalhas, seus sexistas”. Em seguida, saiu com ar indignado. Outro a falar de forma emblemática foi Glauber Braga (Psol-RJ). “Eduardo Cunha, você é um gângster.  Eu voto contra o impeachment por aqueles que nunca preferiram o lado fácil da história”, disse, olhando para Cunha.

Durante todo o tempo, a sessão foi acompanhada também por senadores tanto do plenário como do salão verde da Câmara. Rogério Rosso (PSD-DF), líder do PSD na Casa e que foi o presidente da comissão especial do impeachment, ao discursar tomou as dores pelas críticas que ouviu nos últimos dias, de ter sido parcial. Disse que não foi ele quem ratificou o trabalho da comissão, mas o Supremo Tribunal Federal (STF).

Fernando Filho (PE), líder do PSB, legenda que mesmo formalizando o apoio ao impeachment tinha a expectativa de que sua bancada se posicionasse de forma dividida – o que não aconteceu – afirmou que votava pelo impeachment “com a seriedade e o respeito que exige o momento, por achar que a presidenta perdeu a credibilidade para conduzir uma agenda mínima para o país”.

No final, o primeiro a jogar a toalha sobre a situação foi o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), que saiu do plenário com ar desanimado. A expectativa era de que a presidenta Dilma Rousseff divulgasse uma nota logo após ser oficializado o encerramento da sessão, mas em vez disso, falou numa entrevista à imprensa o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo. Dilma se manifestará nesta segunda-feira (18), segundo confirmou há pouco o Palácio do Planalto.