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Lula

'Sucesso do meu governo foi levar ao Planalto o que aprendi nas ruas'

Em discurso na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, ex-presidente diz que seu "sequestro" foi "ofensa pessoal e à democracia" e se oferece aos militantes para "animar a tropa"
por Helder Lima e Vitor Nuzzi, da RBA publicado 04/03/2016 21:47, última modificação 06/03/2016 01:46
Em discurso na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, ex-presidente diz que seu "sequestro" foi "ofensa pessoal e à democracia" e se oferece aos militantes para "animar a tropa"
Lula na Quadra

Lula: "Ouvi de um catador de papelão um agradecimento por ter entrado no Palácio do Planalto uma vez na vida"

São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou o dia de hoje (4) sendo levado coercitivamente para depor na Operação Lava Jato e terminou, já quase às 22h, afirmando à militância que recebeu uma ofensa pessoal, "ao meu partido, à democracia, ao Estado de direito", um "desrespeito a alguém que dedicou a vida este país". Dizendo-se provocado, Lula não se declarou candidato, mas voltou a dizer que só pode ser derrotado "nas ruas". E acrescentou às milhares de pessoas que acompanharam seu discurso de uma hora e 20 minutos em uma lotada quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo: "Se vocês estão precisando de alguém para animar essa tropa, o animador está aqui".

Por várias vezes o ex-presidente enfatizou a preocupação com as pessoas mais pobres durante o seu governo, o que segundo ele foi um fator de contrariedade para a elite econômica. "O sucesso do meu governo foi levar para o Palácio do Planalto o que eu aprendi nas ruas”, disse Lula durante plenária da Frente Brasil Popular. "Aconteceu algo grave, que jamais poderia ter acontecido: eu virei o melhor presidente que o país já teve. Mas, mais importante, eu passei a ser o melhor presidente do começo do século 21 no mundo inteiro (...) Como pode naquele país considerado uma república de bananas acontecer isso?"

Ele só dedicou a parte final de seu discurso aos acontecimentos de hoje. Disse ter sido "sequestrado" em sua casa no início da manhã e lembrou que já prestou três depoimentos em Brasília, querendo dizer que não havia necessidade de uma convocação à força. "O seu Moro não precisava ter feito essa coisa chamada condução coercitiva. Foi um show de pirotecnia", disse Lula, referindo-se ao juiz Sérgio Moro. O ex-presidente voltou a negar posse do apartamento em Guarujá, no litoral sul paulista, e de um sítio em Atibaia, no interior.

"Só tem um jeito do apartamento ser meu: é alguém comprar e me dar. Eles dizem que é minha uma chácara que não é minha. Alguém vai ter de me dar a chácara também. Espero que, quando terminar esse processo, alguém me dê uma chácara e um apartamento que eu não tenho. Eles pegaram um barco de 3 mil reais e transformaram em um iate", afirmou. Referindo-se novamente a Moro e ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entre outros, Lula voltou a desafiar: "Se eles forem 1 real mais honestos do que eu, eu desisto da vida política. Eu faço política de cabeça erguida".

Lula chegou às 20h05 à quadra dos bancários, ao lado do prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho. Foi recebido pelos presidentes do PT, Rui Falcão, e da CUT, Vagner Freitas, e "escoltado" por militantes. A esta altura, quatro helicópteros sobrevoavam a quadra, na região central.

Candidatura

Os representantes dos movimentos sociais gritaram diversas vezes o nome de Lula como candidato à Presidência da República em 2018, mas ele deixou uma resposta no ar. "Eu digo para a Marisa (Letícia, sua mulher) todo dia: eu não vou morrer em casa. Eu não sei se vou ser candidato, mas queria dizer a todos que me ofenderam: se eles tiverem de me derrotar, vão ter de me enfrentar nas ruas deste país. Se alguém pensa que vai me calar com perseguições e denúncia, não sabe que eu sobrevivi à fome."

Para ele, esta sexta-feira foi o "dia da indignação". Lula citou as derrotas eleitorais para governador paulista e presidente da República, para criticar o comportamento dos adversários, que não se conformam com a derrota em 2014. "Em todas as vezes que sofri revezes, me comportei como democrata."

Lula também disser ter "orgulho" de ajudar a eleger, pela primeira vez, uma mulher para a Presidência da República, citando a fama de "machista" do operário metalúrgico. Mas fez aparentes críticas ao governo Dilma, ao observar que a economia tem de estar subordinada à política e que não se pode governar pensando em agradar ao mercado financeiro. "A solução para nós não está em fazer política para o mercado. A solução para nós, Dilma, é fazer com que o pobre volte a ser consumidor", disse o ex-presidente, que receberá a presidenta na manhã deste sábado (5), em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O Sindicato dos Metalúrgicos está preparando uma manifestação em defesa de Lula, a partir das 9h.

Para Freitas, da CUT, a democracia foi colocada em risco nesta sexta-feira. "Apurar, sim, mas golpe não admitimos", afirmou, pedindo aos "golpistas" que "ponham a mão na consciência" e "joguem o jogo da democracia".

O presidente da CTB, Adilson Araújo, disse que Lula está identificado com um "ciclo importante de mudanças no país", que inclui aumento da auto-estima e conquistas políticas, econômicas e sociais. "A direita começou a jogar toda a carga num clima de profunda instabilidade política." Entre as centrais sindicais, também participou do ato o presidente da Nova Central em São Paulo, Luiz Gonçalves, o Luizinho.

Lula citou vários programas sociais implementados em seu governo, lembrando que nesse período os trabalhadores e o salário mínimo tiveram aumentos acima da inflação. Destacou o crédito consignado, como proposta da CUT, o Luz para Todos e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Também lembrou quando tirou o país da pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e levou à retomada do crescimento econômico com distribuição de renda. “Como pode um presidente fazer uma política que gerou 22 milhões de empregos?”, indagou. Também lembrou ser o presidente que mais fez universidades e escolas técnicas no país.

“Fernando Henrique Cardoso não escreveu isso nos livros dele, pois eles acreditavam no meu fracasso. Só que eles não sabiam que eu não era eu, eu era vocês, que eu representava o sonho de milhões de pessoas acalentado durante anos”, afirmou. “Eles não tinham noção de que um presidente poderia receber hansenianos, catadores de papeis, e conceder aposentadorias", acrescentou o ex-presidente. "Quando eu cheguei na Presidência, um catador de papel disse que agradecia o fato de ter entrado no Palácio do Planalto uma única vez na vida”, afirmou, chorando. “Essas coisas mudam a história deste país, o panorama deste país.”