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Depoimento em Congonhas

Lula: 'Estou participando do caso mais complicado da história jurídica do Brasil'

No depoimento prestado à Polícia Federal no dia 4, no Aeroporto de Congonhas, ex-presidente dá aula de política a delegado e desabafa: "Espero que quando terminar isso aqui alguém peça desculpas"
por Redação RBA publicado 14/03/2016 19:57
No depoimento prestado à Polícia Federal no dia 4, no Aeroporto de Congonhas, ex-presidente dá aula de política a delegado e desabafa: "Espero que quando terminar isso aqui alguém peça desculpas"
Ricardo Stuckert/PR
Lula

"Presidente que se preze não discute dinheiro de campanha", disse Lula a delegado da Polícia Federal

São Paulo – No depoimento prestado à Polícia Federal no último dia 4, no Aeroporto de Congonhas, quando foi objeto de uma condução coercitiva a mando da Justiça Federal do Paraná, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva repetiu o que seus advogados e a assessoria de imprensa do Instituto Lula já vinham divulgando pontualmente a cada denúncia surgida na imprensa ou a partir de investigações do Ministério Público de São Paulo.

Ao responder inúmeras questões relativas ao tríplex do condomínio Solaris, no Guarujá, por exemplo, Lula foi didático: “Eu acho que eu estou participando do caso mais complicado da história jurídica do Brasil, porque tenho um apartamento que não é meu, eu não paguei, estou querendo receber o dinheiro que eu paguei, um procurador disse que é meu, a revista Veja diz que é meu, a Folha diz que é meu, a Polícia Federal inventa a história do triplex que foi uma sacanagem homérica, inventa história de triplex, inventa a história de uma off­shore do Panamá que veio pra cá, que tinha vendido o prédio, toda uma história pra tentar me ligar à Lava Jato.”

Ao falar do tríplex do Guarujá, Lula lembrou ao delegado da PF o caráter político e seletivo das investigações, e ironizou o fato de as informações sobre a mansão de praia construída ilegalmente em área de preservação ambiental em Paraty, supostamente ligada à família Marinho, terem desaparecido do noticiário (o presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, negou que o imóvel tenha relação com a família).

“Passados alguns dias descobrem que a empresa off­shore não era dona do triplex que dizem que é meu, mas era dono do triplex da Globo, era dono do helicóptero da Globo. Aí desaparece o noticiário da empresa de off­shore”, declarou Lula, em depoimento de 109 páginas, ao final das quais ele diz esperar que no futuro a verdade apareça e a justiça seja feita. “Eu espero que quando terminar isso aqui alguém peça desculpas. Alguém fale: ‘Desculpa, pelo amor de Deus, foi um engano’”.

O ex-presidente foi pressionado sobre doações de campanha, assunto que é fundamental à Lava Jato para tentar consolidar alguma acusação consistente que possa inclusive respingar na eleição de Dilma Rousseff. “Deixa eu lhe falar uma coisa, um presidente da República que se preze não discute dinheiro de campanha, se ele quiser ser presidente de fato e de direito ele não discute dinheiro de campanha”, afirmou ao delegado.

Diante da acusação de tráfico de influência no contexto da corrupção na Petrobras, Lula foi questionado de diversas maneiras, com perguntas indiretas e insinuações de favorecimentos a empreiteiras ou empresários.  Quando foi perguntado diretamente sobre como eram realizadas as nomeações na diretoria da companhia, ele deu uma rápida aula de política ao delegado. “Eu vou repetir o que eu já falei, não apenas o diretor da Petrobras, qualquer diretor ou qualquer pessoa que vai trabalhar no Governo Federal, quando você ganha uma eleição, eu vou explicar, quando você ganha uma eleição, sozinho, são as pessoas do partido majoritário que escolhem”, disse, acrescentando: “Escolhem o Delegado Geral da Polícia Federal, escolhem o Superintendente se quiser escolher o superintendente, escolhem o Procurador Geral da República. Tudo isso é o presidente que faz. Quando você trabalha num regime de coalizão, você sai de uma coalizão e você coloca ministros de vários partidos pra governar.”

No depoimento, Lula por várias vezes fez alusões ao clima de terror no país, que torna os cidadãos culpados por acusações veiculadas na mídia e presos muitas vezes sem ter respeitados os direitos à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência, inscritos na Constituição de 1988. “Hoje as pessoas são condenadas pelas manchetes dos jornais, primeiro você detecta o criminoso, aí você vai procurar o crime que ele cometeu, é assim que está a coisa aqui”, disse ao delegado, que em vários momentos do interrogatório utilizou reportagens da imprensa tradicional em suas questões. “Faz 7 anos que esse Brasil vive assim, na quinta-­feira alguém da operação Lava Jato vaza uma matéria para a Folha de S. Paulo, vaza uma matéria para O Estadão, vaza uma matéria para a Veja, vaza para a Época, aí trabalhar sábado e domingo, eu estou de saco cheio disso”, disparou Lula.

O delegado fez diversas perguntas sobre as palestras proferidas por Lula depois que deixou a presidência da República. O Instituto Lula divulgou, já em agosto de 2015, em meio a denúncias e insinuações, que desde 2011 Lula fez 70 palestras, contratadas, por meio da empresa LILS Palestras e Eventos Ltda., por 41 empresas e instituições, tendo sido “remunerado de acordo com sua projeção internacional e recolhendo os devidos impostos”.

No depoimento do dia 4, Lula disse ao delegado: “Quando eu deixei a presidência todas as empresas de palestras,que organizam palestras de Bill Clinton, Bill Gates, Kofi Annan, Felipe Gonzales, Gordon Brown, todas as empresas mandaram e­mail, mandaram telegrama, mandaram convite, telefonaram, que queriam me agenciar para fazer palestra”, respondeu Lula, ao ser questionado sobre a “quantidade média” de palestras proferidas por mês.

Leia aqui a íntegra do depoimento.