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Espelho invertido

Congressistas que articulam golpe contra Dilma são, no mínimo, contraditórios

Parlamentares que formaram frente pelo impeachment da presidenta destacam-se por histórico histriônico, denúncias de corrupção, busca por holofotes, trapalhadas midiáticas e votos contra os trabalhadores
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 12/09/2015 11h50, última modificação 12/09/2015 18h35
Parlamentares que formaram frente pelo impeachment da presidenta destacam-se por histórico histriônico, denúncias de corrupção, busca por holofotes, trapalhadas midiáticas e votos contra os trabalhadores
Antonio Cruz / ABr / Fotos Públicas
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Autointitulados "capitães da limpeza" acumulam históricos desmoralizantes e já provocam ironias Brasil afora

Brasília – O lançamento de uma "frente multipartidária" para coletar assinaturas com vistas a trabalhar pelo impeachment de Dilma chamou a atenção para alguns dos principais nomes que estão capitaneando o movimento, que de saída reuniu 53 assinaturas de parlamentares. Uma frase já antiga do deputado Chico Alencar (Psol-RJ), voltou a ser lembrada e repetida: "O Congresso não tem moral para liderar deposição de Dilma".

Do outro lado do mundo, em entrevista a uma TV de Portugal, o cronista e comediante Gregório Duvivier fez um desabafo que acabou propalado pelas redes sociais. Chamou de "falácia" a narrativa de que se faz uma "limpeza da corrupção" no país. "Infelizmente, os que querem tirar a Dilma do poder o fazem para poder roubar mais", afirmou Duvivier. "É como limpar o chão com bosta", ironizou.

Nos corredores do Congresso, os chamados "capitães" dessa "limpeza" costumam ser citados com adjetivos como "histriônicos", "loucos por holofotes" ou "inventores de factoides a qualquer custo". No exercício parlamentar, muitos apoiaram escancarar a terceirização no país, a redução da maioridade penal, a manutenção do financiamento empresarial a partidos, sem falar em posturas homofóbicas, xenofóbicas e estimuladoras da violência.

Jair Bolsonaro (PP-RJ) é lembrado pelo esforço em chamar a atenção de seus eleitores reacionários, em entrevistas ou em plenário. Está sendo processado por insultos proferidos contra a deputada Maria do Rosário (PT-DF), em que disse que "não a estuprava porque ela não merece". Bolsonaro votou pelo financiamento empresarial de campanhas e pela redução da maioridade penal.

Carlos Sampaio, líder do PSDB na Câmara (SP), é conhecido pelo seu estilo histriônico. Por ser originário do Ministério Público, é responsável por várias denúncias contra políticos da sua base eleitoral, e vez por outra leva um puxão de orelhas da direção nacional do partido por perder a medida nas atitudes e discursos. Nos bastidores, entre colegas com quem mantém contato direto, é considerado "trapalhão". Já chegou a ser chamado de "ridículo" e um "interessado desesperado por holofotes". Chegou a protocolar na Procuradoria-Geral da República representação por improbidade administrativa contra Dilma por causa do envio de cartões de Natal aos servidores públicos.

Sampaio também pediu explicações quando Alexandre Padilha, então ministro da Saúde, convocou cadeia de rádio e TV para falar da campanha nacional contra o HPV. Em outubro, apresentou pedido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para verificação da lisura das eleições presidenciais, solicitação que terminou sendo negada pelo órgão. Votou favorável ao financiamento privado de campanhas e à redução da maioridade penal. E faltou às votações do PL 4.330, sobre terceirização.

A deputada Mara Gabrilli (PSDB-RJ), respeitada por sua atuação por maior inclusão social para pessoas com deficiência, é constantemente criticada por derrapadas. É publicitária e psicóloga e está no segundo mandato na Câmara. Em maio do ano passado, durante visita feita por uma comissão de deputados à penitenciária da Papuda para verificar as condições em que se encontravam os ex-deputados José Dirceu e José Genoíno, Mara não pôde entrar na cela. Mesmo assim, saiu dizendo que os detentos estavam tendo privilégios. Suas declarações foram contestadas de imediato por colegas que também fazem oposição ao governo, como os deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Luiza Erundina (PSB-SP). "Mara nem sequer pôde entrar na sala. Como é que ela sai da penitenciária dizendo essas coisas que nós, que entramos, não vimos?", rebateu na época, Jean Wyllys.

"Encontramos uma cela modesta, mal conservada, cheia de infiltrações, gotejando água no corredor e na porta. E a deputada Mara Gabrilli não entrou no local porque sua cadeira de rodas não pôde passar", contestou também Erundina. "Ela (Mara) e o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA) acabaram desvirtuando o resultado da visita. Tentaram politizar uma inspeção. É um princípio sério para todos nós que lidamos com direitos humanos que não se deve partidarizar questões dessa natureza", afirmou o ex-deputado Nilmário Miranda (PT-MG).

O deputado Mendonça Filho (DEM-PE), ex-governador de Pernambuco por um período de nove meses, após a saída do então governador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) – de quem foi vice – é filho de um deputado federal por vários mandatos, José Mendonça, que iniciou carreira política na antiga Arena, morto em 2011. Vasconcelos, hoje deputado, também integra o grupo que pretende sacar Dilma do Planalto e é conhecido por ser um dos peemedebistas mais tucanos do Congresso. Votou contra o financiamento privado, mas a favor da terceirização.

Já Mendoncinha, como é chamado, chegou à Câmara no início dos anos 90. Em 1995, foi autor da emenda da reeleição para cargos executivos, que resultou anos depois na reeleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso – num processo em que a denúncia de compra de votos para assegurar a aprovação da emenda foi varrida para debaixo do tapete. Mendonça Filho também votou a favor do financiamento empresarial de campanhas e da redução da maioridade penal.

O deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) que ao lado do irmão, o ex-deputado e ex-ministro Geddel Vieira Lima, faz parte do grupo de peemedebistas que nada tem de base aliada ao governo, tem histórico de idas e vindas nas adesões e separações com o Executivo e brigas por cargos na Bahia desde o governo Lula. Como uma das últimas cartadas, os Vieira Lima articulam uma indicação para vice na chapa de reeleição do prefeito de Salvador ACM Neto, do DEM, em 2016. E, para não negar os seus, como diz um ditado nordestino, defendem as mesmas posições dos demais colegas citados acima durante as votações.

Pauderney Avelino (DEM-AM), que já foi do PTB e é um parlamentar com vários mandatos no Congresso, tem tido, nos últimos tempos, um discurso de cobranças por respostas à crise energética brasileira e ao combate à corrupção. Por outro lado, embora não tenha sido indiciado e as denúncias não tenham sido comprovadas, teve o nome envolvido no esquema de compra de votos para reeleição de FHC.

Darcísio Perondi (PMDB-RS), que é médico e entre as áreas em que atua na Câmara está a saúde, tem chamado a atenção da mídia nos últimos meses por ter destinado, ao lado do ex-deputado Alexandre Roso, R$ 3,5 milhões da cota individual de emendas para o Hospital Memorial Jaboatão, em Pernambuco, o que foge totalmente da base parlamentar dos gaúchos. Ambos, aliás, já teriam indicado R$ 7,4 milhões à instituição.

Embora o gesto não seja ilegal, é interpretado como um favor ou retribuição a empresários do setor hospitalar. Em entrevista ao jornal Zero Hora, o presidente do Memorial Jaboatão, José Leôncio de Carvalho Neto, disse ser amigo de Perondi e não viu impedimentos para receber ajuda de políticos não pernambucanos.

Estranho é que em Ijuí, terra de Perondi, o Hospital Bom Pastor tem feito eventos e campanhas para completar R$ 12 milhões necessários à conclusão de novas instalações. Já em São Leopoldo, onde Roso foi vice-prefeito, o Hospital Centenário teria cerca de R$ 1,4 milhão de dívida com fornecedores, além de R$ 4 milhões em energia elétrica.

Também na lista de "impichadores" está Paulo Pereira da Silva (SD-SP), o Paulinho da Força. Na última terça-feira (8) o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu ação penal contra ele sob acusação de crime contra o Sistema Financeiro Nacional, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Apesar da origem no movimento sindical, Paulinho votou a favor do projeto que autoriza empresas a substituir mão de obra direta por terceirizada em qualquer atividade. E também apoiou a presença do dinheiro empresarial nas eleições.

Outro que sempre levanta a bandeira contra o governo nos seus pronunciamentos, Alberto Fraga (DEM-DF), também foi alvo do STF. A segundo turma do tribunal abriu, esta semana, ação penal para investigar denúncia apresentada contra ele pelo Ministério Público, segundo a qual o parlamentar teria exigido e recebido R$ 350 mil para, em troca, assinar contratos entre o governo do Distrito Federal (GDF) e uma cooperativa de transportes, entre julho e agosto de 2008, época em que era secretário de Transportes do GDF.

"A lista é grande se formos nominar detalhes da biografia de vários destes parlamentares. O que importa é mostrar o quanto é contraditório o pedido por afastamento de uma presidenta, contra quem não existem acusações concretas, apesar da crise observada no país", diz o cientista político Alexandre Ramalho. "Sabemos que sempre há exceções, mas na maioria dos casos ou há críticas contra a corrupção vindas de pessoas que constantemente são citadas em denúncias ou de pessoas que se esforçam para aparecer em um holofote a qualquer custo. Ou, ainda, de políticos que pelo histórico de trapalhadas e votos em matérias conservadoras não possuem credibilidade".