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Calendário eleitoral dita decisões de Alckmin sobre seca em SP

Mesmo sem chuva, sem racionamento e sem redução de consumo na capital, Sabesp segue retirando tudo o que pode – e o que não deveria – do Sistema Cantareira
por Cibele Buoro, para a Carta Maior publicado 04/05/2014 14h25
Mesmo sem chuva, sem racionamento e sem redução de consumo na capital, Sabesp segue retirando tudo o que pode – e o que não deveria – do Sistema Cantareira
Luis Moura/Folhapress/arquivo rba
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Outrora abundante em água, região metropolitana de SP caminha para seca irreversível de reservatórios

São Paulo – De um lado está o terceiro maior parque industrial do país: a região das Bacias Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), formada por 76 cidades abastecidas pelo Sistema Cantareira. De outro o maior dos polos econômicos brasileiros: a Grande São Paulo, que compõe a Bacia Alto Tietê. As duas bacias somadas representam 14% do PIB nacional.

Envolvidas na maior escassez hídrica da história, as duas regiões sofrem pela falta de investimentos e planejamento por parte dos governos que administraram e continuam a administrar o estado de São Paulo. As populações da Grande São Paulo e da região do PCJ somam 22 milhões de pessoas e têm aumentado 1% ao ano. Isso representa 220 mil pessoas a mais a demandar água.

Na região da PCJ a disponibilidade hídrica em tempos normais é de 408 metros cúbicos por habitante/ano, enquanto a ONU já considera como crítico abaixo de 1.500 metros cúbicos por habitante/ano.

"A relutância em adotar o racionamento esgotou nossos recursos hídricos que foram desviados para a Grande São Paulo”, diz o diretor do Ciesp-Campinas, José Nunes Filho. Segundo ele, a Sabesp não buscou alternativas de abastecimento para São Paulo, apesar de ter assumido como compromisso a redução da dependência do Sistema Cantareira na outorga de 2004. "Enquanto aqui são negadas às empresas concessões para novas retiradas de água, a Grande São Paulo não enfrenta nenhuma limitação". Nunes Filho explica que o momento para as empresas da região do PCJ é de insegurança e retração da produção, enquanto a Sabesp tem altos percentuais de perda e em momento algum se falou em racionamento para São Paulo.

"Ao longo dos anos a gestão dos recursos hídricos no estado de São Paulo foi conduzida de forma rotineira, 'empurrando com a barriga' até que chegamos a essa situação", avalia o professor do Departamento de Ciências Políticas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Valeriano Mendes Ferreira Costa.

Explica ele que o calendário eleitoral pesa sobre as atitudes do governador Alckmin. Apesar de a economia da região do PCJ ter crescido mais, a relevância política de São Paulo fala mais alto. "São Paulo é uma megametrópole e Alckmin não quer racionamento por lá e por isso vai tirar água do Cantareira até quando puder e depois vai ver o que faz".

Costa afirma que Campinas e a região do PCJ, que são duas forças econômicas, não vencerão o debate e prevalecerá a relevância política da região metropolitana da capital. Até porque, defende, o governador Alckmin tira água do Cantareira também por faltar mobilização política por parte dos prefeitos das cidades que formam a região do PCJ. "O custo político do que está acontecendo é alto e a maioria dos prefeitos apoiam as decisões de Alckmin e calam a boca".

A razão do apoio, explica o professor da Unicamp, esbarra na dependência dos municípios pelos recursos do governo do Estado. São demandas na área de segurança, mobilidade urbana, investimentos em várias áreas que um estado 'rico' como São Paulo pode atender. "Os prefeitos estão em situação de fragilidade e por isso não se indispõem contra o governador, com exceção das gestões do PT". Para Costa, o fato de os prefeitos não pressionarem Alckmin sobre o racionamento em São Paulo tem explicação muito mais política do que técnica, quando o correto seria que esta última prevalecesse.

Na opinião do diretor do Ciesp-Campinas, os prefeitos não têm opção. "O mal já foi feito e continua sendo feito (referindo-se às retiradas de água para abastecer São Paulo). Racionalizar era a medida a ser tomada e agora estamos nessa situação crítica e, ainda, vão usar a água do volume morto... isso vai matar o Sistema, que não se renovará nunca mais", sentencia.

A resistência a todo custo de decretar racionamento em ano eleitoral só traz mais prejuízos econômicos à região do PCJ, avalia Costa, professor da Unicamp. "Enquanto os números de queda da atividade industrial e suas consequências não aparecem no noticiário, o ônus político também não aparece e, de fato, a economia está comprometida, uma vez que as empresas, conhecendo o problema de escassez hídrica do Sistema Cantareira, retraem ou suspendem seus investimentos".