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Memória

Família de João Goulart tenta concretizar memorial em Brasília

A expectativa é de pelo menos lançar a pedra fundamental ainda este ano. Filho do ex-presidente ressalta que não se trata de um espaço dedicado a Jango, que já existe em São Borja
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 13/04/2014 10h34, última modificação 15/04/2014 22h45
A expectativa é de pelo menos lançar a pedra fundamental ainda este ano. Filho do ex-presidente ressalta que não se trata de um espaço dedicado a Jango, que já existe em São Borja
reprodução
memorial

Obra tem a mesma assinatura do arquiteto do Memorial JK e foi o último trabalho de Oscar Niemeyer

São Paulo – Derrubado por um golpe há 50 anos, o presidente João Goulart deixou o Brasil em abril de 1964 e só voltou morto ao país, em dezembro de 1976. Mesmo assim, as autoridades brasileiras dificultaram ao máximo a entrada do corpo, para o enterro na terra natal de Jango, a cidade gaúcha de São Borja, de onde também saiu Getúlio Vargas. No final do ano passado, o corpo de Goulart foi exumado para a realização de exames – que tentarão definir se ele foi ou não envenenado – e levado para Brasília, para onde o político nunca mais retornara e seu nome era quase tido como tabu. Posteriormente, os restos mortais foram levados de volta a São Borja. Agora, a família trava nova batalha, para concretizar a obra do Memorial da Liberdade, no Eixo Monumental, perto do memorial dedicado a Juscelino Kubitschek.

Filho do ex-presidente, João Vicente Goulart ressalta que não se trata de um espaço para divulgar a figura de Jango. "Não é um Museu João Goulart", afirma, lembrando que já existe um local com esse objetivo, inaugurado em 2009, exatamente em São Borja, na casa onde ele nasceu e cresceu.

A obra tem a mesma assinatura do arquiteto do Memorial JK. "Foi o último trabalho do professor Oscar Niemeyer", diz João Vicente. Segundo ele, o projeto inclui uma cúpula com uma seta vermelha na qual se lerá a inscrição 1964. "Para que Brasília saiba que naquele ano houve uma ruptura institucional."

O próprio Niemeyer fala sobre isso ao justificar seu projeto: "Quem conhece a história de João Goulart, sabe como ele foi violentamente afastado do cargo com o golpe militar de 1964, que durante vinte anos pesou sobre o nosso país. E isso eu procurei marcar na minha arquitetura, da forma mais clara, com uma grande flecha vermelha a atingir a cúpula projetada. Dentro do amplo salão de exposições seriam explicadas ao público as razões desse deplorável acontecimento, as pressões do governo norte-americano que o reacionarismo de direita naquela época procurava atender".

Diretora do Instituto Presidente João Goulart e esposa de João Vicente, Verônica Fialho se emociona ao falar do projeto – e de Jango. "Este ano, temos colhido muitas vitórias. A família nunca deixou de lutar por essa história, por esse resgate."

Neste momento, o instituto deve iniciar captação de recursos para a obra civil. Depois de longas negociações, foi feita parceria com a Secretaria de Cultura do Distrito Federal, que cederá o uso do terreno (mas poderá utilizar o local durante 120 dias por ano). O projeto, que tem apoio da Lei Rouanet (Lei nº 8.313, de 1991), de incentivo à cultura, teve muitas idas e vindas nas negociações com diferentes gestões do governo do Distrito Federal. A expectativa é de pelo menos lançar a pedra fundamental ainda este ano.

O próprio instituto, que está completando dez anos, é uma forma de divulgar a obra e aspectos relacionados ao governo João Goulart: o site inclui documentos, entrevistas, vídeos e áudios relacionados àquele período. Em parceria com a TV Senado, também foi produzido, em 2008, o documentário Jango em 3 Atos.

Até o final do ano, deverão ser lançados dois livros, um de memórias dos tempos de exílio, escrito pelo próprio João Vicente. "Um livro de histórias, não de historiador", define. O outro reunirá discursos e entrevistas do ex-presidente.