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PMDB aposta em nova 'onda católica' para eleger Picciani no RJ

Candidato de Sérgio Cabral passa a se apresentar como "católico fervoroso" para tentar criar "Fla-Flu com Crivella
por Maurício Thuswohl, especial para a Rede Brasil Atual publicado 21/09/2010 17h23, última modificação 21/09/2010 17h25
Candidato de Sérgio Cabral passa a se apresentar como "católico fervoroso" para tentar criar "Fla-Flu com Crivella

Picciani quer repetir mobilização que, em 2006, fez Dornelles bater Jandira Fegalli (Foto: André Lobo/DS Comunicação/Divulgação)

Rio de Janeiro – A direção do PMDB do Rio de Janeiro decidiu adotar o embate religioso como estratégia para levar o candidato do partido, Jorge Picciani, ao Senado. Quarto colocado nas pesquisas mais recentes, em situação de empate técnico com o terceiro colocado Cesar Maia (DEM), Picciani agora deve reforçar, em sua propaganda eleitoral, a condição de "católico fervoroso", com o objetivo de atrair os votos do setor do eleitorado que rejeita o candidato Marcelo Crivella (PRB), que aparece em segundo lugar nas pesquisas e é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

A decisão de apostar agora na polarização religiosa para dar o impulso final a seu candidato foi tomada durante reunião do PMDB realizada no sábado (18). Na semana passada, a legenda fechou acordo com o PT para unificar a campanha de Picciani à do petista Lindberg Farias (primeiro colocado nas pesquisas).

"O fato é que existe uma grande parcela do eleitorado que não vota em Cesar (Maia), mas também rejeita Crivella por ele ser evangélico", afirma um parlamentar e dirigente peemedebista que pede para manter a identidade em sigilo. "Apresentar o Picciani como candidato dos católicos pode chamar o voto útil contra Crivella. O ideal para nós agora é que o embate entre Picciani e Crivella se transforme numa espécie de Fla-Flu entre católicos e evangélicos pela disputa do Senado", completa.

Mostrar a cara abertamente em um embate eleitoral com tons religiosos realmente não é tarefa das mais simples. Em todo caso, os membros da direção do PMDB que apostam nesse caminho sabem que existe um precedente para a "onda católica", pois a polarização religiosa foi uma tática que deu certo há quatro anos, durante as eleições de 2006 para o Senado.

Naquela ocasião, a candidata Jandira Feghali (PCdoB) liderava com certa folga todas as pesquisas de opinião até duas semanas antes da eleição, mas a intervenção em massa dos católicos acabou fazendo com que Francisco Dornelles (PP) ultrapassasse a comunista nos últimos dias de campanha e vencesse a disputa.

O calvário de Jandira junto aos eleitores católicos há quatro anos foi causado por sua posição sobre a legalização do aborto. Sob esse pretexto, diversas paróquias e dioceses começaram a fazer aos fiéis apelos para que não votassem na candidata comunista. Esse movimento cresceu de uma tal forma que, dias antes do pleito, diversos eleitores receberam telefonemas em casa com mensagens dizendo que Jandira defendia o aborto e pedindo votos para Dornelles.

Segundo denúncia apresentada pelo PCdoB, até mesmo durante as missas, alguns padres pediam aos fiéis a rejeição à Jandira. O resultado daquela ofensiva se refletiu nas urnas, com 45,8% dos votos dos fluminenses sendo destinados a Dornelles e 37,5% à Jandira.

Apesar da cruzada desejada pelo PMDB, ainda não há sinais concretos de que a máquina católica que ajudou o candidato do PP em 2006 se movimente para ajudar Picciani. Por outro lado, a ajuda da máquina da Iurd e de outras agremiações evangélicas a Crivella cresce a cada dia. Matéria publicada pelo jornal O Globo afirma que "bispos, obreiros, pastores e voluntários" da Universal estariam pedindo votos para Crivella em frente aos templos, na entrada e na saída dos cultos.

Crivella rejeita as acusações de uso da máquina da instituição. "Não há e nunca houve nenhuma orientação do nosso partido em relação à Igreja Universal nem a nenhuma outra igreja evangélica. Tenho muitos votos entre os evangélicos, mas acho que campanha dentro de igreja tira mais votos do que dá", afirma o candidato do PRB.

Alinhamento evangélico

Mesmo sendo um nome forte, Crivella não tem o alinhamento automático da maioria das correntes evangélicas que atuam no Rio de Janeiro. Antes da campanha, o ex-governador Anthony Garotinho, que pretendia concorrer ao governo estadual pelo PR, chegou a afirmar que convidara o pastor Manoel Ferreira, dirigente nacional da Assembléia de Deus, para concorrer ao Senado em sua chapa. Crivella somente se livrou da duríssima concorrência depois que Ferreira conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e definiu seu apoio à Dilma Rousseff (PT), desistindo de concorrer ao Senado.

Crivella terá de disputar com Picciani o voto dos eleitores cristãos, mas, ao menos, tem garantida a simpatia de Lula. O presidente pede votos para o candidato do PRB desde o início da campanha, mas somente na semana passada aceitou que o PMDB utilizasse sua imagem na propaganda de Picciani.

O candidato peemedebista ao Senado anda implorando para Lula gravar uma mensagem de apoio, mas até agora nada. Para Crivella, no entanto, Lula já manifestou sua disposição de gravar uma segunda mensagem, além da que já está sendo veiculada. Com fé em Deus e rezando para Lula, Picciani espera chegar à vitória no dia 3 de outubro.