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Serra fica 'mais paulista' após crescimento de Dilma

No total, 59% da agenda de Serra foi em São Paulo. Após início de agosto, quando pesquisas mostraram ampliação gradativa da vantagem da petista, tucano faz menos viagens para fora do Sudeste
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 14/09/2010 17h20
No total, 59% da agenda de Serra foi em São Paulo. Após início de agosto, quando pesquisas mostraram ampliação gradativa da vantagem da petista, tucano faz menos viagens para fora do Sudeste

Candidato tucano tem se dedicado a fazer campanha em terras paulistas (Foto: Nacho Doce/Reuters)

São Paulo – Transcorridos dois meses da campanha eleitoral e a três semanas da votação do primeiro turno, a análise das agendas dos candidatos à Presidência da República mais bem colocados nas pesquisas mostra que os oposicionistas José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) concentraram atividades na capital paulista, enquanto Dilma Rousseff (PT) esteve muitos dias em Brasília (DF) e ficou sem compromissos anuciados em 20% dos 69 dias de campanha. No caso do candidato tucano, a tendência a paulistizar as ações de campanha se acirrou a partir do crescimento da concorrente governista.

Mapa da campanha de Serra (PSDB) (Foto: Reprodução)

A cobertura da Rede Brasil Atual utiliza mapas que dão a dimensão da importância dada a cada lugar – os dados foram coletados a partir de 6 de julho, data do início oficial do período eleitoral. Em linhas gerais, como já havia mostrado um levantamento ao final do primeiro mês, o Sudeste recebe  prioridade de todos os postulantes ao Palácio do Planalto. A opção está ligada ao fato de se tratar da região que reúne os três maiores colégios eleitorais: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A montagem de palanques estaduais, os levantamentos de intenções de voto e as mudanças de intensidade nas alianças partidárias fazem com que a escolha das viagens de cada candidatura vá oscilando ao longo do tempo. “As campanhas presidenciais, como têm bastante recurso, tendem a seguir um determinado roteiro em função da posição do candidato e de suas propostas políticas”, resume Emanuel Publio Dias,  especialista em Marketing Político e Diretor Corporativo da ESPM.

Mapa da campanha de Dilma (PT) (Foto: Reprodução)

O professor da ESPM entende que não houve uma alteração substancial na dinâmica das campanhas das eleições passadas para esta. No geral, a televisão tem papel importante, mas precisa ser somada a um conjunto de ações. "Tudo concorre para a construção de um discurso, um vai estimulando o outro. Não há nenhum evento que consiga, por si só, provocar uma determinada mudança que seja visível numa campanha nacional como a do Brasil". Com isso, manter viagens pelo país continua tendo importância para a conquista de votos, ainda que a internet venha gradativamente surgindo como um elemento a mais no rol de armas eleitorais.

São Paulo no centro

A candidata do PV, Marina Silva, é a que passou mais tempo em um só lugar: 60% do período no Sudeste – 53% do total em São Paulo. José Serra (PSDB), que passou 36% do tempo em São Paulo, concentrou 59% das atividades no Sudeste.

Mapa da campanha de Marina (PV) (Foto: Reprodução)

Ainda que os motivos oficiais apenas possam ser apontados pela própria coordenação de campanha de Marina, é possível imaginar que o viés paulista da agenda seja explicado por uma visão de que a chapa do PV dificilmente terá condições de chegar ao segundo turno. “Tendo em vista a formação política da chapa dela, imagino que tenha havido um deliberado esforço de se aproximar das lideranças empresariais do país, que estão majoritariamente em São Paulo”, detalha Dias.

Se, por um lado, a campanha da senadora focou desde o começo no estado, a do ex-governador teve rumo diferente. Até a primeira semana de agosto, Serra rodou um pouco mais pelo país. Teve 7 agendas no Nordeste, 20% dos primeiros 36 dias de atividades. O Sudeste, naquele momento, concentrava 38% das forças do tucano, que teve ainda 5 eventos no Sul do país.

À medida que Dilma cresceu nas pesquisas, no entanto, a campanha de Serra passou a focar mais na região dos maiores colégios eleitorais e, em especial, em São Paulo. Depois da primeira semana de agosto, quando os institutos de pesquisa tomados em conta pelo PSDB mostraram vantagem de oito pontos para Dilma, o ex-governador raramente foi a outras regiões. Teve apenas uma passagem por Sul, Nordeste e Norte. Em 20 dos últimos 35 dias, ele cumpriu agenda em São Paulo – em algumas dessas vezes, Serra definiu seus compromissos na última hora, “entrando” na agenda do candidato de seu partido ao governo estadual, Geraldo Alckmin.

Como a campanha de Serra não tem limitações de deslocamento provocadas por falta de verbas, os motivos são outros. No geral, o tucano tem ido aos estados nos quais é chamado por correligionários. A dificuldade encontrada para aparecer em programas de televisão de tucanos e de democratas em outros estados pode ter se transferido para os eventos nas ruas.

Devido à popularidade do presidente Lula, avaliado como ótimo ou bom por quase 80% da população, os oposicionistas têm evitado ataques diretos ao governo desde o início da campanha – e aparecer junto a um nome associado diretamente à figura de oposição, como Serra, não tem sido bom negócio. Foi notícia recorrentes situações em que candidatos do PSDB deixaram Serra de lado em suas propagandas eleitorais.

Em silêncio durante as últimas semanas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso manifestou recentemente que a campanha de Serra não estava em sintonia com o país. Em entrevista à IstoÉ, FHC manifestou que a “marquetagem” anda atrapalhando o candidato do PSDB. “Estamos fazendo campanhas engessadas, porque a maior preocupação no campo de batalha é a couraça. Se você conseguir quebrar isso, muda o jogo”.

Nordeste deixado para Dilma

O Nordeste, região na qual o PT tem recebido boas votações, era visto como prioridade da oposição antes do começo da campanha. A consolidação de Dilma Rousseff na região (63% das intenções de votos segundo o Datafolha) e a perda de força de DEM e de PSDB na região, no entanto, forçaram Serra a deixar em segundo plano a região. Somados, os nove estados concentram parte grande do eleitorado. Os palanques estaduais tampouco seriam interessantes: se as eleições fossem hoje, candidatos da base aliada ao governo federal venceriam em oito estados nordestinos.

De agosto a 13 de setembro, data na qual foi fechado o levantamento, foram apenas duas visitas de Serra à região, ambas à Bahia. “O Nordeste está tão majoritariamente decidido pelo Lula que ele não precisa ir muito lá. Por outro lado, os outros não vêem no Nordeste um terreno fértil para sua pregação em busca de votos”, explica Dias.

A candidata do PT à Presidência, na ponta das pesquisas, segue outro ritmo. Dilma Rousseff tem tido uma agenda menos intensa em termos de viagens. Passa a maior parte do tempo entre São Paulo, concentração do maior eleitorado e estado para o qual Lula tem pedido prioridade, e Brasília, onde fica sua organização de campanha.

Na capital federal, em boa parte dos dias a ministra tem tido agenda apenas de conversas com a imprensa, sem eventos com a população. Um em cada cinco dias foram sem agenda pública, um número alto, mesmo considerando que Dilma cancelou compromissos durante alguns dias na última semana devido aos preparativos para o nascimento do neto.

Colaborou Virgínia Toledo