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Lindberg e Picciani travam luta tensa e acirrada pelo Senado no RJ

Aparente facilidade para reeleição de Cabral ao governo do estado leva toda tensão à disputa por uma das vagas de senador. Favoritismo de Cesar Maia deixa apenas uma vaga para três candidatos lulistas
por Maurício Thuswohl, especial para a Rede Brasil Atual publicado 12/07/2010 12h23, última modificação 12/07/2010 12h30
Aparente facilidade para reeleição de Cabral ao governo do estado leva toda tensão à disputa por uma das vagas de senador. Favoritismo de Cesar Maia deixa apenas uma vaga para três candidatos lulistas

Três candidatos apoiam Dilma e Lula, mas disputam apenas uma das vagas ao Senado (Fotos: Divulgação Picciani; Ricardo Stuckert/Pr; Geraldo Magela/Agência Senado)

Rio de Janeiro – O centro das atenções nas eleições deste ano no Rio de Janeiro foi transferido da disputa ao governo do estado para a das vagas ao Senado. A desistência de alguns dos pré-candidatos de concorrer criou um cenário favorável à reeleição de Sérgio Cabral (PMDB) ao cargo, mas estabeleceu uma briga acirrada pelas duas vagas. O arranjo político contribui também para tornar mais sólida a aliança entre PT e PMDB no Rio, apesar de não eliminar a tensão que cerca a caça aos votos por Lindberg Farias (PT) e o presidente licenciado da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o deputado peemedebista Jorge Picciani (PMDB).

A decisão do ex-governador Anthony Garotinho (PR) de não concorrer ao governo em função de entraves judiciais encerrou o mal-estar criado entre Cabral e a candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff. A situação havia se estabelecido desde o anúncio de que a indicada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiria nos palanques dos dois candidatos durante a campanha eleitoral no estado.

 

Foi o segundo e decisivo passo rumo à unificação dos palanques de Dilma no estado em torno da chapa do PMDB. Antes, Lindberg, ex-prefeito de Nova Iguaçu, havia sido convencido a recuar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela direção nacional do PT. Em troca, tem a oportunidade de concorrer ao Senado.

As direções estaduais de PT e PMDB mantém relações tensas. Lindberg e Picciani são antigos desafetos. Para complicar, de acordo com pesquisas de opinião realizadas até aqui, o ex-prefeito da capital, Cesar Maia (DEM), é indicado como o candidato mais bem colocado para o Senado. Maia apoia Fernando Gabeira (PV) ao governo e de José Serra (PSDB) para a Presidência.

Isso significa que sobra apenas uma das vagas. Além do petista e do pemedebista, há ainda Marcelo Crivella (PRB), que tenta a reeleição e conta com a simpatia de Lula. Ele é quem aparece como segundo colocado nas pesquisas. Nos últimos meses, o presidente tentou, sem sucesso, encaixar Crivella na chapa de Cabral e, em mais de uma ocasião, deixou claro seu apoio à reeleição do aliado.

O ideal para o PT seria uma chapa para o Senado no Rio formada por Lindberg e Crivella. Entre os petistas, havia o entendimento de que, já tendo indicado o cabeça da chapa e também o vice (Luiz Fernando Pezão), o PMDB pudesse abrir mão de disputar o Senado. Essa pretensão, no entanto, esbarrou na força política de Picciani, que controla o partido no Rio e é figura influente na máquina da administração estadual desde o governo Garotinho – filiado à legenda durante seu mandato.

Assim, de fora da chapa de Cabral, Crivella conta com o apoio de Dilma e Lula para alavancar sua candidatura avulsa. Na prática, no entanto, a preferência do governador por Picciani e a declarada simpatia de Lula por Crivella acenderam o sinal de alerta entre os petistas fluminenses.

Tempo de tevê

A prova da relação de desconfiança entre PT e PMDB no Rio veio com a decisão petista de adiar para a última hora sua convenção estadual, remarcada para 29 de junho, dia seguinte à convenção peemedebista: “Existia em setores do partido o medo de que o PMDB não cumprisse o acordo de apoiar o Lindberg”, revelou o presidente do PT no Rio, deputado federal Luiz Sérgio.

A desconfiança petista surgiu depois que o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deu entrada em uma consulta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se os partidos poderiam fazer coligações distintas para o governo e para o Senado. Essa consulta, segundo os petistas, teria o objetivo de permitir que a direção peemedebista costurasse uma aliança mais ampla em torno de Picciani e deixasse com Lindberg o apoio somente do PCdoB. Na prática, isso significaria um tempo de propaganda na tevê muito maior para o candidato do PMDB.

O início de incêndio entre os dois partidos foi debelado assim que o PMDB concordou em dividir por igual o tempo de propaganda dos dois candidatos ao Senado. O acordo foi selado sob as bênçãos de Cabral no Palácio Guanabara, mas, ainda assim, o PT decidiu escalar um advogado somente para acompanhar o registro da ata que oficializou a aliança no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). “O PT solicitou ao governador que o nosso jurídico acompanhe o registro da ata. Trata-se de um processo de consolidação da aliança”, afirmou Luiz Sérgio, no dia seguinte à reunião da direção petista com o governador.

Primeira semana

Na primeira semana oficial de campanha, Sérgio Cabral se empenhou para ter a companhia de Lindberg e de Picciani em quase todos os eventos públicos dos quais participou. Durante um corpo-a-corpo com os eleitores realizado domingo (11) na cidade de Duque de Caxias, o governador pediu durante todo o tempo votos para os dois candidatos ao Senado de sua chapa: “Estamos precisando eleger nossos dois senadores. A Dilma precisa. Imagina se a Dilma tiver no Senado aquele ex-prefeito ou qualquer um outro que fale mal do governo federal? Queremos senadores que defendam o Rio de Janeiro, e Lindberg e Picciani cumprem esse papel”, disse.

Anteriormente, os dois candidatos ao Senado estiveram lado a lado com Cabral nas convenções do PSB e do PCdoB, além de terem sido vistos juntos em eventos de rua na companhia de Dilma e de figuras políticas diversas como o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), o ex-governador Moreira Franco (PMDB) e o presidente da Câmara dos Deputados e vice de Dilma Michel Temer (PMDB).

Em alguns desses encontros, Picciani e Lindberg ensaiaram pedir votos um para o outro e até mesmo trocaram elogios, mas o desconforto de ambos era evidente. Segundo assessores, ainda é preciso cicatrizar algumas feridas. Em abril, quando deixou a Prefeitura de Nova Iguaçu, Lindberg acusou Picciani de ser o responsável pelo vazamento para a imprensa da informação de que a Justiça havia pedido a quebra de seu sigilo bancário no âmbito das investigações sobre um suposto esquema de desvio de verbas na prefeitura.

Lindberg, por sua vez, sempre lançou suspeitas sobre a notável evolução de patrimônio do presidente da Alerj, que declarou ao TRE em 2010 um patrimônio de R$ 11 milhões, conquistado, em boa parte, devido à criação de gado em suas fazendas.

Até pouco tempo atrás, Lindberg mantinha a guarda alta: “Estou preparado para a paz, mas também para a guerra”, disse, mais de uma vez. Em outros momentos, o petista afirmava: “O Lula vai pedir votos para mim e para o Crivella”. Nesse início de campanha, no entanto, ainda não aconteceram embates maiores entre as militâncias do PT e do PMDB por conta da disputa pelo Senado: “Temos consciência da importância maior da eleição da Dilma”, afirma Cabral, deixando subentendida a “importância” da sua própria reeleição.