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Economista critica tentativa de tirar Serra da oposição a Lula

João Sicsú, diretor do Diretoria de Macroeconomia do Ipea, acusa oposição e veículos de mídia de tentar fazer Serra parecer situação
por anselmomassad publicado , última modificação 12/07/2010 15h46
João Sicsú, diretor do Diretoria de Macroeconomia do Ipea, acusa oposição e veículos de mídia de tentar fazer Serra parecer situação

São Paulo – Para João Sicsú, diretor de Macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a tentativa de apontar um cenário político "pós-Lula" de continuidade tenta despolitizar o voto para presidente da República. Em artigo publicado na edição de abril da revista Inteligência (Ano XII, Nº 49, 2º trimestre de 2010) intitulado "Revisões do desenvolvimento", o economista vê a tentativa de repelir a pecha de oposição ao governo Lula é a única alternativa ao PSDB e seus aliados.

"O voto dado com consciência política é sempre um voto pela mudança ou pela continuidade", escreve Sicsú. "Portanto, a tentativa de construir um cenário pós-Lula (de continuidade independentemente dos eleitos) tem o objetivo de despolitizar o voto, isto é, retirar do voto a sua possibilidade de fazer história", prossegue.

O conceito do "pós-Lula" criticado por Sicsú seria a tentativa de impedir que a avaliação do governo Lula seja feita comparando-o com seus antecessores e vetar que os candidatos ocupem papéis de situação e de oposição. "O termo 'oposição' deveria ser usado pelo PSDB com um único sentido: 'oposição a tudo o que está errado' – e não oposição ao governo e ao projeto do presidente Lula", explica.

Ele atribui à imprensa e à coordenação de campanha do tucano a estratégia de "vender" a ideia de que "a história é feita pela própria história". "A construção de um cenário pós-Lula (com essas características) é a única alternativa do PSDB e de seus aliados, já que comparações de realizações têm números bastante confortáveis a favor do projeto do presidente Lula quando comparados com as '(não)realizações' (sic) do presidente Fernando Henrique Cardoso", vaticina.

Segundo ele, Dilma nunca é qualificada nas reportagens da mídia como candidata do governo ou do presidente Lula. O principal beneficiado desse tratamento dado às eleições seria José Serra (PSDB), mas também Marina Silva (PV) teria vantagens. "Serra e Marina não são apresentados como candidatos da oposição, mas sim como candidatos dos seus respectivos partidos políticos", constata. "Curioso é que esses mesmos veículos de comunicação quando tratam, por exemplo, das eleições na Colômbia se referem a candidatos do governo e da oposição", compara.

Dois projetos

Sicsú defende, ainda no artigo, que o Brasil assistiu, nos últimos 20 anos, a uma disputa de dois projetos para o país. O representado pelo PSDB e pelos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso é qualificado como "projeto estagcionista, que aprofundou vulnerabilidades sociais e econômicas". Já o desenvolvimentismo, de Lula, "busca, acima de tudo, o crescimento social do indivíduo, portanto, é um projeto desenvolvimentista – além de ser ambientalmente sustentável e independente no plano internacional", elogia.

Ele pondera que o projeto de desenvolvimento liderado pelo presidente Lula ficou mais evidente em seu segundo mandato, depois de superadas "heranças do período FHC" que contaminaram, na visão do economista, a primeira gestão.

"Os resultados da aplicação do modelo desenvolvimentista são muito bons quando comparados com aqueles alcançados pelo projeto aplicado pelo PSDB e seus aliados. Contudo, ainda estão distantes das necessidades e potencialidades da economia e da sociedade brasileiras. Logo, tal modelo precisa ser aperfeiçoado – e muito", reconhece.

Ele conclui que "o que está em disputa, particularmente neste ano de 2010,
são projetos, já testados, que pregam continuidade ou mudança". Porém, defende que um eventual mandato que mantenha as políticas desenvolvimentistas adotadas no segundo mandato de Lula adote medidas de planejamento para garantir esse traço a todas as políticas públicas. "Sem planejamento, uma trajetória desenvolvimentista promissora pode se transformar em 'salto de trampolim'", arremata.

 

Comparação

Desenvolvimentismo

Estagnacionismo

Objetivos econômicos

  1. Manutenção da inflação em níveis moderados
  2. Administração fiscal que busca o equilíbrio das contas públicas associado a programas de realização de obras de infraestrutura e a políticas anticíclicas
  3. Redução da vulnerabilidade externa e algum nível de administração cambial;
  4. Ampliação do crédito
  5. Aumento do investimento público e privado.



  1. Estabilidade econômica, que era sinônimo, exclusivamente, de estabilidade monetária, ou seja, o controle da inflação era o único objetivo macroeconômico
  2. Abertura financeira ao exterior e culto às variações da taxa de câmbio como a maior qualidade de um regime cambial
  3. Busca do equilíbrio fiscal como valor moral ou como panaceia, o que justificava corte de gastos em áreas absolutamente essenciais
  4. Privatização de empresas públicas sem qualquer olhar estratégico de desenvolvimento

Objetivos sociais

  1. Geração de milhões de empregos com carteira assinada
  2. Melhoria da distribuição da renda
  3. Recuperação real do salário mínimo



  1. Desmantelamento do sistema público de seguridade social
  2. Criação de programas assistenciais fragmentados e superfocalizados
  3. Desmoralização e desmobilização do serviço público

 Fonte: Revisões do desenvolvimento, edição de abril, maio e junho, de João Sicsú.

Comparações


FHC 1 (1995-1998)

FHC2 (1999-2002)

Lula 1 (2003-2006)

Lula 2 (2007-2010)

Inflação
(variação % do IPCA)
Média por ano no período1

9,7

8,8

6,4

4,8*

Criação de empregos com carteira assinada
Média por ano no período (em mil)2

-296

454

1.163

1.466*

Recuperação real do SM no período
em relação ao governo anterior
3

17

15

19

31

Valor médio real de cada benefício
pago pelo INSS no período
(em reais)4

481,66

532,02

599,49

657,24

Fonte: Revisões do desenvolvimento, edição de abril, maio e junho, de João Sicsú.