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Colômbia elege novo presidente neste domingo

Disputa é entre Iván Duque (Centro Democrático) e Gustavo Petro (Colômbia Humana). A partir de 7 de agosto, pela primeira vez, uma mulher ocupará a vice-presidência
por Guillermo Javier González* publicado 16/06/2018 18h31
Disputa é entre Iván Duque (Centro Democrático) e Gustavo Petro (Colômbia Humana). A partir de 7 de agosto, pela primeira vez, uma mulher ocupará a vice-presidência
Reprodução/Facebook
eleições na colômbia

Iván Duque na reta final da campanha das eleições da Colômbia

Opera Mundi  Será a quinta vez que as eleições colombianas serão disputadas em um segundo turno, desta vez com a novidade de que as diferenças entre os aspirantes não são só de forma, mas de conteúdo.

Nas eleições de maio, Duque e Petro somaram um volume eleitoral superior aos 12 milhões de votos. Adicionalmente, mais de 6 milhões e meio de votantes se decantaram por algum dos outros candidatos — majoritariamente por Sergio Fajardo —. Em boa medida, poderia ser dito que agora eles e os que decidiram não votar em 27 de maio serão os quem vão decidir entre estes dois projetos opostos de país.

Tentou-se plantar midiaticamente que esta porção da população pode se abster de ir às urnas ou manifestar sua não adesão a nenhuma das duas propostas mediante o voto em branco. É importante assinalar que, apesar de que no primeiro turno o voto em branco pode obrigar a repetir as eleições — caso correspondam a mais da metade dos votos válidos — no segundo turno, esta potencialidade não existe, não sendo mais do que um simbolismo que em nada afeta os resultados.

Esta não é uma eleição qualquer e os colombianos o sabem, por isso têm registrado uma participação superior em 6 milhões os votos depositados no primeiro turno de 2014, atingindo 53,38% do padrão eleitoral, isto é, a maior desde o segundo turno de 1998 — se tivermos em conta só primeiros turnos, foi a maior em mais de 40 anos.

As diferenças radicais entre os programas dos candidatos não permitem desviar a atenção da campanha. Há muito em jogo e um deles governará a Colômbia pelos próximos quatro anos, razão pela qual todos devem tomar partido. Muitos políticos e personalidades já o fizeram, manifestando publicamente seu apoio a um ou a outro candidato.

O candidato apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, tal como era de se esperar, tem contado com a aprovação das elites e dos partidos tradicionais. Tanto é assim que, inclusive, tem recebido o aval do Partido Liberal (PL) — que se desentendeu com Uribe e o Centro Democrático, especialmente devido aos Acordos de Paz — o qual anunciou sua aproximação a Duque através de seu diretor, o ex-presidente de Colômbia, César Gaviria. Assim como o PL, tanto o Partido Conservador como o Mudança Radical têm optado pelo mesmo caminho, aderindo à candidatura de Iván Duque.

No lado oposto, Gustavo Petro tem recebido as adesões do comitê executivo do Polo Democrático, da ex-candidata à vice-presidência na chapa de Humberto de la Calle, Clara López, bem como de Claudia López — da fórmula de Sergio Fajardo — e de Antanas Mockus, integrante da Aliança Verde — partido membro da Coalizão Colômbia encabeçada por Fajardo.

Além disso, Petro recebeu um apoio simbólico muito importante por parte de Ingrid Betancourt, o rosto mais visível dos políticos que sofreram sequestros por parte das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), bem como de intelectuais de diversas latitudes, entre eles Thomas Piketty, economista francês reconhecido por seu best-seller mundial, “O Capital no século XXI”, que defendeu “um novo ciclo progressista na América Latina”.

Por sua vez, o ex-candidato à presidência pelo Partido Liberal, Humberto de la Calle, se desvinculou de seu partido e afirmou que votará em branco — apesar de ter recebido o convite de sua ex-parceira de fórmula para reconsiderar a postura e apoiar Petro. No mesmo levante encontra-se Sergio Fajardo, que ratificou sua decisão de não acompanhar nenhum dos dois candidatos e deu liberdade de ação a seus eleitores.

Pesquisas

 

Ao analisar as pesquisas realizadas antes do primeiro turno presidencial podemos observar mais coincidências que divergências[1]. O primeiro que se destaca é que todas localizam Iván Duque como potencial ganhador da presidência da Colômbia. Adicionalmente, devem ser destacadas algumas outras particularidades:

A distância entre os candidatos a favor de Duque oscilou entre os 19,9/20 pontos percentuais — segundo Invamer e a primeira medida de CNC, respectivamente — e os 5,5/6 pontos percentuais que registraram Celag e Opinómetro.

Polimétrica (45,3%), Celag (45,5%) e Opinómetro (46,2%) mediram praticamente igual Duque, enquanto as demais pesquisas o colocam acima dos 50%.

Enquanto os registros a respeito de Petro mostram uma menor oscilação — 6,2% entre as empresas que maior e menor intenção de voto lhe atribuem —, no caso de Duque essa variação praticamente se duplica: 11,9% de distância entre sua      melhor e sua pior medida.

Apenas Invamer e Celag registram a propensão de votar em branco menor de 10%.

Voto em branco 

Muito se há falado nas últimas semanas em relação ao voto em branco. Foi dito, inclusive, que nesta ocasião poderia atingir uma percentagem considerável e que teria uma importância simbólica, levando o próximo mandatário a pensar em posturas políticas mais orientadas ao centro. Inclusive, se observamos as pesquisas, em média, calcula-se que há 11,10% de colombianos propensos a votar em branco no próximo domingo.

No entanto, a partir da experiência histórica da Colômbia é inverossímil imaginar uma alta percentagem de votos em branco. Não somente pelo ínfimo 1,76% de 27 de maio — se reduziu em mais de quatro pontos percentuais com relação o primeiro turno de 2014- mas, principalmente, pelos antecedentes prévios em segundos turnos.

Desde a última reforma constitucional até hoje foram realizados quatro vezes segundo turno e o voto em branco oscilou entre 0,98% e 4,02%, no máximo. Definitivamente, apesar de ser factível que em 17 de junho seu valor aumente — em parte devido aos pronunciamentos dos ex-candidatos detalhados acima — dificilmente conseguirá adquirir um peso da magnitude que alguns têm imaginado. 

Debate-se, uma vez mais, a Paz em Colômbia 

A sociedade esperou longamente um debate frente a frente entre os dois candidatos presidenciais. Teve muitas idas e voltas, já que Duque — com o objetivo de conservar sua vantagem e conhecendo sua debilidade frente a Petro neste tipo de cenários — tentou se esquivar a todo custo. Neste sentido, Martha Luzia Ramírez afirmou que “o país está esgotado dos debates e, hoje, temos uma agenda completamente cheia até 17 de junho”. Finalmente, apesar da pressão exercida e dos esforços para que o mesmo pudesse ser realizado — os oito canais públicos do país tinham aceitado se unir às emissoras Caracol e RCN para transmitir um Único Grande Debate Presidencial, na quinta-feira 14, às 20h — candidato uribista recusou novamente o convite, privando deste direito a todos os colombianos.

Muito se falou, no entanto, sobre a Paz. Precisamente, um dos maiores divisores de águas n a sociedade colombiana se dá entre os que apoiam e os que recusam os Acordos de Paz. No primeiro grupo está Petro, que não só tem prometido preservar o acordo com as FARC, como tentará somar o Exército de Libertação Nacional (ELN) nesta cruzada por pôr fim ao conflito interno. Tanto de la Calle como Fajardo coincidem com Petro na defesa dos Acordos de Paz, sendo um dos eixos fundamentais destes candidatos.

Pelo contrário, Duque — sustentado por Uribe e Pastrana, artífices da vitória do “Não” no plebiscito — tem sido abertamente crítico do processo de negociações e já avisou que, caso vença, modificará as bases fundamentais do acordo.

Uma vez mais a Paz será plebiscitada. Talvez nesta ocasião o resultado seja diferente. Para isso, será necessário um alto grau de participação, frente a este palco polarizado, por parte de todos os que entendem que as opções são diametralmente opostas. Talvez assim o país poderá mudar seu rumo, deixando para trás um passado escuro de guerra e benefícios exclusivos para poucas famílias. Talvez, neste domingo, na Colômbia ganhe o “Sim”.

[1] A somatória do Celag trabalha com 93,2% ao invés de 100 % já que, diferentemente das outras empresas de pesquisa, neste estudo os indecisos não estão de fora da base e totalizam 6,8%.

* É pesquisador do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (Celag)

** Tradução: Diálogos do Sul