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América Latina

Venezuela realiza eleições em clima de chantagem contra o povo, diz Igor Fuser

População venezuelana se vê pressionada pela oposição a Maduro, auxiliada pelo bloqueio dos Estados Unidos, a tirar o chavismo do governo para que sua vida, já muito difícil, não continue piorando cada vez mais
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 19/05/2018 10h22, última modificação 19/05/2018 11h37
População venezuelana se vê pressionada pela oposição a Maduro, auxiliada pelo bloqueio dos Estados Unidos, a tirar o chavismo do governo para que sua vida, já muito difícil, não continue piorando cada vez mais
Twitter/Fotos Públicas
Nicolás Maduro

Maduro enfrenta candidatos nas urnas, bloqueio econômico e parcela importante da oposição que boicota as eleições

São Paulo – A população venezuelana vai às urnas no próximo domingo (20) para escolher entre a continuidade do chavismo, representado pelo presidente Nicolás Maduro, ou a mudança de rumos do país, governado desde 1999 pela corrente "bolivarianista" liderada pelo ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013.

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Igor Fuser destaca que "as eleições na Venezuela se realizam dentro dos marcos de uma chantagem política contra o povo venezuelano".

A chantagem, diz, consiste em que a população se vê pressionada a tirar o chavismo do governo para que sua vida, já muito difícil, não continue piorando cada vez mais. Quem faz essa chantagem são a oposição interna e os Estados Unidos, que ajudam a oposição venezuelana ao encabeçar o bloqueio econômico contra o país.

"Os Estados Unidos estão fazendo com o povo da Venezuela a mesma coisa que fizeram na década de 80 contra o governo sandinista", avalia Fuser.

Parte importante da oposição, representada pela Mesa da Unidade Democrática (MUD), promove um boicote ao pleito, que acusa antecipadamente de ser uma "farsa". Mas, apesar disso, Maduro vai enfrentar no domingo opositores que preferiram concorrer.

Henri Falcón é um chavista dissidente e, segundo Igor Fuser, tem chance de vencer. Ele estaria até 7 pontos percentuais à frente de Maduro, segundo pesquisas. Outro candidato é o pastor evangélico Javier Bertucci, que prometeu obter ajuda dos EUA para resolver a crise social do país. O pastor está crescendo na reta final. Além deles, concorre ainda o engenheiro Reinaldo Quijada, que se diz defensor do "processo revolucionário".

Igor Fuser falou à RBA:

O que representa a eleição? Para quais caminhos ela aponta?

Essa eleição representa um momento decisivo na crise política que vive a Venezuela. Uma vitória do presidente Maduro dará a ele uma renovada legitimidade para enfrentar a crise econômica e o bloqueio internacional que o país sofre. Um dado fundamental será o comparecimento às urnas.

O comparecimento é imprevisível?

Sim, as estimativas são muito controversas. Agora, um comparecimento amplo às urnas, independentemente de como se distribuam os votos, vai ser um dado importante de relegitimação do governo e do sistema político na Venezuela. Lá o voto é facultativo e há uma campanha de boicote às eleições, movida pelos principais partidos opositores. Ainda assim, existe um setor da oposição que vai participar das eleições, inclusive com um candidato competitivo, Henri Falcón, que tem chances de ganhar. 

O secretário-geral do Avanço Progressista, partido de Falcón, Luis Augusto Romero, disse que eles têm "a extraordinária possibilidade de sair deste governo delinquente pela via pacífica e constitucional". Ou seja, eles acreditam na vitória...

Embora os principais partidos de oposição boicotem a eleição, porque preferem a via violenta, insurrecional, para obter uma mudança política na Venezuela, mesmo assim existe um setor representado por Falcón, que está disposto a jogar o jogo democrático, concorrendo nas urnas conforme determinam as leis.

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Igor Fuser: democracia ameaçada no continente latino

Supondo um cenário em que Maduro ganhe, quais as consequência de sua eleição em relação ao boicote e a pressão geopolítica? Maduro continuaria na mesma encruzilhada, sofrendo pressão e boicote?

O chavismo sairia fortalecido, caso Maduro ganhe com uma votação e comparecimento expressivo às urnas. Ele ganharia condições internas melhores e, do ponto de vista internacional, aumentaria a legitimidade do governo. Isso em si mesmo não resolve o problema, mas cria condições melhores para que a Venezuela enfrente a situação de crise.

O boicote econômico tem duas dimensões: interna e externa. Em relação à externa, é claro que a Venezuela não pode fazer nada para mudar a postura dos Estados Unidos. Esse boicote vem dos Estados Unidos, mas não é só uma posição do governo Trump. O Partido Democrata (do ex-presidente Barack Obama) tem a mesma posição em relação à Venezuela. Esse bloqueio internacional deve continuar, e tende inclusive a se agravar, depois das eleições, caso Maduro ganhe um novo mandato.

Os Estados Unidos vão acusar fraude, a oposição vai denunciar fraude. Mas nunca houve fraude nas eleições na Venezuela. Eles têm um sistema de votação extremamente sério, muito bem feito, praticamente à prova de fraudes. Tecnicamente é um sistema que pode se considerar perfeito. As acusações de fraude na Venezuela nunca encontraram nenhum tipo de comprovação.

Se Maduro ganhar, ele poderia ser derrubado?

O setor da oposição que boicota as eleições vai denunciar o resultado qualquer que seja. A princípio, não reconhece nem mesmo a vitória do candidato da oposição. Mas, se a oposição ganhar, vai se criar imediatamente um cenário político novo em que muitas forças políticas devem reconsiderar suas posições anteriores. 

Eles estão propondo a derrubada do governo já faz anos, mas não derrubaram porque não têm força para isso. As eleições se dão em um quadro de chantagem política contra o povo venezuelano: "ou vocês tiram o chavismo do governo, ou então a vida de vocês vai piorar cada vez mais". Quem faz essa chantagem são dois atores: a oposição interna, que é a burguesia venezuelana, o empresariado, as elites, o setor privilegiado da população, que nunca aceitou o chavismo e está há quase 20 anos tentando derrubar o governo da Venezuela, utilizando seus instrumentos de poder, sobretudo sua posição na economia, no sistema de distribuição de gêneros, seu acesso privilegiado ao dólar, que lhes permite manipular a moeda; e junto com eles os Estados Unidos, com o bloqueio econômico, que está se apertando mais a cada dia.

Os Estados Unidos fazem com o povo da Venezuela a mesma coisa que fizeram na década de 80 contra o governo sandinista da Nicarágua, de esquerda, democrático. Esse governo foi alvo de um assédio não só econômico, mas também militar, intenso. Os Estados Unidos financiaram uma guerra civil e grupos armados opositores dentro da Nicarágua, os chamados "contras". Quando chegou nas eleições, foi colocado ao povo o seguinte: ou vocês elegem a candidata da oposição (Violeta Chamorro), ou a vida de vocês vai piorar cada vez mais. No desespero, uma maioria de eleitores nicaraguenses acabou votando na oposição, encerrando aquele período sandinista. 

E qual o cenário possível, caso a oposição ganhe?

Vai se abrir um processo de diálogo político para viabilizar uma transição. O governo vai respeitar o resultado, vem dizendo o tempo todo que essa vai ser a posição dele. O que vai se abrir é um processo de debate político para a passagem do governo ao novo presidente. É o que se espera em qualquer país democrático. É claro que esse processo não vai ser livre de tensões. Existem projetos sociais que a sociedade vai tentar manter, as comunidades, os setores desprivilegiados, que vão pedir compromissos desse novo presidente. Será um novo cenário político. Mas tudo isso são especulações. Tem que esperar o resultado de domingo.

Mas é importante destacar que as eleições se realizam dentro dos marcos de uma chantagem política contra o povo venezuelano. O voto no Maduro é um voto contra a chantagem, pela soberania do povo venezuelano.