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A ilha

Estados Unidos e economia são os desafios do novo presidente de Cuba

Engenheiro e amante das artes, Miguel Díaz-Canel nasceu em 1960, depois da Revolução de 1959, e representa uma nova geração, com uma visão mais aberta em relação a questões culturais
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 21/04/2018 14h49
Engenheiro e amante das artes, Miguel Díaz-Canel nasceu em 1960, depois da Revolução de 1959, e representa uma nova geração, com uma visão mais aberta em relação a questões culturais
Estudio Revolución/Granma
Canel e Raúl Castro

Miguel Díaz-Canel (à esq.) foi eleito presidente depois de 59 anos de hegemonia de Fidel e Raúl Castro

São Paulo – O primeiro desafio do novo presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, que assumiu o poder na quinta-feira (19), é a economia do país. Ele passa a comandar a Ilha após 59 anos de hegemonia dos irmãos Fidel e Raúl Castro e encontra uma situação econômica desfavorável, que não é de crise, mas também não chega a ser confortável. O PIB cubano sofreu significativa desaceleração em seu crescimento, de 2015 para 2016, de 4,4% para apenas 0,5%, segundo a BBC.

Canel é uma liderança que, ao mesmo tempo em que manteve a coerência na trajetória construída no Partido Comunista, pode entender as necessidades contemporâneas do país por ser jovem e de cabeça mais "arejada". Engenheiro eletrônico, professor universitário e amante das artes, tem 57 anos e nasceu depois da Revolução de 1959. Foi eleito pela Assembleia Nacional com 603 de 604 votos possíveis.

“Ele é de uma nova geração, e chegou aonde chegou por sua trajetória coerente no Partido. Acredito que vai continuar com o que chama de atualização do modelo socialista, com as reformas econômicas feitas por Raúl Castro”, diz Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp). 

“Canel tem uma visão mais aberta em relação a questões culturais, como sexualidade, uma abertura maior para temas que talvez a velha guarda colocasse como secundários.” O novo presidente, como vice-presidente do Conselho de Estado da Assembleia Nacional, a partir de 2013, implementou políticas de governo envolvendo telefonia, acesso à internet e modernização do anacrônico sistema de comunicação cubano.

Para a professora Miriam Gomes Saraiva, pesquisadora do departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a tendência é que o novo presidente promova uma fase de mudanças no país, embora paulatinas.

“Acho que muda, com Canel. Pode não mudar amanhã, mas a tendência, na medida em que os desafios forem aparecendo, é de que ele vá responder a esses novos desafios de outra forma”, avalia. “O primeiro desafio, que já aparece, é que a população cubana não está numa boa situação econômica, a Ilha não está crescendo. Não diria em situações de pobreza, mas há pessoas que não estão vivendo como esperavam”, diz Miriam.

Segundo ela, há um debate interno no país, em torno das reformas liberalizantes implementadas por Raúl Castro. “Há pessoas que acham que a liberalização foi prejudicial; para outras, não. Canel vai ter que tomar uma posição.” No governo de Raúl Castro, Cuba se reaproximou dos Estados Unidos, cujos turistas passaram a trazer dólares à economia. O PIB cubano é baseado em mais de 70% nos serviços, em grande parte relacionados ao turismo.

Ayerbe também avalia que os desafios mais imediatos e importantes de Canel são os econômicos. “A situação não está muito bem. A economia não tem crescido o que se esperava.” A questão é que, do ponto de vista internacional, os grandes parceiros de Cuba (principalmente Venezuela, e depois China e Brasil) não ajudam mais como no passado. A Venezuela, pela crise e o aparente ocaso do chavismo; a China, porque cresce menos; e o Brasil, porque deixou de ser um aliado. “Rússia e China são dois apoios, mas a Rússia não tem muito fôlego econômico, não é a União Soviética.”

Na região, os dois países mais importantes da América do Sul, Argentina e Brasil, não têm mais os governos aliados de Cristina Kirchner e Dilma Rousseff. “Além da ascensão da centro-direita na região, a Venezuela, o principal parceiro, está em crise.”  

Porém, tanto para pesquisadora da UERJ como para o professor da Unesp, o problema de Cuba hoje não é a ascensão da direita na América Latina. Na opinião de Miriam, a relação brasileira com Cuba, sob o governo Temer, não melhorou, mas também não piorou. Os investimentos na Ilha interessam às empresas brasileiras. “Recursos do BNDES já foram para lá. O Porto Mariel (financiado pelo BNDES), se vier a funcionar, interessa ao Brasil, porque é muito grande e as empresas brasileiras querem ter um pé ali.”

Para ela, o governo Temer e seu chanceler, Aloysio Nunes, fizeram críticas à Venezuela, mas “Cuba não foi um elemento de atrito”. Até porque “o governo Temer na política externa é uma inércia absoluta”, diz. Além disso, o governo Temer está no fim. Por isso, nada mudará na relação com o Brasil por enquanto.

Também Para Ayerbe, a eleição de Canel não deve mudar as relações com os brasileiros. “Temer e (Mauricio) Macri não são amigos de Cuba, mas também não têm uma postura agressiva. Se os Estados Unidos quiserem colocar na pauta algum tipo de intervenção ou pressão, acredito que esses governos não estarão junto.”

O fator Trump

Geopoliticamente, o problema de Miguel Díaz-Canel deve continuar sendo o mesmo desde a vitória da Revolução em 1959: os Estados Unidos, hoje governados pelo imprevisível Donald Trump. “Ele faz coisas que um presidente normal talvez não fizesse”, diz Miriam.

O republicano anunciou no ano passado que romperia os acordos feitos pelo antecessor, o democrata Barack Obama, com Raúl Castro. Porém, há uma retórica de Trump ao anunciar a “medida”, já que os americanos poderão continuar suas viagens a Cuba e também enviar dólares à Ilha, assim como a ligação aérea continua. As embaixadas em Havana e em Washington continuam funcionando normalmente.

“Se depender do governo cubano, vai seguir como vinha com Obama, abrindo, se aproximando e tirando os entraves até suspender o bloqueio totalmente”, diz Miriam Gomes Saraiva. “Acho que quem vai dar o tom da relação não vai ser o governo cubano, mas Trump.”

Mesmo assim, ela não acredita que o presidente norte-americano ameace os cubanos com medidas extremas. “Ele compraria uma briga com a União Europeia e parceiros (econômicos) de Cuba na América Latina. Na questão Síria, a briga é com a Rússia; no caso de Cuba, seria com parceiros. Ele não vai adotar medidas extremas”, diz a professora.

Já para Ayerbe, os novos “falcões” que Trump trouxe para seu governo dão uma “coerência” que até então não tinha. O presidente espera a confirmação pelo Senado, na semana que vem, do nome de Mike Pompeo, diretor da CIA, como novo secretário de Estado, no lugar de Rex Tillerson.

O problema para Trump é que a aprovação de Pompeo pelo Senado não é certa. E John Bolton, nomeado assessor de Segurança Nacional, foi subsecretário de Estado do governo de George W. Bush e é um reconhecido belicista. Ele trabalhou também com Ronald Reagan. 

“Os dois novos membros do governo Trump vão dar uma coerência, embora uma coerência de direita declarada. Acho que agora vem um momento duro para Cuba do ponto de vista dos Estados Unidos”, diz o professor da Unesp. “Não que cheguem a invadir Cuba, mas acho que virão pressões. Para isso, Trump consegue apoio da ultradireita cubana dos Estados Unidos e tem agora no governo os conservadores na política exterior (Bolton e Pompeo). Venezuela e Cuba, para eles, são inimigos.” 

Entretanto, se por um lado um diretor da CIA no cargo de secretário de Estado não indica nada muito promissor em termos de uma política externa pacífica, por outro, o próprio Trump confirmou que Mike Pompeo se reuniu com o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-un, na semana passada, o que pode ser um prenúncio de um encontro entre o norte-coreano e o próprio Trump, que talvez seja menos louco do que se pensa.