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Em Nova York

Para professora, Temer na ONU representa governo 'precário e frágil'

Na opinião de Analúcia Danilevicz Pereira, presidente brasileiro vai à Assembleia da ONU e encontro com Trump como foi à reunião dos Brics: como chefe de um governo fraco e "sem condições de garantir representatividade" ao país
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 18/09/2017 19h46, última modificação 18/09/2017 20h22
Na opinião de Analúcia Danilevicz Pereira, presidente brasileiro vai à Assembleia da ONU e encontro com Trump como foi à reunião dos Brics: como chefe de um governo fraco e "sem condições de garantir representatividade" ao país
Divulgação/PR
Trump e Temer

Apesar da boa vontade, Temer não pode fazer muito para ajudar Trump na sua cruzada antichavista

São Paulo – Na manhã desta terça-feira, Michel Temer fará o discurso de abertura da 72ª Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, onde o presidente chegou hoje (18). Nos últimos dias a imprensa informou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reúne-se hoje com Temer e o colega da Colômbia, Juan Manuel Santos.

O tema principal do encontro seria a crise da Venezuela, país contra o qual o mandatário norte-americano vem fazendo discursos cada vez mais ameaçadores. Chegou a dizer por exemplo, recentemente, que as armas são uma “opção sobre a mesa”.

Nesse contexto, qual o significado do encontro entre o presidente do país mais poderoso do mundo com o colega brasileiro, que chegou ao poder por um golpe parlamentar e cujos índices de aprovação popular são baixíssimos? Apesar da boa vontade, Temer não pode fazer muito para ajudar Trump na sua cruzada antichavista, na opinião da professora Analúcia Danilevicz Pereira, da área de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Um governo tão frágil quanto o de Temer, que papel exatamente poderia ter, tão significativo, a ponto de realmente representar uma ameaça a um país vizinho? Esse governo está mais envolvido em questões ligadas à sua própria sobrevivência do que propriamente tem condições para articular algo coletivamente, como uma ação contra a Venezuela”, diz. “Uma coisa é pensar num governo que realmente tem força, que represente a direita brasileira, alinhado aos Estados Unidos, com condições de respaldar qualquer ação norte-americana na Venezuela. Outra coisa é um governo precário e frágil como esse que nós temos no Brasil”, acrescenta.

Para ela, um governo “absolutamente vulnerável, em crise, com dificuldade de garantir níveis mínimos de legitimidade”, não tem condições de jogar politicamente como um ator importante nas relações internacionais. “Seria mais preocupante se tivéssemos um presidente que tivesse legitimidade, apoio interno, para produzir esse tipo de ação externa, e esse governo não tem.”

A ameaça de Trump de usar armas contra a Venezuela preocupa ou é mais uma bravata?

Já há algum tempo é possível observar que há um discurso mais belicista e militarista por parte de Trump, mas esse discurso não tem se convertido em ações efetivas. É preciso considerar uma série de questões anteriores. Em termos de uso da força, os governos de Barack Obama foram bastante ostensivos. Os Estados Unidos atuaram no período com presença militar em uma série de regiões e eventos, e deu continuidade a guerras abertas pelos antecessores, usando o que se chama hard power ostensivamente.

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Analúcia: Trump produz mais jogo de cena do que algo que possa ser ação efetiva contra a Venezuela

Trump se elegeu em boa medida por uma combinação de fatores:  a promessa de gastar menos com as guerras nas quais os Estados Unidos estavam envolvidos – como Iraque e Afeganistão; o discurso no qual a defesa do cidadão americano, os interesses norte-americanos, o resgate da capacidade econômica, a superação das crises internas estavam acima de qualquer outra questão. Para isso, ele tem um discurso hostil ao que poderia representar ameaça a essa nova estabilidade americana: questões de imigração, como no discurso contra o México. Um pouco na mesma medida vai esse discurso contra a Venezuela. Se pensarmos no impacto regional que a crise venezuelana produz, o Brasil sente muito mais do que qualquer outro país – mais do que os Estados Unidos.

Por quê?

Porque há por exemplo um fluxo migratório importante da Venezuela ao Brasil. Roraima vive essa experiência da chegada de venezuelanos em busca de trabalho, insumos. Se alguém tinha que se preocupar, seríamos nós, que estamos ligados por fronteiras. Toda crise produz uma coisa que não é comentada: o impacto sobre a vida das pessoas. Não é só uma crise política. Quem vai pagar o preço dessa crise? Os cidadãos venezuelanos e a região de uma maneira geral.

O discurso norte-americano tem um conteúdo mais de retórica, porque eles não estão interessados em resolver a questão, estão interessados em derrubar o governo. Na região, todo mundo está interessado em que a crise tenha uma solução. São perspectivas diferentes. Como isso vai se combinar num diálogo coletivo, aí é que é o problema, porque os representantes dos países deveriam se posicionar a favor de uma resolução da crise em favor dos venezuelanos.

Mas não há uma “sabotagem” regional clara na região contra a Venezuela e o Mercosul?

Todos nós sabemos, e isso não é novidade, que há por parte dos Estados Unidos uma clara tentativa de reverter o quadro de governos sul-americanos com mais autonomia, de 2000 até 2010, digamos, a primeira década dos anos 2000, o que caracterizou os processos na América do Sul, a ponto de avançarmos num projeto de integração, não-excludente, que envolvesse o conjunto de países. Isso não ocorre sem problemas, é um processo que demanda tempo para os interesses se acomodarem.  Agora, como foi possível estancar esse processo positivo que a América do Sul vivia nos anos 2000? Desestabilizando internamente os países.

O que aconteceu no Brasil, em boa medida, foi fruto de uma combinação, evidentemente, de interesses internos e externos: temos a presença aqui de organizações não-governamentais, entidades que cumprem com um papel político importante, como foi no caso das mobilizações populares no Brasil, na época, que levaram ao apoio ao impeachment de uma presidente eleita. Na Venezuela, isso acontece claramente quando a oposição venezuelana recebe apoio, inclusive material, para produzir essa instabilidade interna. Acompanhando isso, vem todo um discurso antichavista, anti-autonomia venezuelana. Na verdade, nós na América do Sul, estamos passando por um processo semelhante àquilo que aconteceu na Venezuela num período anterior. Vai-se tentando criar elementos de instabilidade interna.

A chamada “tríplice aliança” (Argentina, Paraguai e Brasil) ajudou a aumentar a crise venezuelana?

Tenho um pouco dificuldade de dizer se esses governos que atuam na América do Sul, esses aos quais você se referiu, terão condições mais concretas de propor alguma aliança antivenezuela. Porque, primeiro, isso implica numa atitude absolutamente desfavorável à situação dos próprios países. Criar em cima de uma crise uma instabilidade ainda maior é de uma inabilidade política e de uma falta de visão estratégica importantíssima. Uma coisa é o discurso, outra é implementar uma ação que vá produzir um custo relativamente alto aos países na região.

O que acontece na Venezuela impacta na região. Não digo que não possa haver – porque há uma mudança de perspectiva em termos de política externa por parte desses governos – mas ao mesmo tempo é um suicídio estratégico. Vamos ter que acompanhar, mas vamos ter que separar o que  está no nível do discurso e o que pode de fato se converter numa ação positiva, contra a Venezuela. Isso implica numa série de consequências muito importantes para a região.

Quando Trump diz que as armas são uma “opção sobre a mesa”, está mais para jogo de cena para consumo interno ou ele pode chegar às vias de fato mesmo?

Acho que o Trump produz muito mais um jogo de cena, do que propriamente algo que possa se transformar em uma ação efetiva contra o país. Há um outro tipo de estratégia que funcionou muito melhor na América do Sul, que é usar as oposições internas para promover o desgaste dos governos. Foi muito mais eficiente do que uma ação militar, que tem custo financeiro para os Estados Unidos. No caso de financiar oposições, o custo é mais reduzido e os efeitos são muito mais expressivos. Me parece que as coisas acontecem muito mais no nível do discurso.

No caso do Brasil, Temer será na Assembleia da ONU o presidente alinhado e subserviente aos norte-americanos. Finalmente os Estados Unidos vêm o governo que queriam, num alinhamento contra a Venezuela, por exemplo...

Em termos de significado político, o governo Temer é absolutamente vulnerável, em crise, com dificuldade de garantir níveis mínimos de legitimidade. Às vezes a gente dá mais importância do que deveria dar. Um governo tão frágil  quanto o de Temer, que papel exatamente poderia ter, tão significativo, a ponto de realmente representar uma ameaça a um país vizinho? Esse governo está mais envolvido em questões ligadas à sua própria sobrevivência – a cada dia tem uma novidade – do que propriamente tem condições para articular algo coletivamente, como uma ação contra a Venezuela. Uma ação nesse sentido pode custar a sua queda. É um governo extremamente frágil, que precisa sobreviver até o final do ano.

Uma coisa é pensar num governo que realmente tem força, que represente a direita brasileira, alinhado aos Estados Unidos, com condições de respaldar qualquer ação norte-americana na Venezuela. Outra coisa é um governo precário e frágil como esse que nós temos o Brasil. É um custo alto. Evidentemente, ele cumpre seu papel, indo à Assembleia da ONU, assim como foi à reunião dos Brics. Mas sem condições de realmente garantir representatividade. Com o atual governo, o Brasil não é uma força. Eu me preocuparia muito mais se tivéssemos um presidente que tivesse legitimidade, apoio interno, para produzir esse tipo de ação externa, e esse governo não tem. Nesse caso, felizmente, não é um governo com condições de promover qualquer ação externa mais efetiva. O país está em risco de colapsar. 

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