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Evo Morales

'Segurança ficou mais importante que diplomacia', interpreta analista boliviano

Cientista político boliviano e crítico do governo de Evo Morales, Carlos Cordero interpretação como legítima a atitude dos países europeus que vedaram o espaço aéreo ao presidente
por Tadeu Breda, da RBA publicado 06/07/2013 10h50
Cientista político boliviano e crítico do governo de Evo Morales, Carlos Cordero interpretação como legítima a atitude dos países europeus que vedaram o espaço aéreo ao presidente
Mario Guzmán/EFE
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Desrespeito a Evo Morales causou comoção dentro e fora da Bolívia

São Paulo – Procurado pela RBA para comentar a retenção do presidente da Bolívia, Evo Morales, por mais de 13 horas no aeroporto de Viena, na Áustria, o cientista político Carlos Cordero, professor da Universidad Mayor Andrés Bello, em La Paz, afirmou que as políticas de segurança interna são mais importantes que as relações diplomáticas entre as nações. Assim justificou a medida dos países europeus que impediram a passagem avião boliviano na madrugada da última quarta-feira (3).

Os governos de França, Itália, Espanha e Portugal – todos membros da Otan – acreditavam que o líder aimará trazia escondido em sua aeronave o ex-espião norte-americano Edward Snowden, caçado por Washington por revelar um grande sistema de vigilância dos Estados Unidos sobre seus próprios cidadãos e outros países do mundo, inclusive aliados, como a própria França.

Sem questionar o mérito dos governos que elegeram Snowden como inimigo a ser caçado, Cordero, que é crítico ao governo de Evo Morales, oferece uma interpretação para a atitude dos países europeus. “São mais importantes as políticas de segurança do que as relações diplomáticas.”

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O analista acredita que, mesmo agredido, Evo Morales soube utilizar o episódio em proveito próprio. “O governo aproveitou o incidente diplomático para gerar uma corrente de opinião favorável ao presidente”, avaliou, reconhecendo, porém, que todos os bolivianos se sentiram agredidos pela situação. “Existe um sentimento generalizado de solidariedade.”

O episódio gerou uma nova arenga diplomática que tomou dimensões continentais quando a maioria dos governos da região emitiram declarações contundentes condenando o “constrangimento” sofrido por Morales. A União de Nações Sul-Americanas (Unasul) convocou reunião de emergência em Cochabamba e emitiu uma declaração de seis pontos em que oferece apoio ao presidente boliviano, exige pedido imediato de desculpas por parte dos países europeus e promete levar o caso às Nações Unidas.

Confira a entrevista:

Como os bolivianos – e você, pessoalmente – receberam a notícia da retenção do presidente na Áustria?

O governo da Bolívia aproveitou o incidente diplomático para produzir uma corrente de opinião favorável a Evo Morales. Eu diria que a grande maioria do povo está expressando sua solidariedade ao presidente e seu mal-estar pela situação. Internamente, isso ajuda o governo. Com certeza, sua popularidade vai subir.

Outros assuntos ficaram para segunda plano, como algumas denúncias de que a administração do Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Morales, estaria operando uma rede de extorsão. A opinião pública internacional também pendeu para o lado do presidente. Mas tudo o que ocorreu é um sinal muito claro de que existe um distanciamento nas relações entre Bolívia e a União Europeia. Isso é consequência das declarações anti-imperialistas do presidente. Evo alinhou-se com Irã, Venezuela, Cuba, e este alinhamento ideológico acaba ocasionando esse tipo de consequência.

Mas você não acha que houve um flagrante desrespeito às leis internacionais?

Cada país é o primeiro soberano de seu espaço aéreo. E acabam sendo mais importantes as políticas de segurança de cada nação do que as relações diplomáticas que existem entre os Estados. França, Portugal, Espanha e Itália tiveram essa atitude pouco amistosa em relação à aeronave boliviana porque tinham claramente como prioridade sua segurança aérea.

Além disso, não queriam ver-se envolvidos no noticiário internacional por terem participado de alguma maneira da fuga de Edward Snowden. Esses países entenderam que sua segurança estava em risco, e avaliaram que ela era mais importante que a segurança de um presidente latino-americano.

Agora, o governo boliviano tem todo o direito de apelar aos tribunais internacionais em busca de algum tipo de ressarcimento público ou material. Mas não acredito que tenha havido preconceito contra Evo Morales pelo simples fato de ser indígena.

Você não vê nenhum tipo de desrespeito ou racismo contra o presidente boliviano?

Não. Porta-vozes do governo estão alimentando essa tese, de que existe um desrespeito por ser indígena, porque Bolívia é um país subdesenvolvido e pobre. São argumentos midiáticos que convêm ao governo boliviano para obter coesão interna. Não são argumentos muito verossímeis.

Mas você, como boliviano, não se sentiu desrespeitado?

Sim, não só eu, mas muitos bolivianos nos sentimos hostilizados com a decisão. Por isso é que o incidente gerou tanta solidariedade. Independentemente das diferenças e críticas que possamos ter em relação ao governo, exigimos respeito e consideração ao presidente da Bolívia. Não acredito que algo parecido ocorreria com os presidentes da Venezuela ou da Espanha, por exemplo.

Você é favorável ao asilo político de Snowden na Bolívia?

Nossa Constituição possui um artigo que permite conceder asilo político às pessoas perseguidas em seus países. Isso faz parte da solidariedade internacional. Devemos dar a todos os perseguidos políticos oportunidade de refúgio. Mas todos devem ter as mesmas oportunidades. Não podemos proteger apenas os amigos, aos que comungam das mesmas ideias do governo. Todos devem ser tratados de maneira igualitária.