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Maduro toma posse hoje com amplo apoio internacional

Exceção são os EUA, que se recusam a reconhecer resultado eleitoral antes da recontagem total dos votos
por Marina Terra, do Opera Mundi publicado , última modificação 19/04/2013 10h11
Exceção são os EUA, que se recusam a reconhecer resultado eleitoral antes da recontagem total dos votos

Caracas – O presidente eleito da Venezuela, Nicolás Maduro, toma posse hoje (19) após uma semana marcada pela tensão. O pedido de recontagem dos votos pelo candidato Henrique Capriles ainda no domingo (14) e seu chamado, no dia seguinte, a demonstrar a “arrechera” (indignação) em “panelas” acabou sendo o gatilho para uma onda de violência que deixou oito mortos e mais de 70 feridos. 

Para o governo, as declarações do candidato derrotado abriram caminho para a agressividade de apoiadores da oposição, que miraram sedes do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e obras sociais nascidas no governo de Hugo Chávez, especialmente centros de saúde onde trabalham médicos cubanos.

Capriles pediu a recontagem dos votos, questionando a transparência do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), como vinha fazendo desde antes do início da campanha eleitoral. Hoje, o órgão eleitoral decidiu realizar auditoria nas restantes 46% urnas com comprovantes de votos. Para Maduro, porém, assim como outros membros do governo, os últimos dias evidenciaram a preparação de um golpe de Estado.

Há semanas, Caracas vinha denunciando a existência de planos coordenados entre setores da oposição venezuelana com grupos paramilitares colombianos, a direita salvadorenha e o Departamento de Estado norte-americano. O objetivo era criar um panorama de desestabilização, cujos resultados seriam diretamente vinculados ao governo. A principal matriz de críticas da oposição era justamente ao CNE. 

A surpresa foi geral quando a reitora do órgão eleitoral, Tibisay Lucena, leu o resultado: em vez de dois dígitos, a diferença era de pouco mais de 1%. Mais de 700 mil votos antes identificados com o chavismo haviam migrado para o lado da oposição.

Ouviram-se alguns fogos de artifício e gritos de “Viva, Chávez! Viva, Maduro!” no bairro de 23 de Janeiro, célebre bastião chavista em Caracas. Moradores colocaram para tocar músicas da campanha atual e da anterior. No entanto, logo vieram os olhares de espanto e a pergunta: qual seria o motivo para uma diferença tão pequena e, principalmente, como se comportaria Capriles? Não demorou muito para a resposta ao segundo questionamento. “O grande derrotado do dia de hoje é você (Maduro)”, disse o candidato, completando que não iria reconhecer o resultado até que todas as urnas fossem contabilizadas.

Apoio mundial

A primeira barreira de contenção da investida opositora foi o rápido reconhecimento da vitória de Maduro por numerosos chefes de Estado. Todos os governos da América Latina e Caribe, exceto o Paraguai – governado por Federico Franco –, parabenizaram o presidente eleito. Naturalmente, também os mecanismos de integração regionais como Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e Mercosul. 

Inicialmente, o secretário-geral da OEA (Organização de Estados Americanos), o chileno José Miguel Insulza, advogou pela recontagem dos votos, mas voltou atrás nesta quarta-feira, reconhecendo que Maduro é o presidente eleito da Venezuela. No mesmo dia, as delegações de Nicarágua, Argentina, Brasil, Equador, Colômbia e Uruguai ratificaram apoio a Maduro e pediram o fim da violência.

Ao longo da semana, a Venezuela também recebeu mensagens de felicitação da Palestina, França, China e Irã. Nesta sexta-feira, delegações de 15 países estarão presentes à posse de Maduro, incluindo a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, da Argentina, Cristina Kirchner, e da Bolívia, Evo Morales.

O ministro espanhol das Relações Exteriores, José Manuel García-Margalle, retificou declaração dada segunda-feira, quando solicitou que a recontagem dos votos fosse feita com “rapidez”. Com uma brusca mudança de posição, a Espanha reconheceu a eleição de Maduro na quarta-feira, após o presidente eleito recordar os negócios que a petrolífera Repsol na Venezuela e ressaltar que o país europeu deveria se preocupar com a crise pela qual passa. “Muito bem. Abraços ao rei!”, respondeu Maduro à carta da chancelaria espanhola.

EUA

O único país que ainda não reconheceu a eleição de Maduro foram os Estados Unidos. Para o secretário do Departamento de Estado norte-americano, John Kerry, deveria existir uma recontagem dos votos, devido à “estreita brecha” entre os candidatos. Maduro ressaltou a margem de diferença na eleição norte-americana de 2000, quando George W. Bush foi eleito em um pleito cercado de suspeitas de fraude e contestou as declarações de Kerry.

“Que não reconheçam nada! Não nos importa seu reconhecimento! Decidimos ser livres e vamos continuar sendo livres e independentes com ou sem vocês. Não nos importa sua opinião”, afirmou o presidente eleito. O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva também comentou o posicionamento dos EUA: “Vira e mexe os americanos cismam em contestar uma eleição. [...] Por que eles [americanos] não se preocupam um pouco com eles e deixam que a gente decida o nosso destino?”, alfinetou.

Hoje, Maduro toma posse em uma data simbólica para os venezuelanos. Em 19 de abril de 1810, se celebra a assinatura de ata que deu início ao processo de independência da Espanha. Domingo, dia da eleição, foram lembrados 11 anos do retorno de Chávez ao Palácio de Miraflores após sofrer um Golpe de Estado. Passado e presente se misturam nesse abril de transformações venezuelano.

 

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