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Após ano turbulento, Grécia entra 2013 sob austeridade e ascensão neonazista

Ano que vem será decisivo para manter o que resta do tecido social grego, duramente atingido por medidas de austeridade
por Roberto Almeida, do Opera Mundi publicado 22/12/2012 10h32, última modificação 22/12/2012 10h32
Ano que vem será decisivo para manter o que resta do tecido social grego, duramente atingido por medidas de austeridade

Atenas - Depois de um ano conturbado, com duas eleições parlamentares e a formação de um governo de coalizão alinhado com as políticas de austeridade impostas pela troika, composta por Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional (FMI), a Grécia entra 2013 sem expectativa de melhora econômica e com um governo que balança no poder.                        

As últimas votações importantes do ano no Parlamento grego ocorreram em novembro e demonstraram a fragilidade do trio Nova Democracia, Pasok e Esquerda Democrática, que detém a maioria na casa. Ao votar o segundo memorando do FMI, com metas de cortes em troca de um desembolso financeiro para rolar a dívida, 12 deputados governistas deixaram suas legendas por rebeldia à cartilha da austeridade.

Com isso, a maioria que sustenta o premiê Antonis Samaras, do partido Nova Democracia, eleito em junho de 2012, caiu para uma margem de apenas 13 deputados. Além de perder terreno em termos de política local, economistas acreditam que o esforço de Samaras foi nulo - o pacote foi apenas uma maneira encontrada pela União Europeia para ganhar tempo até eleição alemã, em setembro de 2013.

“A decisão de novembro de 2012 foi meramente um pretexto para liberar empréstimos para a Grécia e ganhar um ano e pouco até a Europa remendar, da mesma maneira, sua crise em outros lugares - na Itália e na Espanha em particular. Enquanto isso, a Grécia está condenada a mais um ano de miséria, objetivos não cumpridos, depressão, etc”, afirma o economista grego Yanis Varoufakis.

Em seu comunicado mais recente sobre o país, a Comissão Europeia elogia o governo por ter reforçado a conta bancária que serve exclusivamente para rolagem da dívida, e pela iniciativa de canalizar todo o dinheiro decorrente das privatizações e de parte do superávit primário para esse fim.

Em troca, a coalizão que sustenta Samaras aprovou medidas que vão afetar diretamente a população grega, especialmente os desempregados, que somam mais de 25% da força de trabalho no país - como uma futura taxa básica de 25 euros (cerca de R$ 65) para quem precisar de serviços médicos na rede pública.

A aplicabilidade e a aceitação dessas medidas por parte da população ainda é uma incógnita. Com apenas 11% de aceitação, a democracia grega perdeu credibilidade desde a intervenção do FMI. O Parlamento grego é visto por parte da população como uma casa de fantoches, subjugados pela Alemanha.

“Não somos escravos da [chanceler alemã Angela] Merkel. A Grécia não está à venda e o primeiro-ministro é um traidor. Eles fizeram um programa para comprar toda a Grécia a preço de banana. Todo o povo grego sabe disso”, desabafa a jornalista desempregada Rena Maniou, que protestava na Praça Syntagma no dia da aprovação do memorando.

PIGS e neonazismo


O destino da Grécia está atrelado aos caminhos de Portugal, Itália e Espanha. Os quatro países receberam a sigla nada lisonjeira PIGS, ou porcos em inglês. Todos estão reféns da dívida e de políticas de austeridade, mas entre eles somente a Grécia assistiu ao fenômeno da ascensão neonazista.

Nas eleições de junho, o partido Aurora Dourada, com brasão carregando um meandros, símbolo da uma suposta pureza grega, pintado nas cores do Partido Nacional-Socialista alemão, amealhou 18 cadeiras no Parlamento grego. Seu presidente, Nikolaos Michaloliakos, que tem antigos laços com membros da junta militar que governou a Grécia entre 1967 a 1973, nega o Holocausto e aparece em um vídeo gritando pelas ruas de Atenas que quer “imigrantes fora” de seu país.

Mesmo com toda a pressão internacional para deter os avanços do Aurora Dourada, em especial de grupos de direitos humanos, pesquisas recentes mostram um cenário promissor para os neonazistas. Se novas eleições fossem marcadas hoje, eles se tornariam a terceira maior bancada do Parlamento grego, atrás apenas do Nova Democracia, do atual premiê, e da Syriza, a coalizão de esquerda antiausteridade.

“O sucesso eleitoral do Aurora Dourada ecoou tristemente por toda a Europa porque ele representa o ressurgimento do neonazismo em nosso continente. O neonazismo não pode ser assimilado por uma claque de velhos negacionistas que estão nostálgicos de sua juventude hitleriana. Ele é tópico e sua periculosidade não vai desaparecer com os últimos criminosos do período nazista”, escreveu o presidente do Movimento Europeu Antirracista, Bejamin Abtan.

A mensagem de Abtan foi um alerta ao premiê Antonis Samaras, publicada em diversos jornais gregos assim que a mulher do líder neonazista Michaloliakos, Eleni Zaroulia, foi incluída na delegação grega da Assembleia Parlamentar do Conselho Europeu. Não houve resposta e não há movimentações claras de deputados gregos em tentar banir o Aurora Dourada da vida política no país.

O partido, que tem raízes fincadas na polícia grega, encontra militantes na classe média adotando medidas populistas e expulsando imigrantes. Jovens e idosos, inflamados por discursos nacionalistas, começam a ingressar nas fileiras do Aurora Dourada, contribuindo para aumentar a votação no grupo.

Respostas


Na noite da votação do memorando no FMI, parlamentares da Syriza carregaram uma enorme faixa em frente à Praça Syntagma, aos olhos e aplausos de pelo menos 200 mil pessoas. A grande exposição do partido, que cresceu vertiginosamente na última eleição, porém, não encontrou eco em setores suficientes da população para conseguir virar o jogo e bloquear a cartilha da austeridade.

 
Há um esforço da esquerda do sul europeu em reunir lideranças dos países atingidos pela crise para iniciar um movimento que possa suplantar a cartilha da troika. Ativistas gregos de diversos setores sabem que as notícias vindas da Espanha e de Portugal hoje são as mesmas que desanimaram o próprio país há um ano, e que o processo é semelhante e, aparentemente, inevitável.

Para eles, 2013 será um ano crucial para manter o que resta do tecido social grego, duramente atingido pelas medidas que esfacelaram o Estado de bem-estar social no país, e servir como exemplo para o resto da Europa. No entanto, o cansaço e o descontentamento da população são visíveis e alternativas econômicas locais, como esforços de solidariedade, têm sido a resposta para a frustração institucionalizada. Enquanto isso, a Grécia sangra.