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Maioria dos argentinos é a favor da descriminalização do aborto

Pesquisa revelou que 58,5% dos entrevistados veem a prática como um direito da mulher
por Redação da RBA publicado , última modificação 05/11/2012 13h58
Pesquisa revelou que 58,5% dos entrevistados veem a prática como um direito da mulher

São Paulo – Uma pesquisa realizada pela Consultora Ibarómetro, instituto de pesquisa argentino, no mês de outubro, apontou que quase seis entre dez argentinos são a favor da legalização do aborto no país. A maioria acredita que interromper a gravidez no primeiro trimestre da gestação é um direito da mulher, e menos de 30% acham que a prática deveria ser ilegal. Os resultados da pesquisa coincidem com a visita da Anistia Internacional à Argentina para reivindicar ao Congresso continuidade no debate sobre a descriminalização do aborto.

“Em torno da questão aborto se dá um fenômeno interessante: a maioria aprova sua descriminalização, mas a maioria acha que a maioria desaprova a descriminalização”, diz Ignacio Ramírez, sociólogo e diretor do Ibarométro, em entrevista ao portal Página12

Ele explica que esse mecanismo é chamado de “espiral do silêncio”, em que muitas pessoas não se posicionam diante do tema por causa da ideia de que existe uma opinião dominante na sociedade que as repreenderia. “Pronunciar-se a favor do aborto deveria deixar de ser percebido como uma opinião politicamente incorreta para ser concebida como a expressão de uma postura que é majoritariamente compartilhada.”

A pesquisa realizada pela Consultora Ibarométro teve alcance nacional. Foi feita pelo telefone com mil pessoas. Foram duas perguntas: O quão de acordo você está com a afirmação de que a decisão de interromper voluntariamente uma gravidez no primeiro trimestre de gestação é um direito da mulher? 58,5% responderam estar entre muito de acordo (33,3%) e de acordo (24,9%). Apenas 17,4% disseram não concordar e 18,2% disseram estar muito em desacordo.

A segunda pergunta dizia respeito à legalização da prática. 57,8% consideram que o aborto deveria ser legal, enquanto 28,3% responderam que deveria ser ilegal. Quase 14% se abstiveram de responder. Despenalizar o aborto significa que a prática deixaria de ser considerada um delito. Torná-la legal significa que o Estado deve promovê-la e garanti-la nos centros de saúde do país.

Revolução silenciosa

Para o diretor do Ibarométro, as transformações culturais, incluindo a mudança de atitudes, valores e representações sociais que guiam a conduta das pessoas, são pouco visíveis se comparadas às transformações políticas e econômicas que aparecem de forma mais clara na esfera pública. 

“O investigador norte-americano Ronald Inglehart vem documentando há mais de 30 anos uma profunda transformação cultural, de proporções globais, a qual chamou de 'revolução silenciosa'. Além de silenciosas, as mudanças culturais são mais lentas”. Como exemplo, ele lembra da discriminação de gênero. “Há tempo a lei deixou de hierarquizar homens e mulheres, mas por inércia cultural os mecanismos discriminatórios persistem em muitos campos”, diz.

Porém, ele ressalta que existem casos, como o aborto, em que a lei e a política são atrasadas em relação aos valores da população. “Esta nova pesquisa revela a majoritária posição a favor da descriminalização do aborto. E isso introduz desafios para a dirigência política, mas também – e especialmente – para os meios de comunicação e os formadores de opinião, que deveriam contribuir para que os argentinos atualizem a representação que têm de si mesmos”.

Só no papel

Há um ano começava na Comissão de Legislação Penal da Câmara dos Deputados a discussão em torno do projeto de Interrupção Voluntária da Gravidez nas primeiras 12 semanas de gestação, impulsionado pela Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, que contou com o apoio de mais de 50 deputados e deputadas, governistas e da oposição. Contudo, neste ano o debate não progrediu.

A Anistia Internacional esteve em Buenos Aires na semana passada para reivindicar que o debate seja retomado no Congresso. A assessora especialista em direitos das mulheres, Marianne Mollmann, assinala a criminalização do aborto como um sério problema de saúde pública. “Viemos perguntar ao Congresso argentino porque faz um ano que não debate a descriminalização do aborto. A penalização do aborto é um problema sério de saúde pública, que afeta principalmente os setores pobres da população.”

As informações são da Página12.