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Europa se mobiliza contra medidas de austeridade com greves e protestos

Enquanto milhares vão às ruas contra as medidas de austeridade, polícia responde com violência e chanceler alemã, que impulsiona os cortes orçamentários, reafirma aperto de cinto
por Redação Opera Mundi publicado , última modificação 14/11/2012 19h17
Enquanto milhares vão às ruas contra as medidas de austeridade, polícia responde com violência e chanceler alemã, que impulsiona os cortes orçamentários, reafirma aperto de cinto

São Paulo – A greve geral organizada pelos principais sindicatos do sul da Europa conta com forte participação popular na Península Ibérica, onde milhares de pessoas saíram às ruas das principais cidades da Espanha e de Portugal hoje (14) para protestar contra as medidas de austeridade fiscal aplicadas por seus respectivos governos. Foram registradas dezenas de prisões em decorrência de confrontos entre manifestantes e a polícia nos dois países. Os demais países europeus preferiram a realização de interrupções parciais, protestos em menor escala e conferências informativas sobre a situação de crise econômica e manifestações. As principais atividades ocorreram na Bélgica e na Grécia.

Na Espanha, embora o governo conservador de Mariano Rajoy fale que o país se encontra em um estado de “normalidade”, destacando o cumprimento dos serviços mínimos, houve grande adesão no setor industrial e nos transportes. Até as 11 da manhã locais (8h no horário de Brasília), foram confirmadas 110 prisões e mais de 40 pessoas feridas, entre elas, 18 policiais. De acordo com dados da UGT (União Geral dos Trabalhadores) e CC OO (Confederação Sindical de Comissões Operárias), principais centrais do país, o balanço das dez primeiras horas de greve contabiliza participação massiva nos setores da indústria siderúrgica, automobilística, química e construção civil.

As associações afirmam que há paralisação de quase 100% nos portos (a exceção de 90% em Bilbao e 50% em Melilla, cidade espanhola na costa da África), 90% dos aeroportos e no transporte rodoviário e ferroviário. “A paralisação na indústria foi quase total, embora tenha havido menor incidência nas fábricas da Renault e da Citroen”, afirma o secretário de comunicação da UGT, José Javier Cubillo. Em Madri, capital do país, a greve paralisou totalmente o serviço de metrô, segundo a UGT. Até as 6h da manhã, 131 voos e aterrisagens foram cancelados e apenas 28 foram operacionalizados.

A paralisação começou oficialmente à meia-noite. O primeiro ato ocorreu na Praça Porta do Sol, em Madri, onde os líderes sindicais discursaram clamando para que os trabalhadores não tivessem medo de ameaças feitas pelas empresas para que não seguissem a greve, e que as denunciassem. Os dois sindicatos esperam que a greve afete 80% dos trabalhadores em todo o país, com menos adesão nos setores de educação e administração pública. Segundo Cubillo, nas cidades vizinhas a Madri e Barcelona foram organizados protestos de caráter informativo organizados por associações cidadãs que nada tinham a ver com os sindicatos.

UGT e CC OO esperam que a alta adesão da indústria e dos transportes acabe por fazer com que o comércio seja afetado e não abra suas portas, o que já é verificado em ruas de Madri onde ocorrem os protestos. Alguns grandes estabelecimentos comerciais, como o El Corte Inglés, abriram sob forte proteção policial.

Portugal

No país vizinho, a greve foi convocada pela CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores de Portugal). A UGT (União Geral de Trabalhadores) não aderiu ao protesto, mas diversos sindicatos ligados a essa central optaram por convocar seus integrantes à adesão. A polícia reprimiu vários piquetes que promoviam a greve geral em garagens de ônibus de Portugal, e foi duramente criticada pela CGTP. Segundo porta-vozes sindicais e veículos de comunicação estatal, os maiores confrontos aconteceram em garagens de ônibus de Pontinha e Vimeca, no distrito de Lisboa. Não há informações de feridos graves nem de detenções.

O líder da CGTP, Arménio Carlos, criticou a presença de policiais e de forças especiais de segurança, como a tropa de choque, junto a piquetes de greve em Lisboa, classificando-as de “brutalidade”. “Esta pressão reflete o clima de preocupação do governo, que sabe que perdeu até a sua base de apoio eleitoral. Mesmo as pessoas que votaram PSD (Partido Social Democrata) e CDS-PP (Centro Democrático Social - Partido Popular) [que formam o governo] estão zangadas, revoltadas, e a utilização de forças de segurança, que deveriam estar a combater o crime, para intimidar os trabalhadores e os sindicatos é uma atitude inadmissível e um exemplo de brutalidade”, diz o sindicalista.

Carlos e os principais dirigentes das duas forças de esquerda do Parlamento português, o PCP (Partido Comunista de Portugal) e o Bloco de Esquerda, participaram durante a madrugada dos piquetes que promoveram a greve em Lisboa e convocaram a população a apoiá-la para mostrar rejeição à política de austeridade. O transporte coletivo ficou praticamente paralisado nas principais cidades portuguesas, afetando ônibus, metrôs e bondes. Apenas nos aeroportos se registra movimento normal. No Porto, norte Portugal, apenas duas linhas funcionam com expediente mínimo – apenas seis motoristas não teriam aderido à greve, afirma Orlando Monteiro à agência Lusa. A Administração do metrô não confirma a versão. Os setores de saúde afirmaram que não participariam do movimento, já os judiciários funcionam parcialmente.

Outros países

Na Grécia, as principais confederações sindicais do país, GSEE e ADEDY, assim como o sindicato de trabalhadores municipais (POE-OTA), convocaram uma greve de três horas contra as políticas de austeridade, como continuação à greve geral de 48 horas da semana passada, na qual a participação foi superior a 50%, segundo uma das centrais sindicais. Em Atenas, pelo menos cinco mil pessoas, segundo a polícia, participaram de uma passeata contra as políticas de austeridade na qual desfraldaram bandeiras dos países mais afetados pelas políticas de cortes: Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda.

Na capital belga, Bruxelas, sede das instituições da União Europeia, mais de mil pessoas, segundo a polícia local, se manifestaram na frente da sede da Comissão Europeia. O protesto, convocado pela CES e pelos sindicatos belgas sob o lema "Pelo trabalho e pela solidariedade na Europa. Não à austeridade", começou com uma marcha em frente às representações perante a UE de Chipre, Irlanda, Portugal, Espanha, Grécia e Alemanha, e culminou com uma concentração em pleno centro do bairro europeu.

Na Bélgica, os protestos foram notados com força em alguns setores, especialmente o ferroviário, onde a greve parcial convocada pelos sindicatos deixou sem serviço o sul do país e provocou fortes perturbações nas demais regiões. Dezenas de milhares de trabalhadores saíram às ruas na Itália nas mais de cem manifestações que foram convocadas hoje pelo sindicato majoritário, a CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho).

À convocação se somaram também os estudantes em várias manifestações contra os cortes na educação, e em algumas cidades, como Roma, Milão e Turim, foram registrados confrontos com a polícia que deixaram vários feridos entre as forças da ordem. Na capital francesa milhares de pessoas se reuniram na praça de Montparnasse para dirigir-se à École Militaire, perto da Torre Eiffel, na mais relevante das manifestações no país. Ali se concentraram os líderes das maiores organizações sindicais, em uma jornada na qual foram convocados na França cerca de 200 protestos.

Cerca de duas centenas de pessoas se somaram hoje ao ato de solidariedade convocado pela DGB (Confederação Alemã de Sindicatos) no simbólico Portão de Brandeburgo em Berlim. Membros da DGB, mas também de formações políticas da oposição social-democrata e da esquerda, se somaram ao protesto com um enorme cartaz no qual rejeitavam os cortes sociais na Europa.

No Reino Unido, dezenas de trabalhadores da companhia Crossrail, dedicada a operar trens, se manifestaram hoje perto da estação do metrô londrino de Tottenham Court Road para expressar sua solidariedade aos sindicatos europeus. Também foram registraram protestos similares em Manchester, Sheffield, Newcastle e Liverpool. Na Irlanda, pouco mais de 50 pessoas se concentraram perante o Banco Central Irlandês, no centro de Dublin, para mostrar sua solidariedade à jornada de protestos.

No leste europeu, representantes de sindicatos poloneses se concentraram hoje às portas do Ministério do Trabalho em Varsóvia para exigir mais emprego e menos cortes, em termos parecidos a outras concentrações em cidades como Gdansk, Poznan, Wroclaw e Katowice.

Austeridade

Principal defensora e articuladora da adoção de pacotes de austeridade econômica em todos os países da zona do Euro, a chanceler alemã Angela Merkel disse hoje que "respeita o direito à greve", mas voltou a defender a aplicação de suas ideias como a única maneira para se combater a crise a curto e longo prazo. Seu discurso, realizado durante um encontro bilateral com o  primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, em Berlim, foi considerado um recado aos líderes dos principais países devedores para não cederem à pressão popular. "O direito à greve é um costume democrático", apontou a chanceler, mas não tira a obrigação que os governos têm de "fazer o que for possível" para diminuir os impactos da crise na zona do euro, o que implicaria em aplicar "duras medidas e cortes nos gastos públicos".